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O coronavírus e a indústria da carne

Em Opinião

Este texto tenta ilustrar a realidade na indústria da carne num contexto das crises ecológica, sanitária e económica. Posteriormente procura sugerir soluções de curto e de longo prazo.

  1. As fragilidades que o Coronavírus expôs e as respostas necessárias

Segundo alguns cientistas, o aparecimento deste vírus é uma consequência da forma como a vida humana tem tratado o planeta. Ou seja, o aparecimento e proliferação deste vírus é uma entre várias manifestações de uma crise ecológica (onde as outras manifestações são por exemplo o aquecimento global, os desastres naturais, a perda de biodiversidade e a ocorrência cada vez mais frequente de acontecimentos meteorológicos extremos).1 2 3

Como diz Ricardo Rocha4, biólogo tropical, “Os habitats na sua condição natural são a nossa maior barreira contra elementos patogénicos que estejam presentes na natureza. Ao avançarmos para estes habitats, temos uma maior interação com esses novos elementos patogénicos, mas também alteramos as comunidades biológicas desses mesmos locais. Ao alterarmos as comunidades biológicas desses locais, animais que não estavam em interação uns com os outros passam a interagir e isso pode levar a assaltos de vírus, bactérias, fungos, tudo o que seja elementos patogénicos, de uma espécie para outra que podem gerar uma nova combinação ou uma estirpe nova que possa ser problemática para a nossa espécie. A literatura científica aponta a destruição de habitats naturais como a maior causa para a passagem de doenças de outras espécies para o homem.”

Ao mesmo tempo, o mesmo modelo neoliberal que tem explorado o meio ambiente e destruído a biodiversidade tem obrigado vários países a cortar em serviços públicos essenciais, como são os serviços de saúde. No nosso país, os cortes sucessivos no Serviço Nacional de Saúde durante a intervenção da troika fragilizaram a oferta dos cuidados de saúde necessários à população. No entanto, o caso do norte de Itália é muito mais paradigmático das consequências dos vários cortes no setor da saúde visto que esta região de Itália foi devastada pelo coronavirus5.

O próprio modelo de comércio livre existente dificultou o acesso a bens essenciais no início da pandemia, como por exemplo máscaras, ventiladores, álcool desinfetante e alguns medicamentos.

Na minha perspetiva, para prevenir o aparecimento de novos surtos deste vírus, o aparecimento de outras epidemias e para responder às fragilidades que esta pandemia causou só há uma alternativa: deixar de ver a economia de mercado como a única possibilidade.

Está então na altura de mudarmos alguns aspetos da nossa sociedade: desde a nossa relação com o planeta, passando pelo aumento do investimento em serviços públicos de qualidade, o aumento de direitos e rendimentos no emprego e a erradicação do desemprego. Se não procedermos a estas mudanças corremos o risco de colapsar enquanto sociedade e até de nos extinguirmos enquanto espécie.6

  1. A crise sanitária no setor da carne

Um pouco por todo o mundo tem-se verificado uma crise de infeções por coronavírus (covid-19) nas fábricas de carne.7 Não será por acaso, visto que este é um setor que acumula os seus lucros através da exploração de animais e humanos.

Segundo Patrik Gažo8, “Um animal na pecuária industrial é apenas uma máquina em máquinas, um corpo irracional, um bem para venda, para consumo e para subsequente lucro. A este processo da chamada mercantilização não escapou nada vivo ou mesmo morto (…). O seu valor e importância são determinados por um cálculo económico sem coração.” Mais à frente no mesmo texto escreve: “Obviamente, a racionalização da produção e automatização na criação e abate de animais também teve impacto nas pessoas que trabalham nas quintas e matadouros. Os trabalhadores estão igualmente sujeitos à maximização da produtividade. Desde o aparecimento dos primeiros pavilhões, os trabalhadores que lá trabalhavam eram na sua maioria imigrantes e de vários grupos socialmente marginalizados, vivendo na miséria e sem a possibilidade de se sindicalizar. Padrões de segurança baixos ou inexistentes, trabalho acelerado com objetos afiados, o ar cheio de pó e sujidade – tudo isto contribuiu para que o trabalho na indústria da carne se tornasse um dos trabalhos mais perigosos e mentalmente adversos de sempre.”

Considero importante referir que, embora não haja ainda evidência de que outros animais possam ser infetados pelo covid-19, existe a possibilidade do vírus se adaptar e adquirir a capacidade de infetar os animais utilizados na pecuária intensiva. Caso isso aconteça, as consequências seriam inimagináveis.

Em Portugal atualmente verificam-se no mínimo três fábricas com problemas de contágio de coronavírus entre humanos: Montijo, Santarém e Azambuja.

No caso de Santarém, as medidas de higiene e de segurança não foram tomadas atempadamente, o que fez com que a determinada altura houvesse 200 pessoas enviadas para casa por terem sintomas. Atualmente, muitos dos funcionários desta fábrica optam por não usar o refeitório (benefício a que têm direito, visto não receberem subsídio de alimentação) por falta de confiança na higienização deste espaço. Nesta fábrica, que pertence à Sonae, mais de 50% dos trabalhadores são contratados via empresas de trabalho temporário.

Mais complicado parece o caso da empresa Avipronto, na Azambuja, que chegou a contabilizar 125 casos positivos num universo de 300 funcionários – até que a mesma teve que fechar. Entre os relatos denuncia-se a não disponibilização de máscaras, a contratação de trabalhadores via empresas de trabalho temporário e a falta de condições de segurança.9

A estrutura sindical SINTAB escreve o seguinte10 sobre estas duas empresas: “(…) contínua prática da publicação de regras elaboradíssimas, apenas para inglês ver, têm sido fator catalisador das situações de contágio coletivo como as que assistimos na Avipronto da Azambuja e na SOHI Meat de Santarém”, confirmando assim que o problema está longe de ser resolvido.

Penso que é importante recordar que estes trabalhadores são considerados trabalhadores essenciais, visto depender deles o abastecimento de alimentos. Inclusive, durante os dois estados de emergência que foram decretados estes trabalhadores continuaram sempre a sua atividade, ao contrário de muitos outros setores. Por isso, que sentido faz trabalhadores que são essenciais estarem constantemente sujeitos à falta de condições de segurança e de higiene? E que sentido faz a precariedade de estarem vinculados apenas temporariamente e através de subcontratação?

  1. O que fazer?

Na minha visão, no imediato estas empresas devem dar todas as garantias de segurança aos seus trabalhadores. Se assim for preciso, devem reduzir a produção de forma a que se possam cumprir as distâncias mínimas. A segurança destes trabalhadores deve estar à frente do lucro das empresas.

No entanto, como vimos, o modo de operar deste tipo de empresas é estrutural. Ou seja, é estrutural a vontade de maximizar o lucro enquanto tratam os animais como mercadoria (sem ter em conta que são seres vivos sencientes) e enquanto exploram os seus trabalhadores, sujeitando-os a vínculos precários, baixos rendimentos e a falta de condições de higiene e segurança.

Torna-se então necessária uma mudança na forma como estas empresas exercem a sua atividade. Em primeiro lugar, terão que valorizar os seus trabalhadores, admitindo que são sujeitos providos de direitos e as suas reivindicações devem ser ouvidas e solucionadas da melhor forma. Deve-se recorrer o mínimo possível a empresas de trabalho temporário para suprir as necessidades de mão-de-obra.

A produção deve principalmente ter em conta critérios de sustentabilidade, deixando para trás o modelo de maximizar a produção.

Os animais devem ser tratados como seres vivos que são, eliminando todo o sofrimento que atualmente é infligido a estes seres, seja durante o crescimento, no transporte ou no abate. Devem ser descontinuados os pavilhões em que mal têm espaço para se movimentar, dando primazia a condições o mais parecidas possíveis com aquelas que teriam caso vivessem no seu habitat natural.

Como disse no início do texto, a nossa sociedade tem que mudar radicalmente alguns hábitos que foi adquirindo com o sistema extrativista, através do qual vê tudo e tod@s como fonte de rendimento.

As vidas humanas, a biodiversidade e os recursos naturais não são meros recursos para o mercado, são parte integrante deste planeta que queremos e temos de proteger.

Francisco Cordeiro

Notas:

1 Boaventura de Sousa Santos em “A Cruel Pedagogia do Vírus”

2 Sonia Shah em “Contra a Pandemia, Ecologia”: https://diplomatique.org.br/contra-a-pandemia-ecologia/

3 Philippe Descamps e Thierry Lebel em “Uma Antevisão do Choque Climático”, Le Monde Diplomatique ed. Portuguesa, maio de 2020

4 https://sicnoticias.pt/programas/a-ciencia-e-a-pandemia/2020-05-07-Covid-19-Medo-dos-morcegos–Assustador-seria-o-Mundo-sem-morcegos?fbclid=IwAR0gYJLvGPiiKVZGAP_W7ormjrB6BCLXTeEPfs8wrXdcuATMbEo-sVhGwVs

5 https://www.esquerda.net/artigo/bergamo-o-massacre-que-os-patroes-nao-quiseram-evitar/67205

6 Cédric Durand e Razmig Keucheyan em “A Hora da Planificação Ecológica”, Le Monde Diplomatique ed. Portuguesa, maio de 2020

7 https://www.publico.pt/2020/05/12/mundo/noticia/surtos-covid19-alastram-industria-carne-expoem-trabalho-condicoes-1916055

8 https://www.esquerda.net/artigo/quem-nao-estiver-disposto-falar-de-capitalismo-tambem-nao-deve-falar-da-pecuaria-industrial?fbclid=IwAR0L_1_q9z_9Ev24NoNIiRt__xr3ouz9H80-gIQFwmDcUvkdmZAkSAwNyhs

9 https://maisribatejo.pt/2020/05/12/trabalhadora-da-avipronto-denuncia-falta-de-equipamentos-e-medidas-de-prevencao-da-covid-19/

10 https://www.facebook.com/notes/sintab-sindicato/indústria-da-alimentação-casos-recentes-são-a-ponta-de-um-grande-iceberg/3058144990895554/

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