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Morreu o músico Pedro Barroso aos 69 anos

Em Ribatejo Cool

O músico Pedro Barroso, de 69 anos, morreu hoje de madrugada num hospital de Lisboa, disse à agência Lusa o seu filho, também músico, Nuno Barroso. Pedro Barroso, intérprete de êxitos como “Menina dos Olhos D’ Água”, festejou em dezembro passado 50 anos de carreira. O músico deixou gravado um álbum, “Novembro”, a editar “em breve”, segundo a discográfica Ovação.

Homem de música e palavras, da intervenção e da cidadania

“Homem de música e palavras”, assim se definia o músico Pedro Barroso, também artista plástico, pintor, que morreu hoje, em Lisboa, aos 69 anos, depois de ter celebrado, em dezembro, 50 anos de carreira, num “concerto de despedida”.

“Cesso atividade como músico, não me retirando obviamente, nem como homem das ideias, nem das artes, nem das palavras. E da diferença. Não abandono a intervenção crítica, nem a cidadania”, escreveu então.

No passado dia 08 de março o seu filho, Nuno Barroso, deu conta, nas redes sociais, da entrada do músico num hospital de Lisboa, “em fase terminal”.

Pedro Barroso deixou preparada a edição de um novo disco, intitulado “Novembro”, pronto a sair “tão breve quanto possível”, segundo o seu editor, Fernando Matias, que adiantou à Lusa que o CD inclui um dueto com o músico Patxi Andión, que morreu em dezembro último.

Para Pedro Barroso, que se estreou no programa televisivo “Zip Zip”, em 1969, “Novembro” constituiria a sua “despedida das canções”.

“A condição física, após mais um ano de tratamentos médicos, impede-me de tocar; e, mesmo na parte de canto, canso-me ao fim de minutos”, disse Pedro Barroso à agência Lusa, em dezembro, quando mantinha a firme disposição de fazer o adeus aos palcos, no dia 21 desse mês, no Teatro Virgínia, em Torres Novas, no Ribatejo. O que aconteceu.

Em 2009, quando celebrou 40 anos de carreira, Barroso defendeu que a “canção tem de consubstanciar algumas reflexões” e, sem rejeitar “o fazedor de chulas” que foi, como então afirmou em entrevista à Lusa, procurou também fazer “música bonita com palavras inteligentes”.

Refletindo, na ocasião, sobre o seu percurso, o músico afirmou: “Durante muito tempo fiz coisas que me encomendavam editorialmente, para vender. Podia ter ficado por aí, pelo ‘fazedor de chulas’ populares, mas desde há 20 anos que mudei de rumo”.

“Desde então – prosseguiu – comecei a fazer o que me dava prazer e tivesse a profundidade que eu desejava”.

Na altura, Pedro Barroso prometia “tirar uma licença sabática”.

“Irei dedicar-me mais ao Pedro Chora, pintor, que é uma outra faceta minha, e ao Pedro Barroso, escritor. Cantigas, só mais um ou outro disco”, acrescentou, nessa entrevista há quase 11 anos.

Da carreira musical, afirmou guardar “gratas recordações” e ter “um mundo de abraços” pelos muitos que espalhou. Se não tivessem sido as cantigas, disse, “não tinha conhecido mundo”.

O músico atuou por todo o país e efetuou concertos em Espanha, França, Croácia, Canadá, Estados Unidos, Brasil, Países Baixos, Bélgica, Suécia, Suíça, Luxemburgo, Hungria, Alemanha e China, em 50 anos de carreira.

Pedro Barroso nasceu em Lisboa, em 28 de novembro de 1950, numa família de Riachos, concelho de Torres Novas, onde viveu desde a infância, e que sempre considerou a sua terra natal.

Estudou música na Fundação Musical Amigos das Crianças, para onde entrou em 1959, prosseguiu-os como autodidata, e retomou-os na década de 1980, com a pianista Naria Luísa Bruto da Costa.

Em 1964, através da escritora Odette de Saint-Maurice, fez teatro radiofónico na ex-Emissora Nacional, altura em que, influenciado, por cantores franceses como Barbara, Gilbert Bécaud, Charles Aznavour, Edith Piaf, George Brassens e Leo Ferré, começou a compor e a cantar.

Estreou-se em 1969 no programa televisivo “Zip-Zip”, acompanhado por Pedro Caldeira Cabral (guitarra portuguesa) e Pedro Alvim (viola).

O primeiro disco, o EP “Trova-dor”, saiu em 1970, ainda sob o patrocínio do “Zip-Zip”.

Nesse ano iniciou colaboração como músico e ator com o Teatro Experimental de Cascais, onde se manteve até 1974.
Durante esse período dirigiu igualmente o Órfeão Académico de Lisboa (1970-1973).

Sem nunca esconder a oposição à ditadura do Estado Novo, nas suas composições, após o 25 de Abril de 1974 participou ativamente nas Campanhas de Dinamização Cultural do Movimento das Forças Armadas (MFA), pelo país.

Licenciado pelo Instituto Nacional da Condição Física, em 1973, estudou também Psicoterapia Comportamental. Lecionou a disciplina de Educação Física, no ensino secundário, durante mais de 20 anos. Entre 1986 e 1990, orientou ateliers de psicoterapia comportamental, no Hospital Júlio de Matos, em Lisboa.

Entre 1979 e 1981 fez o programa “Musicartes-Etnomusicologia e Património Cultural”, na RDP-Antena 2.

Em 1982, foi autor e apresentador, na RTP1, do programa “Musicarte”, ao qual se seguiu, em 1988, no mesmo canal, “Tempo de Ensaio”.

Na altura tinha já lançado o seu primeiro álbum, “Lutas Velhas Canto Novo” (1976), ao qual se seguiu um segundo LP, “Água Mole em Pedra Dura” (1978), que incluía um poema de José Saramago (“Afrodite”/”Nasce Afrodite, Amor, Nasce O Teu Corpo”), musicado por si.

Colaborou em projetos musicais de Ildo Lobo, do fadista João Chora e da cantora Simone de Oliveira.

Abriu a década de 1980 com o LP “Quem Canta Seus Males Espanta”, distinguido com o Troféu Karolinka no Festival Menschen und Meer (Pessoas e Mar, em tradução literal), da antiga República Democrática Alemã.

Na segunda metade da década de 1980, as suas melodias tiveram menos divulgação na rádio, embora em 1987 a canção “Menina dos Olhos d’Água”, do álbum “Roupas de Pátria Roupas de Mulher”, tivesse sido eleita a melhor do ano. Em 1988 editou “Pedro Barroso”.

Nesta época trabalhou também com Maria Guinot (1945-2018), José Jorge Letria, atual presidente da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), e participou no álbum “100 anos do 1.º de Maio” (1986).

Em 1990, editou o álbum “Longe d’Aqui”, a que se seguiram “Cantos d’Antiga Idade” (1994), “Cantos d’Oxalá” (1996) e “Criticamente” (1999).

“Crónicas da Violentíssima Ternura” datam de 2001, a que se seguiu “De Viva Voz”, em 2002. Em 2004 assinalou 35 anos de carreira com “Navegador do Futuro” e, em 2009, os 40 com “Sensual Idade”.

Em 2012 publicou “Cantos da Paixão e da Revolta”.

As suas canções abordam temas como a mulher, a solidariedade, a natureza e o amor. Muitas contam com textos próprios, mas musicou também poetas portugueses como Cesário Verde e Sophia de Mello Breyner Andresen, além de Saramago.

“Nas suas canções destaca-se a conjugação entre o texto e a música, característica potenciada pela sua interpretação centrada na enunciação clara dos sentidos da letra, utilizando pouca ornamentação e um ataque forte das notas e palavras-chave”, lê-se na “Enciclopédia da Música Portuguesa do Século XX”.

Do seu repertório destacam-se canções como “Canto Brejeiro”, “Viva Quem Canta”, “Menina dos Olhos d’Água”, “Cantarei”.

É também autor dos livros “Contos Falados” (1996), “Das Mulheres e do Mundo” (2003), “Contos Anarquistas” (2009), “Memória Inútil de Mim” (2012), “Palavras Malditas” (2013).

Promoveu o chamado “Manifesto sobre o estado da Música Portuguesa”, que viria a abrir caminho à legislação em vigor, sobre quotas de emissão.

Foi homenageado, em 2008, na Gala “Vozes de Abril”, da Associação 25 Abril, no Coliseu de Lisboa. Foi distinguido com prémios nacionais e no estrangeiro, e recebeu a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores, em maio de 2017. Nesse ano lançou o álbum “Artes do Futuro”, e atuou no Teatro Tivoli, em Lisboa, e no Coliseu do Porto.

Foi considerado “Ribatejano Ilustre”, pela Casa do Ribatejo, e o Município de Torres Novas concedeu-lhe a Medalha de Honra.

No passado dia 20 de dezembro, na véspera do derradeiro concerto, escreveu na sua página oficial, na rede social Facebook: “Sim. Corto a ‘jaqueta de forcado’ amanhã [dia 21], no velho Teatro Virgínia, pelas 21:30 – com testemunho de 600 cúmplices [espectadores]; e quero dizer com isto, que cesso atividade como músico, não me retirando obviamente, nem como homem das ideias, nem das artes, nem das palavras. E da diferença. Não abandono a intervenção crítica, nem a cidadania, pelo menos enquanto o último neurónio mo permitir”.

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