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Negócio, serviço público e propaganda das farmácias

Em Opinião

Os 23 minutos que hoje “vão mudar a sua vida”… não mudar coisa nenhuma. Quando muito, poderão mudar a vida dos proprietários das farmácias que, coitados, vivem em dificuldades, como todos sabemos.

Há pelo menos uma década que a Associação Nacional de Farmácias se queixa de prejuízos, garantido agora que um quarto das farmácias estão em processo de penhora ou insolvência. Exactamente 702 farmácias, quando a ANF diz ter 2750 associadas. 

Agora, a associação volta à carga, sem pudor, a pretexto da discussão parlamentar de uma petição que deu entrada há um ano na Assembleia da República. Digo sem pudor, porque se trata de um sector de negócio que, em plena situação de pandemia, continuou a funcionar e a comercializar medicamentos e produtos de saúde, e porque utiliza uma linha telefónica que criou em março para ajudar os doentes, os utentes ou os clientes, é só escolher a designação, e que está a servir para passar 1 minuto de propaganda que repete a cada chamada.

Ao ligar para o número 1400 (uma linha gratuita para encomendas e entregas de medicamentos criada pela própria ANF), desde segunda-feira que a pessoa, enquanto espera, é obrigada a ouvir, até ao fim, que “Nesta quarta-feira, há 23 minutos que vão mudar a sua vida. É esse o tempo agendado pela Assembleia da República para o debate da petição ‘Salvar as Farmácias, Cumprir o SNS’, que mereceu a assinatura de 120 mil portugueses. Há 25% de farmácias em risco de encerramento”. Continuemos, pois, ainda em espera na chamada para o serviço de atendimento das farmácias: “Por falta de comparticipação do Estado, vários serviços farmacêuticos estão em risco. O Parlamento pode evitar que as farmácias sejam forçadas a suspender a vacinação contra a gripe, a dispensa de medicamentos hospitalares a doentes com cancro, SIDA, esclerose múltipla e outras doenças, e o acompanhamento de doentes crónicos em colaboração com os médicos”.

A mensagem está a ser repetida desde segunda-feira. Quem ouvir isto, e eu ouvi, fica a pensar que – se o Parlamento não votar a petição no sentido desejado pelos subscritores – todos estes serviços param. Acabou. Não há, nas farmácias, mais vacinação contra a gripe, dispensa de medicamentos hospitalares, nem nenhum dos outros serviços referidos.

O que se passa hoje, 27 de maio, é uma paragem “simbólica” da linha entre as 15h00 e as 15h23. A plataforma Informática de dispensa de receitas electrónicas fica 23 minutos inactiva. Pronto. Acho que nem a ANF quererá, afinal, mudar “a sua vida”. 

O serviço de encomendas e entrega de medicamentos e produtos de saúde é de louvar em qualquer circunstância, mas ainda mais numa situação de pandemia em que o confinamento era regra geral, fortemente recomendado pelas autoridades de saúde e mesmo obrigatório em alguns casos. 

Houve milhares de pessoas a recorrer à Linha 1400 estes dois meses, e as farmácias lá terão as suas razões para uma petição a pedir apoios estatais para o sector. Apesar da fama de mau pagador, neste caso, o Estado não está em falta com qualquer comparticipação e, também aqui, a ANF é falaciosa, como fica claro nas palavras do presidente da ANF. Paulo Cleto Duarte vê as coisas assim: “A indecisão do Estado deixa os farmacêuticos comunitários entre a espada e a parede. Por um lado, a sua consciência profissional impede-os de deixar de servir um único doente. Por outro, a sobrevivência das farmácias proíbe-os de continuar a prestar serviços gratuitamente, sem qualquer comparticipação por parte do Estado”.  

Portanto, o Estado não pode estar a dever serviços que não contratou e a paragem de hoje, durante 23 minutos, é só linha de apoio. Ponto.

A petição que hoje é discutida deu entrada no Parlamento há um ano.

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