A inferioridade moral do PCP

Em Opinião

A pandemia de Covid-19, nalguns aspectos, tem tido um bem-aventurado efeito denunciador, expondo vícios e fragilidades de instituições que os escondiam sob uma patine de sucesso contínuo ou de superioridade moral.

Um exemplo deveras interessante dessa decadência, neste período de domínio do vírus coroado, é o conjunto de situações degradantes e irresponsáveis em que o histórico Partido Comunista Português se deixou enredar e que levam a questionar – de forma assaz entristecedora – se a existência da agremiação política ainda faz sentido.

Eu não me foco sequer no caricato momento em que o PCP, campeão discursivo dos fracos e oprimidos, vanguarda acomodada e pouco revolucionária dos trabalhadores e do povo, foi condenado pelo Tribunal da Relação de Lisboa a reintegrar um trabalhador que havia despedido ilicitamente. Dado o contexto, atenta a birra, o absurdo exalta-se e força-nos a escancarar o rosto numa sardónica risada.

Eu centro-me, sim, numa questão que já havia comentado em escrito anterior e numa recente decisão destes aburguesados marxistas-leninistas: a insistência na realização da Festa do Avante e a marcação de um comício para o sétimo dia do próximo mês.

O aferro na concretização de ajuntamentos, numa conjuntura como a corrente, impele-me a perguntar se os líderes comunistas estarão a compensar a evidente falta de espírito revolucionário com umas bravatas sem um módico de sensatez?

A mim, no entanto, parece-me que o agendamento da folclórica assembleia aprazada para dia 7 de Junho serve para desviar as atenções da dolorosa verdade: a colecta de fundos, convenientemente isenta de impostos, denominada Festa do Avante é demasiado rentável para que a saúde dos trabalhadores e do povo seja protegida.

À míngua de honestos intentos revolucionários que o dinheiro poderia, eventualmente, ajudar a materializar, viva o triunfo do Capital!

Ora, no nosso País, não escasseiam aqueles que apelidam o PCP de anacronismo ideológico e que asseveram nada haver que fundamente a sua subsistência. Eu sempre discordei!

Além do patriotismo confiável – que desafia o tão apregoado internacionalismo – e do respeito pela palavra dada, o Partido Comunista Português controlava o protesto de rua, conferindo-lhe estrutura e obediência às regras democráticas, e conseguia ser o principal repositório de votos de gente desagradada com o regime, prevenindo, por conseguinte, o surgimento de realidades políticas bem mais assustadoras do que uma entidade que, sob o grito da revolta, não passa de uma mansa e integrada associação de defesa do statu quo.

Notoriamente, a influência social do PCP vem-se perdendo ao contar do minuto e, decerto, este já não é, há muito, um partido aguerrido e clandestino, como idealizado por Lenine em “Que Fazer?”.

Por isso, o que sobra? O que sobra, especialmente, se o Partido Comunista Português abandona a sua postura  de organização séria e consciente?

Álvaro Cunhal, em 1974, escreveu um livro intitulado “A Superioridade Moral dos Comunistas.” Na aludida obra, o autor opõe a moral proletária à moral burguesa, reputando a primeira de melhor, uma vez que os princípios desta, no seu entender, seriam intrinsecamente mais justos.

Não sei, caros leitores, se a moral proletária é melhor ou pior do que a burguesa, nem sei se compreendo, na plenitude, os conceitos em adversarial contraposição, mas se a moral comunista envolve arriscar a vida de pessoas por interesses económicos, então, eu fico contente por não me encontrar no ungido rol de Camaradas moralmente superiores!

João Salvador Fernandes

1 Comment

  1. Gostaria ver os simpatizantes de um partido que esta’ muito na berra por ser contra tudo e todos TECLAREM comentarios sobre o seguinte : 1) QUAIS OS VALORES QUE DEFENDEM 2) QUAL O SISTEMA POLITICO QUE DESEJAM NO FUTURO PARA PORTUGAL (COMO ATE’ ‘A DATA NENHUM SERVE). Escrever ou chutar bitaites e’ facil quanto ao resto a tarefa e’ mais dificil.

    RB – NORDIC

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