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Lendo Nóvoa e Alvim: o futuro da escola onde nada é novo, mas tudo mudou

Em Educação

Quero partilhar convosco um artigo de António Nóvoa e Yara Alvim[i] que, de uma forma clarividente, verbalizam alguns pensamentos que ultimamente procurava estruturar sobre as mudanças da escola que a pandemia pode ter acelerado.

Argumentam os autores – e eu revejo-me nesta perspetiva – que a necessidade de mudanças estruturais no modelo escolar é anterior à pandemia da COVID-19. E que esta, não só acelerou, como provou serem possíveis as mudanças. Como referem os autores, “a pandemia tornou inevitável o que já era necessário”. De facto, as tendências mercantilistas da educação, presentes nos processos de individualização dos percursos escolares e na emergência das plataformas digitais de aprendizagem, têm vindo a pôr em causa o modelo da escola pública, pondo ainda mais a nu o mal-estar vivido na escola e a necessidade da sua metamorfose.

Uma das coisas que esta pandemia tornou evidente foi que a educação deve ser vista como um bem público que necessita de ser repensado em três dimensões: a do contrato social da escola; a da estrutura organizacional focada na sala de aula; por último a dimensão da lição, da pedagogia e das tecnologias de ensino e de aprendizagem.

Apesar das inovações que foram introduzidas no modelo da escola ao longo do século XX, início do século XXI, o modelo escolar quase não mudou. A sala de aula continua a ser – salvo honrosas exceções – um espaço organizado como no século dezanove – filas de mesas e cadeiras orientadas para o centro do quadro negro e do lugar do professor. A lição continua a ser organizada para “ensinar a todos como se fossem um só” (Barroso).

Repentinamente, por causa de um vírus desconhecido, as escolas tiveram de reinventar a sala de aula, por via do ensino à distância. Neste novo contexto, a sala de aula e os horários de trabalho de alunos e professores diversificaram-se em função dos espaços e dos recursos disponíveis. Mas foi também possível confirmar o que se intuía: ficou claro para todos que a escola pública – isoladamente – não havia ainda diminuído cabalmente as desigualdades de origem dos seus alunos. Na continuidade do trabalho da escola ao longo de largas décadas, apesar das iniciativas e dos esforços dos docentes e demais profissionais da educação, as desigualdades sociais foram apenas mitigadas. E persistem. E, por isso, muitos alunos não tiveram disponíveis meios tecnológicos para não “ficar para trás”. Nem meios tecnológicos, nem ambientes familiares protetores e favoráveis às aprendizagens.

A par dos conceitos de “eficiência”, “competição”, “responsabilidade”, “mérito”, a escola, como resposta às necessidades individuais de aprendizagem, tem vindo a  acentuar a dimensão da educação como bem privado, erodindo, assim, a escola como bem público.

Argumentam Nóvoa e Alvim que seria trágico para a escola pública se a resposta às urgências da atual crise servisse exclusivamente para mobilizar plataformas on-line e material didático digital. Pensar numa resposta exclusivamente baseada em plataformas digitais em contexto doméstico conduziria à “desintegração da escola”.

Para os autores, a eficácia das respostas dos sistemas educativos faz-se pela consolidação do modelo de escola como bem público. Torna-se, assim, imperioso, repensar a organização escolar enquanto serviço público de educação. Diria que o robustecimento das respostas do sistema educativo passa pela autonomia das escolas, na procura de respostas pedagógicas mais adequadas ao contexto e necessidades da sua população discente, mas também no alargamento de competências às autarquias, com a necessária clarificação das competências de uma e de outra instituição.

Ao nível da dimensão organizacional e da lição, as escolas implementaram, com os recursos que tinham, as medidas necessárias, estreitando-se, em muitos casos, a relação destas com as famílias e com as autarquias. Efetivamente, foi o profissionalismo e autonomia profissional dos professores que deram resposta às inúmeras solicitações da tutela, dos alunos e das suas famílias.  Como referem os autores, “mais do que nunca, ficou claro que os professores são essenciais para o presente e o futuro da educação”.

Defendem os autores – e eu também- o reforço do profissionalismo e da autonomia dos professores, através de maior investimento na sua formação para que estes criem, colaborativamente, ambientes educativos onde sejam valorizados o envolvimento e a participação dos alunos, o estudo e a pesquisa, as aprendizagens cooperativas, a construção de currículos integrados e multitemáticos, a diferenciação pedagógica, etc.

Citando Morin, que defende a metamorfose dos sistemas quando estes agonizam, Nóvoa e Alvim defendem a reinvenção da escola, da pedagogia e dos ambientes de aprendizagem, ampliando a relação das comunidades escolares aos espaços públicos – à cidade e à polis – valorizando os professores e uma visão humanista da educação.

Primeiramente, valorizar o papel da escola passará, assim, por um contrato social para a educação tendo como referencial o das cidades educadoras e da educação permanente, pelo reconhecimento da escola enquanto lugar social onde a deliberação democrática é essencial para repensar um modelo escolar mais inclusivo e mais integrado nos seus contextos.

Em segundo lugar, torna-se necessário desconstruir a normalização do modelo organizacional escolar em prol da diversificação de espaços e tempos, currículos e avaliação, através da recriação de ambientes de aprendizagem. Dizem os autores que “metaforicamente, podemos pensar esses novos ambientes como uma grande biblioteca”. E o papel dos professores, mais do que ensinar, seja o de orientar os alunos para a autonomia das aprendizagens. E isto leva-nos à terceira dimensão enunciada pelos autores: a da lição.

Sugere-se, então, que a lição dê lugar ao estudo, e que os alunos busquem o conhecimento ativamente. Desta forma, deve ser enfatizado o trabalho do professor na organização do conteúdo e da pesquisa, da monitorização, da tutoria e do apoio, e no seu trabalho colaborativo na produção de conhecimento pedagógico e curricular que potencie as aprendizagens e o estudo dos seus alunos.

Concluem os autores, que nada do que defendem ou do que as escolas têm reinventado é novo, mas a pandemia “revelou a urgência e a possibilidade dessa transformação”. Embora para muitos a mudança seja tecnológica e digital, numa visão consumista e individualista da educação, para a escola pública é essencial a interação humana, o convívio, o aprender a viver em comum. E, ou assumimos esta dimensão pública da escola e procuramos, com passos modestos, a sua metamorfose, ou continuaremos a assistir à sua desintegração enquanto espaço de construção do coletivo.

Elvira Tristão

Professora e autarca


[i] Nóvoa, A. & Alvim, Yara (2020). Nothing is new, but everything had changed: a viewpoint on the future school, Viewpoint Controversies, Springer, acesso em https://link.springer.com/article/10.1007/s11125-020-09487-w

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