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Uma viagem empolgante às transformações socioculturais dos anos 70

Em Ribatejo Cool

Eduardo Mendoza é um dos mais ilustres escritores espanhóis, possuidor de uma obra literária entusiasmante a todos os títulos. Este seu O Rei Recebe, Sextante Editora, 2020, tem que ser tomado como inaugural de uma nova trilogia que irá percorrer os principais acontecimentos da segunda metade do século XX.

Estamos em 1968, e em Barcelona, terra natal de Eduardo Mendoza, depara-se-nos um protagonista um tanto assético e à deriva, Rufo Batalla, é licenciado em Línguas Germânicas, à falta de melhor entrou como estagiário num jornal vespertino da cidade.

Ao tempo, a imprensa cor-de-rosa era de menor dimensão, era preciso ser Grace Kelly ou Jacqueline Kennedy para merecer holofotes continuados da simpatia popular. É nisto que Ruffo é enviado para o seu primeiro encargo jornalístico: cobrir o casamento de um príncipe exilado com uma dama da alta sociedade, em Maiorca, já invadida pelo turismo de massas.

A cena do casamento é de antologia, Ruffo entra praticamente ignorado, parece sujeito a um sequestro, nem pão e água lhe dão, e nisto aparece o príncipe, muito cavalheiro e pimpão, que lhe redige integralmente o formato da entrevista, para primeiro trabalho jornalístico obterá o aplauso do diretor e da redação.

Quem casa é o rei legítimo da Livónia, um reino lá para o Báltico, ocupado pela União Soviética, com longuíssima história, chegou a ser administrado pela Ordem dos Cavaleiros Teutónicos, as perguntas batem certo com as respostas, o rei exilado mostra o seu amor entranhado pela pátria, a noiva não tem sangue azul, mas para que os leitores apreciem devidamente a escolha, atenda-se à sua resposta: “Os Montcrecy receberam-me com a bondade e nobreza próprias da sua classe e desde o princípio abriram-me de par em par as portas do seu castelo de West Yorkshire. Mas, se não tivessem dado o seu consentimento, estou convencido de que o resultado teria sido o mesmo, a minha esposa é uma mulher delicada de aspeto, mas de caráter firme e forte de personalidade”.

Como nos romances barrocos, feita a entrevista para uso comercial, o putativo monarca da Livónia espraia-se em dados históricos, é urbano, corre mundo, não desdenha as práticas da socialite, tem que ganhar a vida.

Se o leitor pensa que o episódio fornecido pelo casamento está encerrado, desiluda-se, o nosso jornalista volta a Barcelona, vamos saber como funciona a Espanha de Franco, iremos acompanhar a trajetória política de Fraga Iribarne, daqui se salta para uma viagem de rufo até Praga, haverá um encontro com intelectuais, o descontentamento popular leva o líder colonista Alexander Dubcek a tentar reformas, tudo correrá mal com a Primavera de Praga.

O mundo está em mudança. Os Beatles estão no auge da fama, o príncipe envia de Londres o LP Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, morrem Guevara e Martin Luther King, há ecos do movimento hippie, é nisto que o diretor do jornal lhe propõe que crie uma revista cor-de-rosa, será a Gong, pressente-se a aposta: “Os jornais são um fóssil e a rádio só é ouvida pelas porteiras. A televisão? Tretas”.

Então o que é que interessa publicitar? “Um pouco de tudo, sem abusar. Entrevistas curtas e reportagens gráficas. Gente fina, se for bonita. Nada de reis, cantores, sobretudo estrangeiros. De preferência italianos. O folclore, nem tocá-lo. Decoração, cozinhas de ácido inoxidável, casas de campo com relvado e piscina. Nada de receitas: as sopeiras podem ler a revista, mas não é dirigida a elas. A análise, os franceses que a façam. Livros? Nem um, exceto se tiver sido escrito por uma rapariga nova e tiver tido êxito. O feminismo, nem pouco mais ou menos; não nos incumbe. Militares, só de farda e medalhas. Com a religião, nada de piadas: não têm graça e dão problemas”.

Vamos conhecer os colegas de Rufo, Claudia vai entrar na vida de Rufo, é uma história de amor pouco mais ou menos. Desvela-se a Espanha dos costumes, e quando Rufo, com a concordância de Claudia vai anunciar que afinal os putativos nubentes não passam de amigos, recebe uma lição de história da Espanha, saiu do encontro sem poder revelar a verdade. E parte para Nova Iorque, Rufo virá a ser testemunha das grandes mudanças em curso: o antirracismo, o feminismo, a afirmação gay e as novas vanguardas artísticas, descrições primorosas. Trabalha na Câmara de Comércio, as atividades são desenxabidas.

É muito do estilo de Mendonza dar-nos uma fotografia de quem vai aparecendo, marcando presença por muito ou pouco tempo, são textos saborosos, um exemplo: “Javier Piñol era um alicantino afável e sem malícia que afetava ares de aristocrata centro-europeu. De um modo vago lembrava Erich von Stroheim. Talvez um resto de pudor o impedisse de usar monóculo. Apesar desta aparência inquietante, a única coisa que de verdade lhe interessava era a comida. Rondava os 50 anos e permanecia solteiro, muito a contragosto, segundo confissão própria”. E apresentado o pessoal da Câmara de Comércio, tece um comentário apimentado: “Cada uma destas personagens teria podido passar por demente em qualquer conjunto humano exceto no peculiar mundo do funcionalismo, tão rígido na sua rotina como lasso no tocante ao comportamento pessoal”.

Vamos conhecendo as parcelas de Nova Iorque e como a memória de Ruffo anda num vai-e-vem entre esta cidade e Barcelona. As relações são furtivas, os Estados Unidos são confrontados com o caso Watergate, a Guerra do Vietname vai sobressaltando a opinião pública norte-americana e Ruffo vai-nos dando conta do que mudou em termos de tolerância de costumes.

Juan Carlos e D.ª Sofia visitam Nova Iorque, o franquismo está a estrebuchar, Ruffo tem uma relação morna com Valentina, encantam-se com o cinema dos grandes filmes, mas vão também a recitais de música clássica, frequentam galerias de Arte, Nova Iorque é um vespeiro de correntes de vanguarda.

“De repente senti-me cansado de viver encerrado naquela atmosfera de ar viciado, ruído estridente e cimento. A muito pouca distância, bastando atravessar o Hudson, iniciava-se o ar puro de uma sucessão de bosques cerrados. Nada me impedia de alugar um carro e penetrar no silêncio da natureza. Mas nunca o fazia. Em contrapartida, estava ali, a chocalhar por ruas sujas e perigosas, a caminho de qualquer coisa que nada me podia oferecer”.

E então vai ocorrer um novo encontro entre o pretendente ao reino da Livónia e Ruffo, o príncipe pede-lhe para levar uma carta a determinado destinatário, que vive em Tóquio, de novo o príncipe dá uma lição histórica sobre a Livónia, belíssimo texto se não perdermos de vista que é pura ficção.

Quando se prepara, um tanto resignado, para ir a Tóquio, é assassinado em Madrid Carrero Blanco, Ruffo decide-se regressar a Barcelona, passara o fim de ano com a família.

É hora de fazer balanço: “Tinha-me esforçado por me manter à margem de uma sociedade que, aos meus olhos, se baseava em princípios injustos e opressivos, e também me tinha afastado das alternativas que se me ofereciam. Mas a esta rejeição não soubera contrapor uma postura condizente, nada me tinha corrido mal mas nada me tinha corrido bem”. Recordo ao leitor que estamos no início de uma trilogia literária, temos ainda muita história pela frente, só nos falta saber onde e com quem. Mas uma coisa é certa: é muitíssimo boa esta literatura.

Mário Beja Santos

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