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Um Mundo de Quarentena

Em Opinião

Quando posso, fico em ambiente doméstico a trabalhar. São as vantagens de se ser um profissional liberal que, com uma ou outra excepção, define os seus horários e determina como desempenhará as suas tarefas.

O dia 13 de Março de 2020, nesse domínio, tem sido como muitas dessas jornadas em que optei por não me deslocar ao escritório, laborando ao som e em interacção com risadas e choradinhos de um bebé de 10 meses.

Nesta ocasião, contudo, há uma inquietante pressão no ar que abafa o som; há uma sensação difusa de medo; há uma angústia que não se quer declarar como tal e que nos avisa de que, voando furtivamente por aí, um vírus nos quer coroar com espinhos exsanguinadores.

Pela primeira vez, nestes anos que enumero de existência – sendo eu caseiro em abundância –, quedei-me entre as paredes do meu acolhedor lar, porque quem governa o País me pediu – com um rosto que não me autoriza duvidar da honestidade desse condoído rogo – para evitar qualquer locomoção desnecessária e para tentar reduzir os contactos sociais a um mínimo. E eu que já ansiava por receber alguns amigos, como faço quase todos os fins-de-semana, para uma noitada de jogos e divertimento!

As incertezas amontoam-se. As despesas mensais continuam a chegar, revelando-se coisas excêntricas num contexto em que a normalidade está subvertida, e eu pergunto-me se, daqui a uns tempos, essas expensas (que, neste exacto momento, estão perfeitamente acomodadas a um orçamento familiar) se tornarão em garrotes opressores de uma vida?

Um advogado precisa de clientes e, se a crise se adensar – os efeitos recessivos estão ao virar da esquina –, aqueles que me pagam, compreensivelmente, poderão começar a emudecer ou até a desaparecer, porque também têm de poupar. O conselheiro e o causídico não são prioritários…

Claro que essa preocupação se pode revelar excessiva, até porque alguns daqueles que contam com os meus serviços gozam de bastante solidez financeira, mas e se… e se… mas… e se…

Em acréscimo, e apesar de haver doenças bem mais perturbantes e perigosas, é impossível fingir que não me aflige o conhecimento de que diversos familiares se enquadram nos apelidados grupos de risco – familiares muito próximos, diga-se – e de que a asma faz de mim, de igual modo, alguém que deve agir com cuidados redobrados para se proteger de um eventual contágio.

Situação duplamente desassossegadora, em termos emocionais, porquanto não só nos atribula o quotidiano, como nos afasta daqueles que amamos.

No final das contas, ninguém sabe qual é o resultado da equação. Ninguém sabe qual é a melhor abordagem racional às consequências de um mundo em quarentena.

O que sabemos é que um tal Coronavírus nos transforma em potenciais – ainda que involuntários – agressores e/ou assassinos das pessoas que estimamos! E isso, para mim, é extremamente difícil de suportar.

Esperemos que os portugueses consigam ultrapassar este épico ordálio, sem praias apinhadas de inconscientes ou jardins pejados de idiotas que afirmam não temerem a tempestade silenciosa que já nos assola.

Boa sorte!

João Salvador Fernandes

1 Comment

  1. COMO SAO FRAGEIS OS GOVERNOS TERRESTRES DOS HOMENS. BRUSCAMENTE APARECE O COVID – 19 E ELES FICAM LOGO DE JOELHOS!

    RUDI B. – NORDIC

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