1925

Em Opinião

Meu pai teve como berço a beira água.

Choveu bastante, ontem, na cidade e o serão presenteou-nos com uma trovoada luminosa, cortejando os céus da noite, transformando-os no dia, que já não era.

O dinamismo da natureza lembrou-me o rio agora magro e assoreado, sedento de água.

Outrora, nadavam ali desde os quatro, cinco anos, protegidos pelos mais velhos, que os queriam fazer homens. As redes de pesca eram lançadas e, pela aurora, recolhia-se o produto, ansioso por saciar a fome das barrigas das gentes ribeirinhas e das gentes da cidade onde era vendido, no Mercado. Dormia-se nos barcos e olhava-se pelo que era seu.

Em bandos, iam até à outra margem, agarrando-se aos salgueiros, contra correntes quase sempre bravias, em aventuras impossíveis. Na invernia, quando mostrava toda a sua pujança, o rio era ainda maior tentação. Subiam ao pilar da ponte D. Luís e saltavam até ele, vencendo-o.

“Foram tempos felizes, aqueles”, oiço o meu pai.

Em 2009, em Talavera de la Reina, cidadãos de Espanha e Portugal manifestaram-se contra o transvase do Tejo para Segura e os desvios de caudal a que o rio tinha estado sujeito, condenando-o à agonia de deixar de ser rio. Um ano depois, surge nas redes sociais a “Plataforma de Toledo en Defesa del Tajo”, que reivindica a manutenção da sua praia ribeirinha urbana, mas que necessita das águas do rio, para ser alimentada e continuar viva. Em 2012, o I Fórum Ibérico do Tejo teve lugar em Santarém, no decorrer da Feira Nacional da Agricultura, com destaque para a Cultura Avieira e o seu reconhecimento como Património.

Três anos passados sobre a manifestação convocada pela “Plataforma em defesa do Tejo e do Alberche”, as palestras dos académicos e as intervenções políticas foram desanimadoras. O Fórum, o Tejo e os Avieiros foram notícia, mas os títulos podiam ser de hoje, com o Tejo a correr o risco de deixar de ser rio. Populações ribeirinhas e rios perdem a sua identidade, entre poderes decisórios portugueses e espanhóis, sob a pena de escreventes.

Se este inverno trouxer os campos d’água, os miradouros enchem-se de gente, cá em cima, que se demora a ver a lezíria alagada. Barcos transformam a nossa Ribeira em Veneza e os haveres protegem-se em lugares onde se anseia que a água não chegue.

Meu pai nasceu em Alfange, em agosto de 1925, junto ao Tejo que lhe encheu a alma e, certamente, também o estômago.

Fátima Vasques

19.10.2013

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