fbpx

Para onde vamos?…

Em Opinião

Durante uma grande enchente, um homem muito religioso, fanaticamente religioso, não quis abandonar a sua casa de forma nenhuma, nem deixou a sua família fazê-lo. A água entra primeiro no rés-do-chão da casa, quando passa uma canoa disponível para os levar. Mas a resposta foi: “- Não, obrigado. Deus vai-nos salvar.”

Quando a água já estava no 1º andar, passaram dois jovens num barco que também ofereceram transporte. A resposta foi a mesma: “- Não quero. Deus vai-nos salvar.”

Quando a água já quase que cobria a casa e eles estavam no telhado, passou um helicóptero para resgatar as últimas pessoas e alguém gritou para que o homem e a família subissem por uma corda para salvarem a vida. E mais uma vez retorquiu: “- Já disse que não. Deus vai-nos salvar.”

A água subiu ainda mais e toda a família morreu afogada.

Ao chegar ao céu, o homem, possesso, protestou com Deus: “- Puxa! Eu confiava em Ti. Sempre fomos à missa, sempre Te adorámos, sempre fomos bons! Porque nos deixaste morrer?

E Deus respondeu: “- Meu filho, mandei-te uma canoa, um barco e um helicóptero… O que mais querias que eu fizesse? Também tinhas de fazer a tua parte, ou não?!”.

O que acabo de lhes contar é, mais do que uma anedota, uma história, muito provavelmente não verídica, cuja moral e ensinamento levou uma amiga a quem a contei a não desistir da vida e a recuperar as forças para lutar contra um cancro.

Voltei agora a lembrar-me dela a propósito dos difíceis tempos que vivemos e da forma como os devemos encarar.

É verdade que nesta fase, como em qualquer altura difícil das nossas vidas, mesmo que poucos de nós tenham alguma vez vivido uma situação de alguma forma comparável a esta, temos mesmo de ter esperança, de acreditar no futuro, não desesperar com as dificuldades, mas não nos pode faltar também a coragem, a força, a determinação; não podemos ser passivos, não podemos deixar de agir, de nos defendermos, de ajudarmos os outros, não podemos nunca ficar à espera que Deus, o Estado ou seja lá quem for, façam tudo por nós.

Estes são tempos que nos têm de fazer entender que todos somos iguais. Todos diferentes, mas todos iguais. Diferentes no pormenor, iguais no essencial. Dizia Orwell no seu “Triunfo dos Porcos”: “os animais são todos iguais, mas uns são mais iguais do que outros”. Sempre achámos lá no fundo, e na verdade quase sempre assim tem sido, que alguns de nós são muito mais iguais do que outros, que alguns são superiores aos outros por serem mais ricos, por terem nascido em “berço de ouro”, pela raça ou por qualquer outro motivo sem nexo. Vem agora este minúsculo ser, apelidado de Covid-19, ensinar-nos que afinal somos mesmo todos iguais… pelo menos no sofrimento e nas escolhas da morte. Talvez por ironia do destino, o segundo morto pelo corona vírus em Portugal foi um banqueiro. E no Mónaco, um dos primeiros infetados, quando ainda só havia nove casos confirmados de infeção, foi o Príncipe Alberto

São tempos de pensarmos e de termos de perceber que a nossa hierarquia de valores e reconhecimento estava equivocada: um bom médico ou enfermeiro é muito mais especial, é muito mais essencial, é muito mais merecedor de compensação e reconhecimento, do que o mais espetacular e idolatrado futebolista.

Agora são tempos em que finalmente dispomos de tempo. Aquele tempo que sempre achávamos que não tínhamos, de que nunca podíamos dispor, para nós, nem para ninguém. Podemos agora pensar, meditar com calma, rever a nossa forma de estar na vida, pôr em causa a forma como estamos em comunidade, pessoalmente e em grupo, pôr em causa a forma como (des)protegemos o ambiente ou como vivemos à vontade num mundo de corrupção.

E são ainda tempos em que vamos perceber que nos adaptamos a tudo e que aguentamos grandes mudanças e grandes dificuldades. Que tal como só unidos e com o esforço de todos conseguiremos vencer este vírus, também só unidos e sem guerras conseguiremos levar as nossas vidas para frente, agora como sempre.

Em poucos dias o nosso Mundo mudou radicalmente, a nossa vida transformou-se por completo e nada mais voltará a ser igual. Vai ser à custa de muitas dificuldades, de sacrifícios brutais, mas quem sabe se será para que o futuro seja melhor?! Tenhamos essa esperança!

Francisco Mendes

1 Comment

  1. NESTES TEMPOS CONTURBADOS QUEM SALVA A VIDA DAS PESSOAS SAO OS MEDICOS/MEDICAS/ ENFERMEIROS/ENFERMEIRAS E NAO OS MERCENARIOS JOGADORES DE FUTEBOL.

    RB – NORDIC

Leave a Reply

Recentes de Opinião

Ir para Início
%d bloggers like this: