“Sociedade de Risco” e “comunidade de destino”: travar a fundo para recomeçar… de outro modo?

Em Opinião

Quando Ulrich Beck, em 1986, editou “Sociedade de risco” estávamos longe de imaginar o quão real se viria a tornar a sua teoria sociológica segundo a qual as consequências do desenvolvimento científico e industrial, e da globalização, criam um conjunto de riscos que não podem ser contidos espacial e temporalmente. Há 34 anos atrás, Beck dava nota dos riscos ecológicos, da precarização das condições de existência à escala global, da naturalização das desigualdades sociais, e da incerteza. Por seu lado, Edgar Morin apelidava esta “sociedade de risco” de “comunidade de destino”, o que significa que, como se diz na metaforicamente, “estamos todos no mesmo barco”.

Na verdade, as desigualdades entre continentes, países e classes sociais têm sido uma constante que as últimas décadas de crise monetária e de conflitos bélicos têm vindo a agudizar. As alterações climáticas, por sua vez, também têm sido cada vez mais frequentes e intensas, tornando mais precárias as condições de existência nalgumas regiões do globo. São exemplo disso os períodos de seca a alternar com fenómenos climáticos extremos. Mas uma ameaça biológica como a que vivemos à escala global nunca a havíamos sentido próxima, apesar dos testemunhos históricos da peste bubónica, em meados do século XIV, ou da gripe espanhola, no início do século XX.

Vivemos hoje um período excecional da nossa história recente. Em cerca de três meses, o que julgáramos uma epidemia na China transformou-se numa pandemia, com epicentro, por ora, na Europa. A Europa do espaço de Schengen, da livre circulação de pessoas e bens, de repente, fecha fronteiras, cerrando fileiras contra um inimigo comum: a gripe Covid-19 causada pelo coronavírus SARS-COV-2.

Assim, como que de repente, o mundo vai parando. As pessoas fecham-se em casa. As empresas diminuem ou cessam a sua atividade. Os serviços nacionais de saúde preparam-se para o que muitos comparam a uma guerra que importa ganhar, evitando o maior número de mortes.

O mundo divide-se entre os que não têm tempo nem mãos a medir, como os médicos, os enfermeiros e pessoal auxiliar do Serviço Nacional de Saúde, e os que estão em reclusão domiciliária ou em serviços mínimos. Entretanto, o teletrabalho invadiu repentinamente o domicílio de milhões de pessoas cuja profissão se sustentava na relação e na presença física.

As escolas fecharam, mas os professores veem-se repentinamente – a maior parte – confrontados com a necessidade de inaugurar novas formas de trabalho com os seus alunos. Aos mais vulneráveis, o Estado procurou garantir a possibilidade de uma escola de acolhimento ou de uma refeição quente. Mas a médio prazo importará garantir que todos tenham acesso a computadores e plataformas digitais de aprendizagem e, acima de tudo, que nãos lhe falte comida, bem-estar físico e proteção.

Depois disto, estou convencida que, na educação, já nada será como dantes. Arrisco a alvitrar que este momento disruptivo pode ser uma oportunidade de repensar toda a tecnologia educativa – e não me refiro às TIC, mas à necessária e imperiosa reorganização da escola. Quando a COVID-19 passar – e vai passar -, os tempos, os encontros e as metodologias de trabalho podem muito bem ser outros. Porventura, fará sentido repensar conceitos como “turma”, “sala de aula”, “equipa educativa”, “projeto”, mas também “cidadania” e “trabalho colaborativo”. Também noutros domínios nada será como dantes. Será racional manter o mesmo sistema económico, assente no monetarismo, no consumo compulsivo e na acumulação de capital?

O conceito de “cidadania” é, por estas horas de aflição, uma exigência para que o desastre não seja maior. A exigência do distanciamento social é, paradoxalmente, uma exigência de solidariedade e de compromisso com os outros e com a comunidade, como única receita que conhecemos para mitigar o contágio massivo de uma doença altamente transmissível e com um alto grau de morbilidade. Apesar de uma consciência coletiva, que se comprova com ruas vazias, há também os alienados, em negação, os que se encontram sem rede protetora, em país alheio e longe dos seus, e os que, de modo simplista, acham que basta ficarem fechados em casa e tudo se resolve.

A recém-aprovada declaração de “Estado de emergência” poderá alavancar mecanismos de proteção e de defesa dos cidadãos, mas infelizmente não irá fazer diminuir, nas próximas duas semanas, o número de infetados ou de “baixas”. Não irá também certamente acelerar a eficácia dos esforços dos cientistas para combater esta ameaça global. E, lamentavelmente não será de grande utilidade para enfrentar os duros tempos que se adivinham depois de controlada a pandemia. Aliás, faço votos de que não seja mais um risco a conter.

Suspensos no tempo, acalentamos a esperança de que, apesar do controlo e encerramento das fronteiras, a Europa desencadeie mecanismos de fortalecimento de solidariedade entre Estados. Caso contrário, cada país ficará entregue à sua sorte e, com isso, teremos uma Europa cada vez menos capaz de gerir crises à escala planetária, perdendo a sua pertinência geoestratégica nesta “comunidade de destino” de que fala Morin.

Novamente evocando Beck, desejo que, a uma primeira modernidade, em que assistimos ao fechamento dos Estados-nação, rapidamente caminhemos para uma segunda modernidade: a de uma sociedade cosmopolita que reinventa o conceito de nação, refletindo sobre direitos humanos, migrações transnacionais, o papel das organizações internacionais e o trabalho colaborativo de investigadores e peritos de todo o planeta.

Quando a Covid-19 for debelada, teremos um sistema económico global, tal como o conhecemos, devastado. As dificuldades por que iremos passar nos próximos dois meses, mas também a reclusão e o tempo introspetivo, irão obrigar-nos a refletir sobre a nossa “comunidade de destino”. Iremos agudizar o risco e as desigualdades ou estaremos disponíveis para evitar o pior?

Elvira Tristão

Professora

Autarca

1 Comment

  1. ESTA’ MAU PARA AS GERACOES CHEIAS DE VICIOS FICAREM EM QUARENTENA/CASA. E PELO ANDAR DA CARRUAGEM VAI SER DE ALGUNS MESES O TEDIO.

    RB – NORDIC

Deixar uma resposta

Recentes de Opinião

Para onde vamos?…

Durante uma grande enchente, um homem muito religioso, fanaticamente religioso, não quis…

A janela e o nojo

As vozes do dia-a-dia já não são iguais, ainda que pertençam às…

Ir para Início
%d bloggers like this: