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O sindicalista Joaquim Faustino da Silva

Em Opinião

Neste 1.º de Maio de 2020 recorda-se aqui o sindicalista Joaquim Faustino da Silva, que se salientou na história social em Moçambique.

Nasceu no Vale de Santarém, em 1891. Iniciou-se nas lutas laborais em Almeirim, ainda muito jovem, quando ali trabalhava como empregado do comércio. A grande reivindicação deste sector profissional era na altura pelo direito a ter um dia de folga por semana.

Rumou depois para Lisboa, onde por volta de 1909 se tornou um ativo militante do antigo Partido Socialista Português, de cariz operário e marxista.

Esteve pela primeira vez em África no quadro da 1.ª Guerra Mundial, quando foi enviado como soldado para Angola, e aí ficou durante um ano.

Ainda regressou a Portugal, mas em 1918 emigrou para Moçambique, onde arranjou trabalho nos caminhos de ferro de Lourenço Marques (hoje Maputo).

Lourenço Marques

A capital moçambicana teve a particularidade de ter sido o cenário da mais importante experiência sindical sob o colonialismo português, no período da 1ª República (1910 a 1926).

A estrutura portuária e ferroviária que ali se desenvolveu, para servir interesses ingleses na África do Sul, suscitou uma especial concentração de trabalhadores qualificados na condução e manutenção de máquinas (vindos de Portugal). Além de outros sectores como empregados no comércio ou operários da construção civil.

Foi neste contexto que surgiram sindicatos e outras instituições de trabalhadores como cooperativas, associações e imprensa. E se travaram acirradas lutas laborais. Até existiu um núcleo socialista que chegou a atingir uma relevante expressão eleitoral.

O Emancipador

Na sua militância sindical e socialista, Joaquim Faustino da Silva salientou-se como um dos principais obreiros da Casa dos Trabalhadores de Lourenço Marques. Era um edifício construído de raiz em forma cooperativa para servir de sede a vários sindicatos, com outras vertentes como uma biblioteca e uma escola.

Foi também um dos principais responsáveis pelo jornal operário e antifascista O Emancipador, que ali se publicou desde 1919 até ser proibido pela ditadura de Salazar em 1937. Este jornal deixou um importante lastro histórico, vários dos seus colaboradores viriam a estar na linha da frente da oposição à ditadura em Moçambique até ao final da década de 1950.

Outro traço de O Emancipador foi a admiração que nele se expressou pela Revolução Russa. O mais entusiasta terá sido Faustino da Silva, que se tornou simpatizante comunista para o resto da vida.

Repressão republicana

Em 1925, no quadro de uma crise económica, as autoridades coloniais republicanas decidiram um corte profundo nas condições laborais dos ferroviários de Lourenço Marques. E despediram o seu mais destacado dirigente sindical nessa altura: Joaquim Faustino da Silva.

Em resposta e em solidariedade, um plenário com trezentos trabalhadores lançou uma greve. Resistiram quatro meses. Mas acabaram derrotados à força de prisões, deportações, despedimentos e substituições com trabalhadores forçados. Famílias de grevistas foram despejadas das casas onde moravam. A Casa dos Trabalhadores foi ocupada pelo exército. E não faltaram tiros.

Faustino teve que passar à clandestinidade e partir depois para o exílio na África do Sul, onde viveu cerca de 4 anos. Aí revelou simpatia pelo Partido Comunista da África do Sul e pela postura deste contra discriminações raciais.

Antifascista

Faustino da Silva regressou a Lourenço Marques pelo início de 1930, quando a ditadura militar ainda não se tinha tornado numa ditadura de cariz fascista, como aconteceria em 1934. Com exceção do setor dos empregados no comércio, o movimento sindical livre estava ali muito enfraquecido, mas ainda não tinha sido proibido.

Faustino engrossou então a oposição democrática à ditadura, como fundador e secretário-geral de um novo movimento político, a União dos Trabalhadores de Moçambique, que concorreu a umas eleições locais que ali ainda se realizaram em 1932. É também visível que teve nessa altura ligações com a oposição clandestina em Portugal (do PCP).

Em 1945 surgiu como um dos fundadores e dirigentes do MUD (Movimento de Unidade Democrática) em Lourenço Marques. Em 1949 participou na campanha presidencial do general Norton de Matos.

Memória

Joaquim Faustino da Silva ficou em África.

Faleceu em Lourenço Marques em 1972.

Guardou até ao final da vida um importante espólio do antigo movimento operário daquela cidade, o qual depois da independência se tornou património do Arquivo Histórico de Moçambique, integrado na Universidade Eduardo Mondlane.

Merece certamente uma recordação na história do sindicalismo português.

E também na história da terra e região onde nasceu e onde deu os seus primeiros passos de lutador – pelos direitos da classe trabalhadora e por uma sociedade mais justa.

Luís Carvalho

* Com um agradecimento a Ronald Ramos, neto de Joaquim Faustino da Silva, pela cedência da fotografia de seu avô que ilustra este artigo.

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