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As lições que não se aprenderam nos EUA

Em Opinião

A onda de revolta que agora percorre os EUA é a apenas a mais recente de uma série de revoltas com fundamentos raciais que assolam ciclicamente os EUA a cada vinte anos. Estes ciclos revelam um problema estrutural na sociedade americana e que radica na desigualdades raciais e económicas gritantes nesta sociedade e que dificultam o acesso a habitação, emprego, educação e rendimentos de qualidade à comunidade negra.

A tensão racial permanente foi agora apimentada pela presença de um presidente incendiário e pelos meses de confinamento: ambos escalaram o problema e conduziram a uma série de saques a lojas que embora descredibilize o movimento de contestação pela injustiça das circunstâncias que rodearam a morte de George Floyd revelam que nos EUA a próxima vaga de distúrbios está apenas à distância de um pavio muito curto…

Apesar de os quatro polícias envolvidos no incidente terem sido despedidos, e, em particular, o agente Derek Chauvin, que colocou o joelho no pescoço de Floyd, estar detido e acusado de assassínio em terceiro grau e de homicídio involuntário, a recente vaga de distúrbios nos EUA não parece estar a ser contida pelas autoridades. E não está porque estão a ser cometidos erros de palmatória:
1. Já se devia saber que começar uma manifestação colocando à frente dos manifestantes um grande aparato de força: polícia de choque completamente equipada, blindados e uso de gás lacrimogéneo logo nos primeiros momentos mais não faz que acicatar à violência e, de facto, pode tornar uma manifestação política numa manifestação violenta.
2. Se uma manifestação tem um momento de violência este tende a escalar: à primeira reação violenta o outro lado tende a aumentar o nível de violência até um ponto em que a manifestação degenera completamente numa orgia descontrolada de violência.
3. A este respeito as polícias europeias e, em particular, a portuguesa, parecem muito melhor preparadas que as forças policiais das cidades americanas. Na Europa existe um foco muito maior na comunicação entre manifestantes e o comando das forças policiais pese embora alguns erros: Vi há anos numa manifestação pela habitação em Lisboa motas com polícias de negro evoluindo no meio de uma manifestação pacífica numa exibição desnecessária mas também reparei que geralmente a PSP mantêm as suas forças em distância segura mas discreta precisamente para evitar essas exibições e provocações. Por outro lado, em todas as manifestações em cuja coordenação estive fiz sempre questão de me apresentar e ir entabular conversa com os polícias que asseguravam a segurança da manifestação e sempre fui bem acolhido pelos agentes que aqui se encontravam de serviço.
4. Idealmente, antes de qualquer manifestação, deve haver contactos entre os organizadores e as forças policiais por forma a que ambos conheçam os planos da manifestação, horas e percurso e todas as actividades que vão ter lugar. Se algo sair fora dos carris do acordado, a polícia responderá pela força, mas pelo menos os manifestantes terão essa antecipação e poderão preparar-se – procurando acalmar e conter as suas hostes – reduzindo assim a violência da resposta e a perturbação à ordem pública.

Rui Martins

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