fbpx

O meu 25 de Abril/74 na EPC

Em Opinião

Passaram quarenta e seis anos do tal dia e dou aqui o testemunho do que foram as minhas 48 horas passadas no Destacamento da EPC, como Aspirante Miliciano.

 Tinha terminado os três meses de recruta em Mafra, bem duros e já com algumas lutas políticas dentro do quartel e, em especial no meu pelotão onde eramos praticamente todos cadetes com formação universitária e com cursos completados, portanto com alguma tarimba das lutas estudantis e com níveis de politização acima da média. Depois dessa recruta, fui colocado na EPC com a especialidade de Atirador de Cavalaria, o que, se me deixou feliz por ser a minha terra natal e de residência, por outro lado me deixou apreensivo, pois era a especialidade em que praticamente todos os que lá caíam, eram mobilizados para as colónias. Devo dizer que a recruta em Mafra foi um passeio comparado com o que tive de “sofrer” em três meses no curso da especialidade que me calhou em sorte, sendo a EPC o quartel onde o curso era dado com os mais altos níveis de exigência em termos físicos e psicológicos, logo a seguir ao dos Comandos de Lamego. Fiquei em terceiro lugar no curso, com a esperança de não ser mobilizado por ter tido uma boa classificação. Felizmente isso não veio a verificar-se pelas melhores razões.Nesse período tive os primeiros contactos, embora distantes (era ainda um cadete instruendo) com Salgueiro Maia, Correia Bernardo e outros oficiais que foram determinantes para o que viria a suceder no 25 de Abril e com quem continuei o relacionamento, após terminar o meu tempo de militar.

No dia 24 de Abril os aspirantes milicianos estavam a iniciar as suas funções de instrutores numa recruta de sargentos milicianos, os quais tinham chegado ao Destacamento uns dias antes e que ainda se estavam a adaptar àquilo da “tropa” sem saberem bem ao que iam, mas conscientes do que os esperava em termos de exigência e dureza da instrução. Nesse dia (24) todos nós, aspirantes e sargentos milicianos dos esquadrões de instrução, fomos avisados de que teríamos de pernoitar no quartel. Eu, apesar de ter de cumprir todos os horários e deveres militares, tinha autorização para pernoitar fora e dormia normalmente em casa dos meus pais, na Rua Padre Inácio da Piedade, mesmo por detrás do Destacamento. Fomos instruídos para fazer a nossa vida normal e não avisar ninguém de qualquer alteração de hábitos pessoais ou rotinas no quartel, o que deixou alguns de nós desconfiados de que algo se estaria a preparar. Tinha ocorrido, recentemente, o levantamento das Caldas e todos adivinhavam que as coisas podiam não ficar por ali.

Lembro-me de que alguns de nós fomos ao cinema no Teatro Sá da Bandeira ver o filme “Spartacus” e que, antes da meia-noite, entrámos no Destacamento sem sabermos de nada do que já se passava na parada da EPC, onde se preparava a saída da coluna militar para Lisboa. Já não me lembro bem da hora em que veio a ordem para mandar sair os recrutas, mas foi já de madrugada que eu e os restantes aspirantes instrutores fomos às casernas para os acordar e mandar para casa. Não foi fácil arrancar alguns dos beliches e fazê-los vestir à civil, ordenando-lhes que fossem para casa. Muitos tiveram que ser forçados, pois pensaram estar a ser iniciada uma praxe daquelas que todos tinham ouvido falar e que eram também uma imagem de marca da EPC. Depois de ultrapassada esta fase, foram todos os instruendos mandados para o pátio junto da Porta de Armas (agora a entrada da PSP) e, em grupos de dez, foi dada a ordem de sair em passo de corrida para onde lhes aprouvesse. A maior parte dirigiu-se para a estação da CP, todos sem saberem quando regressariam, pois a ordem era aguardarem em casa e irem ouvindo as notícias até serem novamente chamados para completarem a recruta.

O dia 25 foi passado no quartel na expetativa, seguindo as notícias e desejando que tudo corresse como planeado. Para o dia 26 fui escalado como Oficial de Prevenção, mas devido às operações no exterior, que ocuparam grande parte dos oficiais escalados para esse dia, acabei como Oficial de Dia durante quase todo o dia 26, pelo que tive de me ocupar de algumas tarefas internas no quartel. Uma delas foi a detenção e guarda dos elementos da PIDE/DGS, cuja sede, em Santarém, ficava na Rua de Olivença e que foi, entretanto ocupada, com a rendição dos agentes que lá se encontravam. Uma das minhas missões, nesse dia, foi a de organizar e manter a guarda desses prisioneiros, o que fiz com enorme gosto e vontade. Lembro-me do desespero e até do choro de alguns desses trastes que naquelas circunstâncias perderam toda a sua arrogância e dignidade, mostrando a sua cobardia e o seu mau carater. Havia quem chorasse e pedisse para não ser morto. Talvez pensassem que iam ser fuzilados, ou torturados, como era a sua prática usada durante os anos da ditadura. Felizmente, a revolução não enveredou por esses processos e, passados dias, lá foram transferidos para a prisão de Alcoentre.

O resto, faz parte da história conhecida. O regresso da coluna com Salgueiro Maia, o povo na rua em Santarém, junto ao Destacamento e depois no largo da Câmara.

Seguiu-se a festa, a ligação POVO/MFA com as campanhas de dinamização cultural onde participei ativamente com o António Colaço. Mas isso é outra história que fica para contar noutra altura…se se proporcionar.

Armando Leal Rosa

24 de Abril de 2020

1 Comment

  1. ESTAMOS NA GUINE’ A FERRO E FOGO. FOI DURANTE O CERCO A GUIDAJE UMA OPERACAO POSTA NO TERRENO POR CERCA DE 900 GUERRILHEIROS DO PAIGC QUE O OFICIAL E CAVALHEIRO SALGUEIRO MAIA VIU UMA LUZ!? EM MAIO DE 1973 NA ESTRADA BINTA – GUDAJE, ONDE SE TRAVARAM OS MAIORES COMBATES DA GUERRA COLONIAL, QUE SALGUEIRO MAIA DISSE : ALGUMA COISA TEM DE SER FEITA PARA ……. PASSADO UMA DEZENA DE MESES. O RESTO E’ HISTORIA …….

    RB – NORDIC

Leave a Reply

Recentes de Opinião

Ir para Início
%d bloggers like this: