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A palhaçada total

Em Opinião

Nos inícios de Março, foi-nos dito que estávamos a ser assolados por uma pandemia e que, por mais difícil que fosse assim viver, cabia-nos o dever cívico e legal de ficar em casa.

Acedi, escrupulosamente, ao apelo do Governo, do Presidente da República e de outros responsáveis políticos de relevo no nosso País e quedei-me confinado, aprisionado no meu próprio lar, olhando para a janela como um símbolo de esperança.

Com a excepção de umas pequenas e esporádicas saídas para ir às compras ou para um breve desempenho do meu múnus profissional, durante três meses, actuei como um paranóico afiliado das teorias da conspiração – daqueles que se isolam do mundo por medo de serem raptados pela CIA – e  não estive com os meus pais, entre outros familiares e amigos, privando-os de um contacto presencial com o neto e remetendo as interacções para as vítreas e distantes videochamadas.

De repente, sem se dar por ela, as autoridades de saúde pública e os nossos governantes afiançaram-nos de que o pior já havia passado, pelo que estava na altura de, com cautelar bom senso, encetar um processo de desconfinamento, de retorno à liberdade, porque nenhum Estado consegue aguentar-se, eternamente, sem actividade económica.

Compreendi a mensagem, mas interiorizei que não seria aceitável agir de maneira a agravar o risco de contágio, o que me motivou a criticar aqueles que, sem respeito pela vida e pela integridade física dos outros, vociferavam  de forma nada salutar – atentos os perdigotos expelidos –, exigindo a concretização de comícios e de eventos de angariação de fundos, limpos de obrigações tributárias e mascarados de festarolas revolucionárias.

E logo experienciei um amargo de boca, dias volvidos, porquanto foi promulgada uma lei suficientemente ambígua para nela enxertar a admissibilidade da realização da Festa do Avante.

Suportei as parvoíces tartamudas da Directora-Geral de Saúde, Graça Freitas, quando confrontada com as medidas que estavam a ser pensadas para o tráfego aéreo, afirmando que seria seguro viajar de aeronave, visto que os passageiros estão sempre de rosto virado para frente.

Quase sem saber como, ignorei as incoerências gritantes noticiadas pelos órgãos de comunicação social; ou seja, mantive-me tolerante e fiel à noção de que estávamos – e estamos – perante circunstâncias inauditas que, nos últimos 100 anos, nenhum decisor político experimentou.

Recentemente, em pleno e progressivo levantamento de restrições, os casos de Covid-19 dispararam na zona de Lisboa e Vale do Tejo; uma situação de tal modo preocupante que,  apenas surpreendendo o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, promoveu a integração de Portugal numa lista negra de Estados cujos seus cidadãos estão proibidos de entrar em diversos territórios alheios.

Depois de isto tudo, de tanta estroinice, de imensos casos de disseminação da doença e de flagrantes incongruências que nos obrigam ao arrependimento por nos termos forcejado a cumprir regras de isolamento profiláctico e de distanciamento social, o Senhor Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o Senhor Primeiro Ministro, António Costa, o Senhor Presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, o Senhor Presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, e mais uns quantos ministros apareceram na televisão e gozaram connosco à fartazana!

Eu ainda estou chocado, para além de enojado, por ter assistido a um repugnante e imbecil happening mediático em que os representantes de Portugal, com palavras ocas e estúpido fausto, anunciaram que receberemos os jogos finais da Liga dos Campeões Europeus.

Com as fronteiras abertas, e mesmo que sem público nos estádios – veremos! –,  vamos organizar um acontecimento de massas na área mais fustigada pelo simpaticíssimo coronavírus, arriscando-nos a nós e aos visitantes. Decerto, os profissionais de saúde agradecerão o maravilhoso prémio (António Costa dixit) de observarem as unidades de cuidados intensivos, que começam a abarrotar de enfermos, apinhadas de nativos e ádvenas a baterem à porta e a perguntarem se há algum ventilador que possam dispensar…

Se somos conhecidos pelos nossos belos aquários, porque não poderemos ter os melhores covidários da Europa?

Preferindo evitar uma linguagem de lupanar ou de caserna (não me agrada o estatuto processual de arguido), resta-me asseverar que nunca imaginei assistir a um espectáctulo tão degradante de pão e circo! E não estou para aturar tamanha desconsideração pelos sacrifícios dos portugueses!

Se Marcelo Rebelo de Sousa se sente confortável ao participar nesta palhaçada, encorajando-a e comemorando por sermos o palco de algo que ninguém quer, eu não me sinto confortável a tê-lo como chefe de Estado.

É uma questão de saúde pública!

João Salvador Fernandes

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