Sociedade Portuguesa de Nefrologia defende plano de contenção para os 12.500 doentes hemodialisados

Em Saúde

O presidente da Sociedade Portuguesa de Nefrologia, Aníbal Ferreira, alerta para um “quadro que pode atingir consequências calamitosas para os cerca de 12.500 doentes hemodialisados e as respetivas famílias”.

Segundo Aníbal Ferreira, trata-se duma “população com idade média muito avançada, muitas co-morbilidades, frequentemente institucionalizada em lares e com elevadíssima proximidade física durante o transporte para as sessões de hemodiálise e durante o próprio tratamento”.

O presidente da Sociedade Portuguesa de Nefrologia “estranha que apesar dos esforços e da boa vontade expressa de todas as entidades envolvidas, continue a não existir um Plano Oficial Nacional de Contenção e Mitigação da Infeção pelo COVID-19 nos Hemodialisados Portugueses”.

Para Aníbal Ferreira, “a realidade tem-se encarregado, infelizmente, de tornar todos os planos obsoletos, mas isso não pode ser justificação para a ausência total de orientações oficiais, para uma população com tão elevado risco”.

Segundo o presidente da Sociedade Portuguesa de Nefrologia, “os principais prestadores de hemodiálise a operar em Portugal, têm Planos de Contenção Internos, já incorporando a experiência que recolheram noutros países da Ásia e da Europa. Estes planos têm funcionado como linhas de orientação avulsas, para os profissionais e as respetivas instituições, mas não substituem a necessidade de um acompanhamento normativo oficial”.

O presidente da Sociedade Portuguesa de Nefrologia identifica “seis emergências que têm de ser definidas nas próximas horas, caso queiramos minorar as consequências que se afiguram como potencialmente catastróficas, para esta população de doentes e para os Hospitais do SNS com Serviços de Nefrologia e com Unidades de Cuidados Intensivos:

“Definição de locais para dialisar doentes infetados (COVID-19 positivos), mas assintomáticos; Admite-se que o mais razoável será estes doentes ficarem em vigilância no seu domicílio (sob monitorização à distância da evolução sintomática, pelo Serviço de Nefrologia do Hospital Central) podendo fazer as sessões de hemodiálise agrupados com os restantes doentes infetados, mas assintomáticos, no seu centro de hemodiálise habitual, num turno e horário exclusivo”.

Transporte conjunto de doentes com testes de COVID-19 positivo e sobretudo, com a máxima urgência, implementar o transporte dos doentes negativos em transporte individual (táxi, plataformas TVDE, como a UBER ou equivalentes, etc.) Esta medida afigura-se como fundamental, evitando a infeção cruzada dos doentes. Pode ainda beneficiar da acentuada disponibilidade de táxis e viaturas TVDE, na atual fase de contingência.

Alocação dos recursos humanos com experiência em hemodiálise, em função das necessidades, entre as Unidades de Cuidados Intensivos, Serviços de Infeciologia, Serviços de Nefrologia e Unidades Periféricas de Hemodiálise.

Assegurar a manutenção do fornecimento dos equipamentos de proteção individual (EPI) aos transportadores destes doentes e aos membros das equipas terapêuticas dos centros extra-hospitalares.

Criar uma área de receção direta, mas segregada, em cada Serviço de Nefrologia, dos doentes hemodialisados suspeitos de infeção pelo COVID-19, permitindo a realização de avaliação clínica, de teste confirmatório da infeção, de decisão sobre a necessidade de diálise urgente, bem como da indicação para internamento ou para alta clínica.

A definição de regras de utilização de blocos operatórios e salas de intervenção para colocação de cateters de hemodiálise aos doentes COVID-19 positivos.

Aníbal Ferreira salienta que “os 12.500 doentes hemodialisados em Portugal, estão totalmente integrados no SNS, apenas fazendo sessões de hemodiálise em clínicas convencionadas, de acordo com o contratado com as autoridades sanitárias. Temos de ter para cada um deles uma resposta adequada e atempada, face às diferentes características que apresentam e complicações que venham desenvolver”.

Defende que “não podemos abandonar os nossos hemodialisados nas suas instituições de acolhimento comunitário, ou mesmo sozinhos nos seus domicílios, nesta fase de pandemia”.

“Temos de ter todos consciência que, esta população hemodialisada (que já de si tem uma mortalidade superior, por exemplo, à da maioria das doenças oncológicas graves), constitui um grupo de altíssimo risco para a disseminação da infeção entre os hemodialisados, bem como para os membros das equipas terapêuticas e de transporte de doentes”, afirma Aníbal Ferreira.

Salienta que “estes 12.500 hemodialisados, constituem uma população que, facilmente, pode contribuir para a rotura da capacidade assistencial pública de urgência, do Serviço Nacional de Saúde”.

A Sociedade Portuguesa de Nefrologia coloca-se “à inteira disponibilidade das autoridades sanitárias, da Comissão Nacional de Acompanhamento da Diálise, da Ordem dos Médicos, da Associação Nacional dos Centros de Diálise – ANADIAL, das associações de doentes e de todos os outros stakeholders da hemodiálise em Portugal, para contribuir para a otimização do tratamento dos nossos doentes”.

“Só a nossa união e conjugação de esforços nos permitirá ter sucesso, e vencer este que é, seguramente, o maior desafio clínico que enfrentámos na nossa vida profissional”, afirma Aníbal Ferreira, considerando que “todos são chamados a colaborar, em função das possibilidades de cada um. E, estou certo, que vamos continuar a ficar surpreendidos com o que conseguimos fazer, em conjunto, numa situação limite”.


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