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A janela e o nojo

Em Opinião

As vozes do dia-a-dia já não são iguais, ainda que pertençam às mesmas pessoas. Há um filtro vítreo que lhes confere uma isolacionista tonalidade, ligeiramente metálica, e nos consciencializa para o porquê dessa diferença: estamos fechados em casa, e, neste momento, os contactos encontram-se limitados a interacções por telefone e computador. Passou a ser obrigatório uma visita à janela para relembrar que o mundo exterior não desapareceu; e apetece-me dizer que o virtual tornou-se o real.

Esta coisa de se estar “fenestrado”, de se estar dentro de uma moldura de alumínio como se fôssemos uma fotografia viva numa fachada de um prédio, procurando pelo mais breve ciciar ou por algum curto movimento, ansiando pelo ronronar ocasional de um motor ou pelo cantar dos pássaros e estranhando o confronto visual com aqueles que, por este ou aquele motivo, cruzam as ruas quase desérticas das cidades e das aldeias, quase em absoluto silêncio, provoca um misto de sentimentos e interrogações que não é desconhecido das artes, mas que, creio, será uma experiência inédita para muitos dos meus concidadãos.

Quanto a mim, há uma pergunta que irrompe sempre que detecto um ser humano: terá saído por alguma razão justificada ou é outro descerebrado que pensa que o coronavírus também descansa ao fim-se-semana?

Perdoem-me o desabafo de quem não está habituado a tanto isolamento, porque a actualidade é vírica e não há como escapar à temática infecção!

Por isso, mesmo não fugindo ao assunto que nos persegue, escrevo-vos sobre o cometimento de um assassinato moral; escrevo-vos sobre o resultado de uma conduta hedionda e desprovida da mais elementar compaixão; uma punhalada pseudonoticiosa desferida por um jornal que deve ser apelidado de monstro!

O Correio da Manhã, na sua capa de 20 de março, considerou aceitável que se expusesse a imagem de uma senhora de 94 anos, recentemente falecida, e que se “colorisse” o seu rosto com o título: “Idosa de 94 anos morre infectada pelo filho.”

Lendo-se a narração dos factos, verificamos que não está confirmado que a fonte de contágio haja sido o seu filho, apesar de este se quedar internado no hospital, pugnando contra a coroada peste do século XXI.

Ou seja, além de se amontoarem incertezas acerca de quem transmitiu a maleita a quem, originando uma evidente dissonância entre a parangona e o conteúdo da notícia, esse plumitivo coio de malfeitores reflectiu e chegou à conclusão de que se poderia aproveitar, comercialmente, da dor fúnebre de um homem que, por força das tenebrosas circunstâncias que nos assolam, se viu impedido de sepultar a própria mãe.

O Correio da Manhã – ao jeito dos pasquins de outrora e corroborando ser um pasquim contemporâneo – envergou e sobrepôs as vestes de procurador, juiz e carrasco – numa lucrativa optimização de recursos – e deduziu libelo acusatório, prolatou sentença condenatória e largou a corda que segura a lâmina da guilhotina!

E um país inteiro absorveu o boato, como se fosse notícia, de que uma cria contribuiu, de forma negligente ou dolosa, e num contexto de pandemia, para o decesso da progenitora.

A culpa está atribuída! E não é ao filho! É ao Correio da Manhã!

Que nojo!

João Salvador Fernandes

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