Alvará de estupidez

Em Opinião

Não faltam fábulas a mostrar como tipos que se julgam ungidos e elevados pelos deuses à categoria de sábios, não são outra coisa senão “sabichões das dúzias”, que é como o povo costuma desmascarar impostores, ainda que eles se disfarcem com as mais sofisticadas máscaras de magos dos números, sabichões da ciência ou da política. Alguns, disfarçando aleijões morais do seu oportunismo congénito, praticam com desfaçatez a magistratura da arrogância, que poderia fazer corar o mais ousado aldrabão, se os aldrabões encartados frequentassem esses universos da mentirinha de conveniência.Há-os de todos os tipos e em todos os quadrantes. Uns pequeninos, vegetando à escala doméstica da mediocridade provinciana; outros, em lugares selectos, chegando aos areópagos internacionais, como na União Europeia, ou na galeria de poderes absolutos, como Trump ou Bolsonaro (com licença de Vosselências, como diziam os camponeses da Beira, quando falavam de bacorinhos!). São todos imbecis. Pertencem àquela categoria de criaturas que parece terem guardado para si o alvará da estupidez. Anotem-se, no quadro dos figurões, o comportamento miserável do ministro holandês das Finanças e do seu presidente do governo, no Conselho da Europa, e da forma como trataram a situação espanhola, que é dramática e devastadora. Quando aquele país, como todos os outros, precisava de palavras e actos solidários, aqueles políticos brandiram o azorrague da intransigência e da indignidade, como se quisessem dilatar a vala comum para os mortos espanhóis, vítimas da pandemia. Valeu a resposta de António Costa para fazer regressar a humanidade à política. Deu-lhes uma bela lição de dignidade.Escrevo isto e lembro-me do famoso polemista, o Padre José Agostinho de Macedo, que podia ombrear na violência do verbo com Camilo. Dizia ele, quanto aos sujeitos que destilavam prosas biliosas ou afirmações nauseabundas, haver muitos indivíduos que davam coices com as palavras. E logo acrescentava sabiamente: se uma besta dá um coice, não se lhe corta a pata, puxa-se pela arreata. Doutra forma, cortando as patas às bestas que por aí andam, andaria meio mundo ao pé-coxinho…

Fernando Paulouro Neves

(jornalista e autor do blogue Notícias do Bloqueio)

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