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Um discurso a reter!

Em Opinião

Comecei por pensar falar hoje convosco sobre alguns assuntos de Santarém que ficaram de alguma forma adiados ou até esquecidos na era Covid que agora queremos que esteja a terminar ou pelo menos a aliviar sustentadamente.

Adiei esta abordagem porque houve, entretanto, um caso que, de tão caricato, me pareceu que não podia deixar de aqui falar sobre ele: o vandalismo com supostas e invocadas causas antirracistas. Queria dizer-lhes que sinto que esta é mais uma situação a que não esperava vir assistir nos dias de hoje.

Talvez um destes dias opine sobre ela, mas, em face do muito rico discurso do cardeal D. José Tolentino Mendonça nas comemorações do passado dia 10 de junho, acabei por optar por fazer hoje uma abordagem pela positiva destacando algumas das suas passagens que me pareceram mais relevantes. Mas leiam ou oiçam o discurso na sua totalidade com olhos de ver ou com ouvidos de ouvir, porque vale bem o tempo despendido.

Não sou católico praticante nem próximo disso e nem sempre aprecio as intervenções de membros da Igreja, com exceção de muitas das do Papa Francisco e das de alguns párocos, muitas vezes completamente desconhecidos da generalidade das pessoas, mas que por vezes me prendem nos seus sermões. E este é um dos que tem muito e interessante conteúdo.

Espero só que não venha ainda aí algum alucinado, falso defensor dos mais desprotegidos, considerar Tolentino Mendonça como racista… por falar de Camões e d’Os Lusíadas…

Vou então deixar-vos com alguns extratos do discurso em muito concordantes com o que têm sido, não na prosa, mas na sua essência, as minhas opiniões nos últimos tempos:

“… quando arquitetamos uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade. E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas pelo inteiro oceano.”

“… desconfinar não é simplesmente voltar a ocupar o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e em construção, que a todos diz respeito.”

“… cada geração é chamada a viver tempos bons e maus, épocas de fortuna e infelizmente também de infortúnio, horas de calmaria e travessias borrascosas. A história não é um continuum, mas é feita de maturações, deslocações, ruturas e recomeços. O importante a salvaguardar é que, como comunidade, nos encontremos unidos em torno à atualização dos valores humanos essenciais e capazes de lutar por eles.”

O amor a um país, ao nosso país, pede-nos que coloquemos em prática a compaixão – no seu sentido mais nobre – e que essa seja vivida como exercício efetivo da fraternidade. Compaixão e fraternidade não são flores ocasionais. Compaixão e fraternidade são permanentes e necessárias raízes de que nos orgulhamos, não só em relação à história passada de Portugal, mas também àquela hodierna, que o nosso presente escreve. E é nesse chão que precisamos, como comunidade nacional, de fincar ainda novas raízes.”

Sabendo que não regressaremos ao ponto em que estávamos quando esta tempestade rebentou, é importante, porém, que, como sociedade, saibamos para onde queremos ir.”

Sentir que fazemos parte uns dos outros, empenharmo-nos na qualificação fraterna da vida comum, ultrapassando a cultura da indiferença e do descarte. Uma comunidade desvitaliza-se quando perde a dimensão humana, quando deixa de colocar a pessoa humana no centro, quando não se empenha em tornar concreta a justiça social, quando desiste de corrigir as drásticas assimetrias que nos desirmanam, quando, com os olhos postos naqueles que se podem posicionar como primeiros, se esquece daqueles que são os últimos.”

O pior que nos poderia acontecer seria arrumarmos a sociedade em faixas etárias, resignando-nos a uma visão desagregada e desigual, como se não fossemos a cada momento um todo inseparável: velhos e jovens, reformados e jovens à procura do primeiro emprego, avós e netos, crianças e adultos no auge do seu percurso laboral. Precisamos, por isso, de uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações. É um erro pensar ou representar uma geração como um peso, pois não poderíamos viver uns sem os outros.”

“… uma das nossas gerações mais vulneráveis, que é a dos jovens adultos, abaixo dos 35 anos; geração que, praticamente numa década, vê abater-se sobre as suas aspirações, uma segunda crise económica grave. Jovens adultos, muitos deles com uma alta qualificação escolar, remetidos para uma experiência interminável de trabalho precário ou de atividades informais que os obrigam sucessivamente a adiar os legítimos sonhos de autonomia pessoal, de lançar raízes familiares, de ter filhos e de se realizarem.”

A pandemia veio, por fim, expor a urgência de um novo pacto ambiental. Hoje é impossível não ver a dimensão do problema ecológico e climático, que têm uma clara raiz sistémica. Não podemos continuar a chamar progresso àquilo que para as frágeis condições do planeta, ou para a existência dos outros seres vivos, tem sido uma evidente regressão.”

Portugal é uma viagem que fazemos juntos há quase nove séculos. E o maior tesouro que esta nos tem dado é a possibilidade de ser-em-comum, esta tarefa apaixonante e sempre inacabada de plasmar uma comunidade aberta e justa, de mulheres e homens livres, onde todos são necessários, onde todos se sentem – e efetivamente são – corresponsáveis pelo incessante trânsito que liga a multiplicidade das raízes à composição ampla e esperançosa do futuro. Portugal é e será, por isso, uma viagem que fazemos juntos. E uma grande viagem é como um grande amor.”

O cardeal D. José Tolentino Mendonça que me perdoe ter partido o seu discurso para publicar estes extratos, mas não podia deixar de enfatizar as partes que me parecem mais importantes e incisivas.

Francisco Mendes

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