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A (des)esperança 3 meses depois…

Em Opinião

Dizia eu na minha primeira crónica da era Covid, já no passado dia 17 de março:

Se, por um lado, o isolamento físico, social, a que agora temos de estar confinados, não pode deixar de nos afastar emocionalmente uns dos outros, levando-nos a focar-nos ainda mais nas redes sociais e no virtual, pode ser que, por outro lado, e com o passar do tempo, esta dificuldade comum e universal nos una mais como humanidade e nos faça esquecer as divergências bacocas, as lutas sem sentido simplesmente pelo domínio do poder, ou outras vezes por um bocado de terra ou de outro qualquer bem material, e nos torne seres mais solidários, cooperantes ou tão-somente mais amigos.

Ou vamos perder mais uma vez uma grande oportunidade de mudança por nos voltarmos de novo a esquecer muito rapidamente da “tempestade” quando vier a “bonança”?!…

Tomaremos consciência, ou talvez não, de que o mundo não mais pode nem deve continuar como tem estado: guerras sem nexo, migrações sem rumo, consumo exacerbado, sistema financeiro sem qualquer sustentabilidade, ambiente deixado ao acaso, egoísmo sem limites e cada um de nós focado no seu umbigo, agindo como se nem sequer para conhecer os nossos próprios filhos tivéssemos tempo… A economia colapsa, mas a poluição diminui e o ambiente poderá ter mais futuro. Talvez se venha a perceber que precisamos de uma vida mais natural, que temos de privilegiar a pacata vida no campo relativamente à opção dos últimos anos pela economicista racionalidade da concentração das populações nas cidades.

Temos, hoje mais do que nunca no passado, de saber, de estar conscientes, que a nossa vida muda de um momento para o outro, quando e pelos motivos que podemos considerar menos prováveis. Não há quem possa ufanamente, como quantas vezes ainda acontece, considerar-se superior aos demais, pela sua situação económica, pelo suposto status ou seja lá pelo que for… Tudo é efémero, tudo muda, nada mais é como dantes…

Aprendemos alguma coisa com as situações passadas? E vamos agora desta vez aprender?! Vamos interiorizar que não vale a pena andar a correr atrás do rabo, tentando ao longo de uma vida inteira ter e conseguir o que um simples e desprezível ser nos retira numas horas?! Vamos voltar a não tirar ilações dos ensinamentos que a vida nos põe à frente, como aconteceu com a crise económica e financeira que se iniciou há uma dezena e tal de anos e de que ainda não nos tínhamos conseguido livrar completamente?!

Será que podemos ter agora o Mundo de férias durante dois, três ou mais meses e continuar depois tudo como se nada tivesse acontecido connosco?!

Mas, como nada é só negativo, esta será uma oportunidade para pensarmos, para revermos a nossa vida, as nossas opções, as nossas posturas, a nossa contribuição social. Aproveitemos este tempo. Tomemos consciência de que podemos viver de uma forma completamente diferente.”

Já na crónica da semana passada falei genericamente e com alguns exemplos de mudanças que vieram para ficar, para fazer parte da nossa vida. Umas boas, outras nem tanto.

Mas aquela esperança de mudança mais profunda nas gentes e nas suas atitudes, mesmo que moderada e cheia de interrogações, que o texto da minha crónica de há ainda menos de três meses, que lhes acabo de reler, transmitia, já não está assim tão empolgada na minha mente. Começo a ter a sensação de que estamos de novo a pensar que tudo está a voltar ao que era, que, mais dificuldade, menos dificuldade, a nossa vidinha de sempre está a voltar…

Talvez isso seja só uma impressão minha! Vamos esperar que sim…

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