fbpx

Uma Abelha na Chuva, o monumento literário do neorrealismo português

Em Ribatejo Cool

Se Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio (1944) é a filigrana mais rutilante da literatura portuguesa da primeira metade do século XX, no dealbar da época seguinte, um autor ainda atreito à escola neorrealista, Carlos de Oliveira, presenteou-nos com uma obra-prima, hoje indispensável para conhecer os resquícios de uma sociedade rural do Antigo Regime, se bem que implantada em pleno Estado Novo. Carlos de Oliveira dividiu-se entre a poesia, e foi vate entre os maiores, e a literatura, por onde andou pouco mais do que uma década, deve-lhe um conjunto de obras de inegável significado, a sua última, Finisterra, é um ponto de interrogação sobre os limites da literatura, assunto por resolver. Sempre em revisão, de edição para edição, a reduzir e a secar os parágrafos, a compartimentar os capítulos, como se daquele laboratório da escrita estivéssemos obrigatoriamente implicados, como deve ser, em todo o ambiente, odores, retratos, vidas interiores, até mensagens sub-reptícias. E assim chegamos a um romance breve, a uma atmosfera sufocante, a um inverno de gândaras e dunas, a vidas derruídas, a rancores antigos e a castigos próprios da tragédia grega: Uma Abelha na Chuva, por Carlos de Oliveira, Coleção Miniatura, Livros do Brasil, 2020.

Como é possível despregar o olhar de um romance que arranca assim, num lugar que nada pode dizer a um jovem nado e criado em meios da sociedade de consumo: “Pelas cinco horas de uma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois da árdua jornada que o trouxera da aldeia do Montouro, por maus caminhos, ao pavimento calcetado e seguro da vila: um homem gordo, baixo, de passo molengão; samarra com gola de raposa; chapéu escuro, de aba larga, ao velho uso; a camisa apertada, sem gravata, não desfazia no esmero geral visível em tudo, das mãos limpas à barba bem escanhoada; é verdade que as botas de meio cano vinham de todo enlameadas, mas via-se que não era hábito do viajante andar por barrocais; preocupava-o a terriça, batia os pés com impaciência no empedrado. Tinha o seu quê de invulgar: o peso do tronco roliço arqueava-lhe as pernas, fazia-o bambolear como os patos: dava a impressão de aluir a cada passo. A respiração alterosa dificultava-lhe a marcha. Mesmo assim, galgara duas léguas de barrancos, lama, invernia. Grave assunto o trouxera certo, penando nos atalhos gandareses, por aquele tempo desabrido”.

Dirige-se ao jornal da terra, depois de ter bebido uns copos de aguardente, leva texto para ser publicado no próximo número do jornal, coisa mais bizarra não tinha aparecido naquele escritório, para ser dado conhecimento público: “Eu, Álvaro Rodrigues Silvestre, comerciante e lavrador no Montouro, freguesia de S. Caetano, concelho de Corgos, juro por minha honra que tenho passado a vida a roubar os homens na terra e a Deus no céu, porque até quando fui mordomo da Senhora do Montouro, sobrou um milho das esmolas dos festeiros, que despejei nas minhas tulhas. Para minha salvaguarda juro também que foi a instigações de D. Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre, minha mulher, que andei de roubo em roubo, ao balcão, nas feiras, na soldada dos trabalhadores e na legítima de meu irmão Leopoldino, de quem sou procurador, vendendo-lhe os pinhais sem conhecimento do próprio, e agora aí vem ele de África para minha vergonha, que não lhe posso dar contas fiéis. A remissão começa por esta confissão ao mundo. Pelo Padre, pelo Filho, pelo Espírito Santo, seja eu perdoado e por quem mais mo puder fazer”. É um homem derrotado, a metáfora de um tempo, vamos comparecer a um cenário de uma sociedade bloqueada, entre o grotesco e os sonhos juvenis, estes destruídos pela pura malevolência, a toda a hora desta escrita bate numa porta férrea o Antigo Regime, com o destino perdido, literalmente.

Entra em cena Maria dos Prazeres, viera na esteira do marido, gera-se confusão, amarrota-se o anúncio, regressam a casa, é o ruivo Jacinto quem conduz a charrete, uma viagem invernosa, Álvaro Silvestre ali vai a dormitar no rescaldo dos acontecimentos, Maria dos Prazeres não esconde o asco por aquela ruína humana, assalta-lhe o sofrimento de um casamento de conveniência entre uma aristocrata de província arruinada e uma promissora família burguesa, um daqueles conúbios entre a fidalguia sem meios e novos endinheirados, ávidos de brunir o nome, dar linhagem à descendência. Entramos em casa, está cheia de decorações do passado, segue-se um serão, D. Violante, o Padre Abel e mais tarde o médico, fala-se de amores ilícitos, é a imagem da hipocrisia, a fachada dos bons costumes. Assistimos aos amores eternos entre D. Cláudia e o Dr. Neto. Álvaro Silvestre teme o regresso do irmão, Leopoldino, que foi até às Áfricas e regressa bem-sucedido. Maria dos Prazeres, finda a comédia social, fecha-se no quarto, o marido fica entorpecido na sala, e ao primeiro alvor da madrugada entra-se no clímax, a tragédia espreita, Álvaro ouve uma conversa entre a filha do oleiro, Clara, e Jacinto, o cocheiro. Como um ferro em brasa, acode na conversa a sensualidade de D. Maria dos Prazeres que tem o olho em Jacinto, Álvaro prepara uma ignóbil emboscada, a tragédia grega está em marcha, vamos ter coro, os aldeões espavoridos, há conversas na mercearia, destila-se veneno sobre um velho cego que sonha para a sua filha um bom casamento com casa e hectares, o tempo é sincopado, Carlos de Oliveira não dá tréguas ao leitor, vai imiscuí-lo no coração da tragédia, não falta chuva nem tempestade, os diálogos estão reduzidos ao essencial. Cabe ao Dr. Neto a dor de não poder salvar uma vida inocente. Álvaro montara a intriga, ainda procura agir como grande proprietário, arreda do pátio a multidão que vinha participar mortes e detenções. Tudo se passa em praticamente dois dias e meio, exausto, o Dr. Neto, perdida a batalha para salvar uma vida, regressa a casa, e esta obra-prima absoluta abre o vigor da metáfora com um dos mais esmaltados parágrafos da literatura portuguesa, onde se encerra o segredo do título do romance:

“Por hábito, lançou os olhos às colmeias, que lhe ficavam mesmo em frente, dez ou doze metros, se tanto, e viu uma abelha voar da Cidade Verde. Batizava as colmeias conforme a cor de que as pintara, Cidade Verde, Cidade Azul, Cidade Roxa. A abelha foi apanhada pela chuva: vergastadas, impulsos, fios do aguaceiro a enredá-la, golpes de vento a ferirem-lhe o voo. Deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas”.

Este romance já fez parte de programas escolares, de onde estranhamente foi retirado. É bom que voltasse, não por ser o que há de melhor do neorrealismo literário, mas porque nos desvela a agonia do Antigo Regime numa transfiguração em pleno Estado Novo, é da melhor literatura com o dever da memória.

Mário Beja Santos

Deixar uma resposta

Recentes de Ribatejo Cool

Ir para Início
%d bloggers like this: