A identidade, a multiculturalidade, o transcendente, o Jasmim…

Em Ribatejo Cool

O rio, essa serpente que nos traz o caos e nos devasta esperanças, os irãs, os feiticeiros, o poder da escrita em revelar poderosas recordações íntimas, como se um livro se pudesse transformar numa sala de conversa de convergência multicultural, pois é assim o que Jasmim, de Amadú Dafé, Manufatura, 2020, nos expõe em itinerância, com muitas culpas e remorsos figurativos, invade a cena gente do Norte da Guiné (Ingoré), cabo-verdianos e brancos, faz-se a exaltação da mulher e a denúncia da violenta discriminação de género que acontece naquele ponto da África Ocidental, mas não só, e, acima de tudo, este livro dá-nos um quadro confessional que jamais foi tentado por qualquer outro escritor da lusofonia, as suas crises de consciência são postas frente a múltiplos espelhos, e o que se pensa e o que se transmite é por vezes muitíssimo doloroso.

Amadú Dafé

Em 2019, Amadú Dafé deu-nos um livro portentoso, Ussu de Bissau, uma amostra daquela tragédia que dá pelo nome de tráfico de crianças, fenómeno internacional onde as escolas corânicas não estão isentas de culpas e os responsáveis islâmicos também não. Ussu de Bissau é ponto alto da literatura luso-guineense, bom seria que fosse melhor conhecido e seguramente melhor apreciado.

Jasmim tem outra complexidade, está enxameado de metáforas e simbolismos, faz entrelaçar fenómenos de culturas africanas com atitudes filosóficas da cultura ocidental, o discurso direto é acessório, os números dos personagens são Lua, Pipa, Fé, Banna, Jacinto, Amadú Dafé lança mão a propósito de expressões crioulas, gosta do português vernacular, a Natureza ofusca-o em permanência, e há o rio que é o rio da consciência, o rio do desaparecimento, o rio formado por muitos riachos, tratado como mistério indecifrável, por ser fonte de vida e de morte.

Num mercado de Ingoré dá-se pela chegada de Fé, fez uma longa e estranha viagem, Lua e Pipa ficam fascinadas por ele, pelo adiante iremos saber que todos estes personagens acarretam vários ingredientes da tragédia grega ou também do teatro francês do tempo de Corneille, pois na vida desta gente há algo de Édipo e de Fedra. Há ponderações com carga metafísica, a componente animista tem o seu magnetismo nas componentes islâmica e cristã. Fé procura a mãe, Pipa fugiu e deixou um filho para trás. O encontro é numa barraca de mercado, um símbolo: “A minha barraca é frequentada por pessoas de culturas diversas e todos aqueles que são capazes de coabitar com a diversidade são bem-vindos”. O animismo prepondera: “Tenho no interior da barraca garrafas cheias de terra venerável e chifres de todas as espécies de misticidades, cujos gargalos adornei com retalhos envergonhados, garras e penas de tchoka (perdiz), pele de irã-cego e dentes de onça obediente. Nesta terra, incrédulos ou não, velhos, crianças ou senhores, cabo-verdianos, nánias (cidadãos da Guiné Conacri), nares (cidadãos da Mauritânia) ou senegaleses, todos são vulneráveis aos olhos dos senhores feiticeiros. À porta, tenho uma estatueta do irã do Sul, a tal que foi dada ao meu pai por uma senhora que se dizia dona desse irã trazido de Guiledje. Foi esse irã que deu a vitória na luta de libertação contra o kolom (colono). É um irã respeitado. Nele, todas as manhãs deito água e rogativas de proteção e afortunação. Nos quatro cantos da barraca estão tal-qualmente enterrados amuletos e pequenas garrafas com sal, malagueta e carvão nos respetivos interiores”.

Nisto entra em cena Banna, caber-lhe-á o papel de negociante da condição da mulher em toda a África, parideira, vendedora, agricultora, cozinheira, objeto de troca, morre-lhe o marido e é entregue a outro marido. Em contraste, veremos ao longo da narrativa um tipo de tensão onde o amor e o sexo ganharão peso específico, o leitor precisa de os dimensionar à lupa e perceber que aquele incesto, aquele marido estéril, aqueles segredos bem guardados e que só a ficção permite revelar são acertos de identidade no quadro da violência contida, e não é imagem de retórica, faz parte daquela violência latente, submergida, em que vive a Guiné-Bissau, e não só.

A questão da identidade, o sentido da vida e as suas fases iniciáticas atravessam toda a narrativa, implicando uma escrita oficinal de diálogos simulados num contexto edénico, cruzam-se os povos, discute-se as suas origens, uns procuram interpretar o castigo dos deuses, outros aceitam resignadamente o destino. Nos meandros de todo este processo intimista, somos ofuscados pela natureza do rio, em permanente diálogo com o coberto vegetal: “O rio brilhava e refletia cores obsequiadas pela pequena floresta que o cingia. Do céu decaiam espetros de luz de pouco cio, que em contato com aquela água salgada reverberavam em ondas de baile (…) A bruma estendia a sua mortalha escura sobre a lala do rio Jasmim, enquanto kikias (corujas) e lobos ululavam difusamente. De repente, o tempo transformou-se. Um vendaval assobiava, aproximando-se em velocidade de pensamento. Em cima das árvores tronchudas, polons, palmeiras e cajueiros, sobre as nossas cabeças djambatutus (pássaro da espécie dos cucos) e kikias faziam espetáculos e alertavam para iminentes danos que a chuva iria causar. Sempre que o vento assobiava como um bêbado, a chuva fazia estragos e arrastava consigo vidas e sonhos. O assobio do vento é sinal de mão feiticeira no tempo. Ao lado, uma luz imitando um ciclope em busca da ribanceira, à espreita de um irã que se acusasse, inspirava-nos, no modo de desviar tempestade”.

Como na tragédia grega, nada nesta narrativa pode evitar o inevitável, posto e disposto pelos deuses. Cruzam-se as mensagens do adeus, questiona-se todo o sofrimento que atravessa as nossas vidas, a tragédia encaminha-se para o rio, alguém mais partiu do nosso convívio, alguém tinha aparecido como um milagre e logo a seguir desapareceu como um sonho. É assim que acontece em toda a condição humana, em Jasmim, provavelmente no mundo inteiro.

Um jovem escritor que decidiu enfrentar uma prova de fogo, foi bem-sucedido ao agarrar pelos cornos as questões da identidade e da multiculturalidade, do transcendente e da aceitação da vida. É uma grande promessa confirmada do que há de melhor na literatura luso-guineense.

Mário Beja Santos

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