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Santarém pós Covid 19 (Parte II) – Preparada para mudar?

Em Opinião

Na minha anterior abordagem deste tema, neste mesmo sítio (Parte I https://maisribatejo.pt/2020/05/30/santarem-e-o-pos-covid-19/) e depois da leitura de vários relatórios e artigos de estudiosos sobre a matéria, confirmam-se três premissas principais, como conclusões inequívocas da vida pós pandemia:

  1. Uma enorme percentagem dos empregados dos serviços aceitam e procurarão o teletrabalho, preferencialmente fora das grandes cidades.
  2. A quase totalidade das empresas com empregados de escritório, utilizaram durante o confinamento e vão continuar a optar pelo teletrabalho para esses funcionários.
  3. As medidas restritivas impostas à população, podem prolongar-se por anos, ou serem retomadas ciclicamente, face à forte probabilidade do surgimento de novas pandemias.

Quais as consequências destas novas tendências trazidas por esta crise, para o futuro e para a vivência nos pequenos e médios centros urbanos periféricos? Para responder a estes desafios e aproveitar as várias oportunidades que os novos paradigmas podem gerar, a visão e o planeamento estratégico são fundamentais.

Há que aproveitar as mudanças no mundo do trabalho e oferecer condições atrativas a todos os que, enveredando pelo teletrabalho, querem beneficiar das vantagens de viver fora das grandes cidades, sabendo que irão beneficiar de um custo de vida bem mais baixo e de uma melhor qualidade de vida.

Santarém é, talvez, das pequenas/médias cidades do País, aquela que recolhe mais fatores objetivos de desenvolvimento e de condições para oferecer aos seus habitantes uma qualidade de vida que poderia ombrear com qualquer uma das consideradas cidades ideais para se viver, em qualquer parte do Mundo.

A sua localização e as acessibilidades que a servem são únicas e podem constituir fatores importantes para captar novos residentes e inverter a tendência da diminuição do número de habitantes que se vem verificando ano após ano. Aqueles serão fatores importantes, mas não suficientes, caso não sejam criadas outras atratividades e resolvidos os seus inúmeros problemas estruturais.

Tendo como pano de fundo as três premissas mencionadas acima, o que deveria ser feito numa cidade como Santarém para oferecer boas e modernas condições aos atuais e aos potencias futuros cidadãos? Sem pretender ser muito exaustivo, aqui vão algumas ideias, bebidas em muito do que se prevê vir a ser feito pelo mundo:

1.º- Criar novos centros de atividade cultural e desportiva é urgente. Caso não haja uma estratégia e planeamento para, a curto/médio prazo, suprir essas insuficiências estruturais, isso será um forte óbice à fixação e atração de novos residentes e o convite à fuga de muitos dos atuais. (Por exemplo, faltam uma verdadeira sala de espetáculos e estruturas desportivas inclusivas e ecléticas)

2.º- Planear uma cidade futura amiga do ambiente, prevendo uma mobilidade fortemente assente em energias limpas, tanto nos circuitos urbanos coletivos, como na ampliação das ciclovias, na promoção do uso de veículos elétricos e no aumento da área pedonal. Também será importante prever a criação de espaços amplos, para que se possa manter o distanciamento social, que incentivem a atividade física e que sejam mais vegetados, de modo a melhorar o microclima e a qualidade do ar, mas sempre baseados na combinação de estratégias de soluções integradas à natureza, com o emprego de tecnologias centradas no cidadão.

3.º- Reforçar a democratização do acesso a redes e infraestruturas digitais (free wi-fi em parques, jardins e espaços públicos) e apostar nos novos paradigmas tecnológicos. Deixando de lado o questionamento político desses mecanismos, temos que constatar que a crise tornou latente a necessidade de ampliação das soluções de IoT (Internet das coisas), Big Data e Inteligência Artificial na gestão das cidades. Dois exemplos já utilizados em algumas, foram o uso de robôs e drones nos sistemas de distribuição e entrega de bens

4.º- Promover novas atividades comerciais, particularmente em lógicas de proximidade a áreas residenciais e de facilitação de aquisição de bens de primeira necessidade. Por exemplo incentivando a criação de sistemas inovadores de e-commerce local, promovendo redes de pequeno comércio (especialmente na área alimentar, da saúde e de serviços domésticos), e criando mercados públicos em zonas de maior densidade habitacional (tema que aprofundei num artigo aqui publicado em Junho de 2019 (https://maisribatejo.pt/2019/06/15/justifica-se-um-mercado-municipal-em-santarem/)

Estas pequenas iniciativas internas e medidas tecnológicas e de sustentabilidade ambiental, poderão resultar naquilo que a OCDE chama de uma cidade resiliente, ou seja, apetrechada e com “capacidade de absorção, recuperação e preparação para choques futuros”.

A governança, por sua vez, deve ser orientada por uma visão estratégica e bom uso dos dados com transparência, aliando participação cidadã e engajamento civil para se conseguir a transformação da cidade atual na tal cidade resiliente do futuro.

Ouvir e envolver os cidadãos é essencial na mudança de rumos de uma cidade, seja para sua recuperação ou para a criação de novas condições.

Armando Rosa

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