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Tenham lá calma com a “metralhadora emocional”!

Em Opinião

Se estiver disposto a partilhar um diálogo, em vez “disparar a metralhadora” emocional ao primeiro movimento, vale a pena ler o artigo. Se não estiver é melhor deixar já a leitura!

Não vou pedir-lhe para concordar ou discordar, só vou sugerir-lhe que pense antes de tirar uma conclusão.

Reage a uma manifestação de milhares de pessoas pela imagem de um cartaz odioso e provocador?

Se sim, então deixe de ler e mande daí uns impropérios. Quem lhe diz se não sou cigano? Ou descendente do ditador e assassino o espanhol Franco?

Tenho vários familiares e amigos polícias, gosto deles. Não é por usarem farda que os defino, nem qualquer pessoa.

Quem escreve uma provocação num cartaz sabe que o está a fazer. Resta nós sabermos se foi pago para isso. Mas temos de reagir a um provocador ou estúpido com outra estupidez?

Ainda há pouco tempo, numa crónica de rádio, elogiei a atitude da polícia de Santarém perante um caso de violência doméstica que tentámos ajudar. É preciso que fique claro: a atitude de um polícia não é a atitude de todos os polícias, mal ou bem. Você sabe que a violência doméstica é um dos principais problemas de Portugal? Alguma vez viu os que destilam ódio e posicionarem-se contra essa violência?

Vamos à farda. Os militares que fizeram o 25 de Abril usavam farda, tinham andado numa guerra opressora sobre outros povos e sobre nós próprios, hoje são chamados de heróis.

As forças militares e militarizadas são o último recurso deste poder económico e desta ideologia dominante. É aqui que entra o papel estrutural da violência! Quando os de baixo põem em causa a opressão dos de cima estes tentam recorrer à repressão pela violência. Ninguém tenha ilusões, é isso que tem acontecido em todos os regimes?

A cultura de ódios é a cultura da estupidez emocional. O caso é sério porque hoje muitas pessoas reagem emocionalmente a milhares de mensagens falsas colocadas no facebook ou escrevem com o ódio na ponta dos dedos. Como a revista Visão demonstrou, hoje há quem procure criar uma imagem diferente da realidade com propósitos políticos violentos, extremistas e racistas.

A violência e os ódios crescem nas redes sociais, você quer trazê-las ainda mais para a vida real? É isso que você quer, uma sociedade de violência, tipo EUA ou Brasil? Ou você quer antes uma sociedade dialogante?

A contra-informação, a manipulação de imagens e vídeos atinge hoje um grau e uma gravidade tão elevada com reações emocionais e intempestivas que só aumentam tensões, estupidez e ódios. É assim que a extrema-direita cresce. Foi assim que Bolsonaro e Trump ganharam eleições – com os consequências que se estão a ver.

O caso é mesmo muito sério: eu conheço bem a realidade do racismo. Tenho orgulho de ter sido padrinho de casamento de um negro e uma branca, ele muçulmano e ela católica, moradores num bairro de periferia de Sacavém onde despejaram os pobres que viviam na zona da Expo 98.

Sei o que é os meus afilhados não poderem escrever a morada num pedido de emprego porque só escrever “Quinta do Mocho” é sinónimo de exclusão. Conheci as mulheres que começam a trabalhar às 5, 6 ou 7 da manhã nas limpezas fabris, ou de escritórios, contratadas por empresas de trabalho temporário e precário que lhes ficam com metade do salário. Sei o que são crianças que ficam em casa de vizinhos, parentes, sozinhas ou na rua até à hora da escola. Vi e andei nos autocarros com essas pessoas. Hoje esses autocarros, em tempo de pandemia, estão apinhados de gente – sem qualquer distância de segurança… Coisa que a maioria dos que protestam pelas manifestações não falam.

E sabe que muitas dessas pessoas trabalham ao dia? Trabalham à segunda para ter comer à terça…

Portanto, tenham lá calma com a “metralhadora emocional”!

Há um problema de racismo em Portugal e no mundo. Há um problema de pobreza e exclusão social que afeta mais as pessoas negras e ciganas. É essa mola que impulsiona as pessoas para a rua!

É preciso diminuir as tensões: e também há bons exemplos na polícia como temos visto na polícia do EUA. As tensões, os problemas diminuem atribuindo a todas as pessoas melhores serviços públicos, melhores salários, mais estabilidade no emprego, mais democracia… Direitos e deveres iguais para todas as pessoas num melhor Estado Social.

Você tem alguma coisa contra o bem estar de todas as pessoas?

Você quer “disparar metralhadoras de ódio” ou quer contribuir para uma sociedade mais saudável?

Todas as vidas contam!

Por fim, foi com gosto que participei na simbólica ação anti-racista em Santarém [veja aqui]. De lá trago-vos um convite que a professora Ana da Silva nos trouxe. Compre o livro “Tanto Tanto”, [oiça aqui a história] e conte-a história às suas crianças.

Vítor Franco

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