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Jornadas ao estrangeiro da família real portuguesa

Em Ribatejo Cool

“Viajar com os Reis de Portugal, Seis séculos de jornadas ao estrangeiro da família real portuguesa”, por Miguel Ribeiro Pedras, A Esfera dos Livros, 2020, é um estudo redigido numa linguagem aliciante em que o seu autor, investigador de História, procura reconstituir viagens marcantes de membros da família real portuguesa, tendo como fronteiras D. Dinis e D. Manuel II. Viajaram à procura de conciliar reis em contenda, para procurar alianças, em visitas de Estado, em férias, para se encontrar com parentes de várias casas reais em puro lazer. São só algumas viagens, como o autor observa, não se trata de um trabalho derradeiro, nele, por exemplo, não se incluem relatos de membros da aristocracia que foram acompanhar príncipes e princesas consortes ou acertar casamentos régios, trata-se de uma documentação imensa, seguramente muito dela pejada do maior interesse para o estudo das mentalidades do tempo. O Círculo de Leitores publicou uma coleção de casamentos reais, permitem um olhar inovador a que a historiografia nem sempre dá a melhor atenção.

O texto da contracapa dá-nos uma síntese elucidativa do que o leitor pode esperar desta estimulante narrativa. Assim: “No início do século XIV, o rei D. Dinis e a rainha Santa Isabel deslocaram-se a Aragão para mediar um conflito que opunha este reino ao de Castela. Eram mais de mil os homens e mulheres que acompanhavam os soberanos portugueses por terras de Castela e Aragão, a maior comitiva que alguma vez se vira na Ibéria. Em 1425, seria a vez de o infante D. Pedro, filho de D. João I e D.ª Filha de Lencastre, partir para uma viagem pela Europa que duraria três anos. Durante a sua estada em Inglaterra, o príncipe mediou um conflito entre o conde de Gloucester e o bispo de Beaufort, que podia ter resultado numa guerra sangrenta. Em 1854, D. Pedro V realizou um périplo pela Europa com o objetivo de ‘melhor me habilitar a dirigir depois os destinos do povo que eu devo reger’, como escreveu no seu diário. Na bagagem trouxe ideias de desenvolvimento, nomeadamente o seu forte incentivo à proliferação da linha férrea em Portugal. D. Carlos, em 1901, viajou para Inglaterra para estar presente no funeral da rainha Vitória e, em 1907, o herdeiro do trono D. Luís Filipe partiu para África, naquela que foi a primeira viagem oficial de um membro da família real a este continente. Num momento em que Portugal estava no centro da polémica por ainda praticar a escravatura nas suas colónias, apesar de aquela ter sido abolida em 1869, o príncipe partia com o intuito de apaziguar a contestação. Em 1909, o último rei de Portugal realizou a sua primeira viagem ao estrangeiro, com o propósito subliminar de encontrar uma noiva”.

D. Dinis foi bem-sucedido a dirimir a contenda entre Aragão e Castela. Nenhum relato permite atestar as razões fundadas da longa viagem do segundo filho de D. João I, só há especulação. O que está documentado é que o infante chegou a Inglaterra e encontrou beligerância na regência do duque de Bedford já que Henrique VI ainda era menor para governar. O infante era primo direito dos regentes da Coroa Inglesa, a sua mãe, D.ª Filipa, era irmã do rei Henrique IV de Inglaterra, D. Pedro estava em família. Acalmados os ânimos entre os contendores, D. Pedro foi feito cavaleiro da Ordem da Jarreteira, e daqui partiu para a Flandres, foi festivamente recebido. É de Bruges que envia ao futuro rei de Portugal, D. Duarte, uma carta com recomendações e onde aponta caminhos à governação do país. Atravessa o Reno, irá encontrar-se com o imperador Segismundo, e depois integrou exércitos deste imperador, aquartelados na Roménia. Vem depois para Itália e daqui parte para a Catalunha. Nada se sabendo ao certo do que levou o infante a percorrer uma boa parte da Europa, aventa-se também a hipótese de que andasse a legitimar a nova dinastia, o que hoje se chamaria uma operação de marketing junto de outras cabeças coroadas. D. Afonso V vai a França, pretende obter apoio de Luís XI para as suas pretensões a Castela, veio de mãos a abanar, depois do seu regresso, Luís XI que andava em hostilidade com os Reis Católicos, fez as pazes, D. Afonso V, em estado de fracasso, entregou a governação ao príncipe D. João. A viagem de D. Pedro V, que foi acompanhado pelo futuro rei D. Luís I, está profusamente documentada, há livros sobre o assunto. Recebido calorosamente por Vitória e Alberto, o jovem monarca só procura trabalho e informações sobre o desenvolvimento industrial, móbil que o leva à Bélgica e à Alemanha e à Áustria. Posteriormente visitará a França e a Itália, um aristocrata que o acompanhou, deixaria nota da permanente obsessão do monarca: “uma ideia única e fixa o guiava em todas as suas visitas, em todas as suas observações, de notar em proveito do seu país o futuro das suas viagens”. E falece precocemente, deixou imensa saudade, era uma esperança que não se cumpriria.

O livro de Miguel Ribeiro Pedras faz-nos acompanhar as viagens de D. Fernando II. Quando viúvo de D. Maria II, sentiu-se atraído por uma cantora de ópera, Elisa Hensler, que se tornou companheira inseparável do príncipe alemão, e ficam registadas no livro as suas jornadas. A cantora terá o título de Condessa d’Edla, morrerá em Portugal em 1929, com 92 anos. Teremos igualmente as viagens dos reis D. Luís e D. Maria Pia pela Europa, acompanharemos o infante D. Afonso, irmão do rei D. Carlos até à Índia, para sustar uma rebelião, foi o momento de glória deste infante que voltou à sua condição periférica, pois este condestável do reino e último vice-rei da Índia, com o título de duque do Porto, partiu para o exílio em 1910 e morreu dez anos depois em Itália. Igualmente bem documentadas estão as viagens do rei D. Carlos em quatro diferentes períodos. Sonhara visitar o Brasil em 1908, mas foi assassinado em 1 de fevereiro desse ano. A rainha D.ª Amélia e os príncipes viajaram pelo Mediterrâneo, o principal objetivo no Mediterrâneo Oriental era o Egito, regressaram por Itália e por França, as visitas de família eram sempre muito bem acolhidas. O príncipe Luís Filipe vai a S. Tomé, Angola, África do Sul e Moçambique, era naturalmente um acontecimento ímpar, jamais um monarca ou príncipe herdeiro se acometera a tais jornadas. Quatro meses após o seu regresso, encontrou a morte no Terreiro do Paço. E D. Manuel II viajou para casar, havia promessas no Reino Unido, mas a questão religiosa foi mais forte. A sua derradeira viagem enquanto rei será de novo Inglaterra, foi assistir aos funerais de Eduardo VII. O casamento com uma aristocrata alemã ficará para anos mais tarde, no exílio.

Uma apreciável narrativa didática que colherá frutos, fica-se em crer. E vale a pena continuar a aprofundar esta dimensão da historiografia, ainda na obscuridade.

Mário Beja Santos

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