Dias brancos em fundo negro

Em Opinião

O contraste é agressivo, branco e preto, interpreta ritos e rituais, povoa a mente de artistas e escritores, obras de provindas concedem prazer a quem as desfruta, originando por sua vez novas criações, num movimento de – eterno retorno – tema que motivou indagações de Raul Proença e António Reis.

Também no domínio das epidemias o contraste existe, tivemos a terrível peste negra na Idade Média, a peste branca (tuberculose) ainda mata. A peste negra deixou imagens de terror, temor e tremor que podemos verificar nos museus e bibliotecas, a peste branca povoou o País de estabelecimentos de saúde, os sanatórios. O escritor Tomás Mann escreveu o romance Montanha Mágica no qual nos descreve o viver num sanatório embora de luxo no auge da moda de curar o bacilo em locais de bons ventos a originarem persistentes bons ares, não por acaso a estuante capital da Argentina se chama Buenos Aires. Por cá também vários sítios adoptaram os mesmos dois topónimos, daí uma boa marca de vinhos os usar. No tocante a preventórios e sanatórios esse património não mereceu tratamento científico e cultural o que não causa surpresa, causa encolheres. Procurei sensibilizar um autarca para esse activo cultural, no entanto, o depois deputado nunca o entendeu como mais-valia para o concelho. Convenhamos, o homem nunca esteve em Bath ou Baden-Baden. A cura pelos ares sempre mereceu a atenção da medicina, tal como a cura pelas águas, a maioria das pessoas espalha ventosidades, colhe maus cheiros colmatando-os não com persistentes lavagens e desinfecções, sim aspergindo-se amiúde utilizando perfumes, incensos e mastigando pastilhas e grãos adoçantes.

Metido no meu casulo obrigo-me a meditar sobre as fragilidades da condição humana, a impotência na erradicação das epidemias, no facto de as prodigiosas descobertas da ciência nesses domínios só conseguirem aplacar os tufões de micróbios.

Sem qualquer surpresa os opinadores a favor da eutanásia emudeceram, na altura o auge da mortandade provocada pela gripe espanhola foram enterrados doentes ainda vivos, o termos o vírus mortífero a roçarem-nos o corpo leva a mordeduras de língua, hoje podem ser aqueles, amanhã os nossos, depois nós próprios. A vizinhança com a Senhora da gadanha provoca receios mesmo nos mais corajosos. E viver, apesar de tudo, é viver. Nos últimos anos a dita Senhora levou-me um filho, para lá de familiares mais velhos. Só quem passa por semelhante transe mensura a profundidade da dor produzida pela perda de um filho, mesmo que anunciada em virtude da doença. A brutalidade do desgosto é incomensurável, o termos a espada de Dâmocles em cima do nosso pescoço provoca angústia todo o dia. Até quando durará o suplício?

Armando Fernandes

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