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Uma ágil e didática história do mundo pelo prisma de dez impérios

Em Ribatejo Cool

Ascensão e Queda, Uma história do mundo em dez impérios, por Paul Strathern, Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2020, é uma descrição plena de vivacidade, usando com acerto notas espirituosas, indicações sobre formas de governar, fazer a guerra ou de como, inexoravelmente, definharam e extinguiram-se civilizações e culturas. O autor é professor de filosofia e matemática, tem uma escrita apurada para a comunicação fluída e uma boa divulgação. Escolheu dez impérios: o Acádio, o Romano, os Califados Omíada e Abássida, o Mongol, a Dinastia Yuan, o Asteca, o Otomano, o Britânico, o Russo, o Americano. Poder-se-á contestar a paleta escolhida, pode muito bem acontecer que haja contestação de quem estuda, Alexandre, o Grande, Carlos V ou Adolfo Hitler, a variação de critérios é infinita. O importante é que esta obra de Paul Strathern tem uma abordagem singular e regista aspetos civilizacionais relevantes. Logo o Império Acádio, associado ao Crescente Fértil, à Suméria, a descoberta da língua. Para quem não acredita na mudança climática, é conveniente que leia o que a arqueologia descobriu, aí por 2220-2000 a.C. toda a região do Mediterrâneo Oriental conheceu severas alterações climáticas, esta mudança custou a vida ao primeiro império do mundo, avaliação contestada por alguns historiadores. A escrita alfabética irá substituir os símbolos cuneiformes do acádio e do babilónio. Vem depois o Império Romano que está, pela sua génese, associado a lendas, e que deixou um legado impressionante na organização política, no sistema jurídico, na arquitetura, no modo de fazer a guerra, foi república e império, gerou uma civilização do espetáculo que demorou a igualar, e a sua literatura, não foi tão criativa como a helénica, deixou marca. Escreve o autor: “Enquanto os gregos antigos deram um contributo teórico fundamental, o contributo romano foi maioritariamente prático. A arquitetura grega, com o seu epítome na Acrópole de Atenas, era uma maravilha digna de toda a admiração. Contudo, foram os romanos que acrescentaram o pormenor prático final e em contraponto sob a forma da chave da abóbada, que tanto completava como unia as pedras do arco que desafiavam a gravidade”. Os imperadores começaram a vestir o manto da divindade, seguiu-se a depravação, atitudes que incitaram uma nova espiritualidade. Aqui o autor mete o pé na poça quando diz que não foi por acaso que a crucificação de Jesus Cristo tenha ocorrido durante o reinado Tibério, o que nos levava a perguntar quais são os fundamentos que ele descobriu para este acaso na morte de Cristo e por causa das divindades romanas e das depravações imperiais. Tudo acabou mal com as sucessivas revoadas de bárbaros e a queda de Roma. Segue-se o Império de Maomé, e Paul Strathern faz bem em pôr na mesma linha cronológica a Dinastia Yuan, assim iremos até Cublai Cão que, no século XIII, criou um poderoso império. Marco Polo visitou a capital em 1275 e ficou deslumbrado, era aí um dos términos da Rota da Seda, aqui se disseminavam as ideias, cientistas e filósofos islâmicos começavam a chegar à China, propagando a filosofia aristotélica e a medicina grega. Deve-se a Cublai Cão a reabertura do antigo Grande Canal da China, espantosa obra de engenharia que é ainda hoje a mais antiga e mais extensa via navegável artificial interior do mundo inteiro. Mas no mesmo patamar cronológico civilizações distintas tinham começado a evoluir, o Império Songai na África Ocidental, o Mogol na Índia e Ivã, o Terrível, emergira no ducado de Moscovo, e outras civilizações continuaram a existir num isolamento fragmentado, como acontecia com os aborígenes da Austrália.

A viagem prossegue pelo Império Asteca, muitíssimo bem descrito, até que chegaram os espanhóis, os Astecas não haviam desenvolvido imunidade a doenças tão comuns na Europa como a varíola, a cólera, a febre bubónica, a gripe e até a constipação comum. Por outro lado, os espanhóis quando regressaram levaram consigo a sífilis. O colapso do Império Asteca foi tão célere quanto aparatoso. O autor não se esqueceu dos Maias nem dos Incas, civilizações que foram votadas ao olvido até ao princípio do século XX. Seguem-se os Otomanos, que fizeram tremer a Europa, foi o último dos impérios à moda antiga, o império seguinte, o britânico, chegou rapidamente à Mesopotâmia e aos poços de petróleo. Foi glorioso, menos foi o Império Russo, mas este deixou conquistas que a União Soviética e depois a Federação Russa não desdenharam. Vá a Rússia para onde for, é de longe o maior país do mundo, cobre mais de 10 500 quilómetros quadrados. E estamos chegados ao poder norte-americano, à superpotência que começou por ser um pequeno território que cresceu à custa da compra e da conquista. Por exemplo, Jefferson comprou a Napoleão todo o território do Louisiana por 15 milhões de dólares, como se comprou o Alasca ao Império Russo por 7,2 milhões de dólares. País onde campeiam as divisões de classe, onde o racismo ainda não foi erradicado, constituiu a esperança para aqueles que fugiam da fome na Irlanda, para os Judeus perseguidos na Europa de Leste e para todos aqueles, provenientes de vários continentes que vinham à busca de uma nova oportunidade. E surgiram homens impiedosos, magnatas implacáveis como Vanderbilt, Carnegie, Morgan, Ford, Rockfeller, construtores de impérios comerciais. Implacáveis, mas com provas de generosidade, Morgan, em 1898, comprou ouro suficiente para salvar o dólar. No início do século XX, sem que os britânicos soubessem, os EUA tinham adquirido a supremacia, envolveram-se na construção do Canal do Panamá, provavelmente o maior projeto de engenharia realizado até aos dias de hoje, tiveram um papel determinante nas duas Guerras Mundiais, lançaram o sonho americano através de bens de consumo e da poderosíssima indústria de entretenimento. E na competição da Guerra Fria, puseram a URSS de gatas. No entrementes, a demografia e o engenho vindos da China e da Índia, fizeram tocar a sineta de que o poder americano já não está sozinho, ainda é absoluto o aparato militar, mas é disputado desde o paradigma digital até à produção ciclópica de bens de consumo baratos pelos asiáticos. O futuro a Deus pertence, o imprevisível espreita como sempre, é completamente inútil teimarmos nas previsões sobre o futuro do mundo, ainda por cima neste tempo de tanta desorientação introduzida pelo mais imprevisto dos elementos, o Covid-19.

Leitura apetecível e recomendável, é bom saber como todos estes impérios continham a semente da autodestruição desde o primeiro instante. E depois…

Mário Beja Santos

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