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O Crime do Dragão, o génio do mal, atos de vingança num clima de tragédia grega

Em Ribatejo Cool

S.S. Van Dine tornou-se num dos autores da literatura de crime e mistério mais procurados a partir da década de 1920 por ter conseguido singularizar-se no que se chama o romance-problema, graças a vários ingredientes: o detetive Philo Vance, o mais eclético, enciclopédico, sage, pedante mundano, capaz de resolver os mais emaranhados problemas psicológicos de astúcia criminosa, depois de Sherlock Holmes; e a estrutura dos seus romances, essencialmente passados em Nova Iorque, em que temos uma sequência cronológica, quase sob a forma de um diário, a partir do momento em que o procurador Markham lhe pede ajuda perante um caso intrincado, é um encadeamento de tal modo absorvente em que o leitor fica condenado a não poder suspender o quadro das investigações e saber o desfecho final.

Qualquer um dos romances de S. S. Van Dine apresenta a obra como o caso mais sinistro a exigir de Philo Vance o uso do seu talento ao ponto máximo. No caso de O Crime do Dragão, o detetive pedante suspendera uma viagem de pesca na Noruega para traduzir fragmentos de Menandro, nisto a polícia é convocada para ir a uma propriedade centenária do Estado de Nova Iorque, onde, num lago artificial, conhecido como Piscina do Dragão, um jovem ator decidiu fazer um salto acrobático para a água e o seu corpo não voltou à tona.

O procurador Markham está relutante, acidente é acidente, o sargento da polícia não esconde a sua inquietação, descreve a tal piscina e pareceu-lhe que o grupo de convidados ali presentes teve comportamentos altamente bizarros, destoantes. E noite fora avança-se para a famosa e antiga residência dos Stamm, construída quase um século antes, propriedade repleta de árvores, entra-se na mansão e apresentam-se os donos da casa e os convidados. Quem convocara a polícia era um amigo da família, com sangue índio, cabe-lhe a ele explicar como tudo se passou. Mas antes ficamos a saber que a maior parte da mansão está sem vida, Rudolf Stamm, o filho mais velho possui um vastíssimo e especializado local onde conserva peixes em estado natural.

Antes do que se considerava até então acidente houvera uma festa rija com muito álcool e com muita troca de palavras azedas, há diferentes rancores entre os habitantes da mansão e o heteróclito grupo de convidados, o ator que desapareceu na piscina, Sanford Montague, era noivo da menina da casa, largamente odiado por muitos, o seu desaparecimento parece não deixar mágoa. Há muitos comentários de língua afiada, logo um dos convidados insinua que outro terá sido o assassino.

Prossegue o inquérito pela noite fora, apura-se que o dono da casa, Rudolf Stamm, se encontrava quase em coma alcoólico, quando despertar é a sua vez de fazer acusações sobre outra pessoa, Philo Vance procura reconstituir tudo quanto se passou entre aquela tarde alcoólica e o salto acrobático para a água de Sanford Montague. A velha anfitriã entra em cena, parece demente, mas vai induzindo quem a ouve que foi a vingança do dragão, a mitologia entra em cena, segundo esta senhora o dragão levou Montague porque era um inimigo, tudo se parece complicar quando todos os inquiridos revelam uma imensidade de rancores contra alguém. Esvazia-se a piscina e descobrem-se umas marcas estranhíssimas, mais adiante aparecerá em espaço arqueológico, em marmitas gigantes, o corpo estraçalhado do desaparecido, imagina-se que é obra de um dragão.

A atmosfera de intriga e mistério tende a desenvolver-se, todos ouviram o ruído de um carro exatamente logo a seguir ao desaparecimento do ator nas águas da piscina, há novas descobertas, dentro da propriedade existe um estranhíssimo jazigo, depois desaparece outro dos convidados que irá reaparecer também nas marmitas gigantes e também estraçalhado. Entretanto Philo Vance faz compras, viremos a saber que adquiriu o equipamento de um submarinista, terá uma longa conversa sobre peixes exóticos, muito só virá falar em dragões e nas lendas índias conotando aquele território a um lugar de dragões, a velha dama insiste que a segunda vítima também resultou da vingança do dragão, obrigados a manterem-se dentro da mansão os convidados têm uma linguagem cada vez mais desabrida, Philo Vance é persistente, já ganhou clarividência quanto à monstruosidade dos dois homicídios, entrou-se numa atmosfera de tragédia grega, antes porém Philo Vance dá uma enxurrada de informações sobre a simbologia do dragão e lendas inerentes, percorre vários continentes para falar do dragão, tudo para tentar explicar a importância do dragão de três garras, símbolo da morte e aniquilamento.

Esclarecido na mente do detetive pedante o segundo desaparecimento e homicídio, há como que uma espera de vingança do destino, virá praticar-se justiça, o homicida será esmagado por um pedregulho que se solta da encosta, isto no exato momento em que se removia na piscina outro pedregulho que se desprendera na véspera, esta a tragédia final, tudo vai mudar depois dos assassinatos na velha piscina do dragão, haverá um casal feliz, naquele local haverá novas construções, ficaremos a saber que a velha mansão dos Stamm nunca mais foi habitada, só restarão dois pilares de pedra quadrados do portão de entrada.

Não é propriamente um dos melhores livros de S. S. Van Dine, o modo operatório proposto para os homicídios tem o seu quê de fantasioso, de impossibilidade temporal, o leitor prevenido fica com um ressaibo de deceção. Mas a estrutura de O Crime do Dragão tem empolgamento, interrogatórios perspicazes e uma das galerias com retratos psicológicos que S. S. Van Dine concebeu e que justifica em pleno a leitura desta peça muitíssimo bem urdida e digna de boa classificação do que se chama a grande literatura de crime e mistério.

Mário Beja Santos

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