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Há racismo, mas nem tudo é racismo

Em Opinião

Como o caro leitor saberá, recentemente, ocorreu o brutal homicídio do actor Bruno Candé. O assassinato atraiu incomum atenção, porque a vítima era um homem negro e o agressor, divergindo de estereótipos, caracteriza-se por ser um indivíduo de idade bastante avançada.

Por outras palavras, o crime provocou ira social em ambos os lados que sempre emergem – e logo se colocam em visceral oposição! – quando surgem infelizes e nefastas situações deste género: os que vêem racismo em tudo o que mexe e aqueles que negam a evidência desse odioso preconceito, mesmo que este se encontre, declarado, à frente dos seus olhos.

Digo-vos, com toda a sinceridade, que, no que concerne a Portugal, não me considero preparado para uma discussão suficientemente sustentada em factos e literatura especializada sobre matérias como o racismo estrutural ou sistémico, o que me leva a agir com ponderada cautela e a procurar ouvir quem percebe dos assuntos sem assumir posturas adamantinas e, eventualmente, escoradas no achismo (atitude meritória e que deveria reger as nossas condutas na maioria das circunstâncias).

No entanto, não posso esconder a minha particular preocupação quando, à semelhança dos Estados Unidos da América, observo o triunfar da polarização que acima referi: a aludida rivalidade deixa de ser a excepção e torna-se na regra.

Ou seja, por geração espontânea, num ápice, tudo acontece por causa da segregação baseada em conceitos de raça ou, em contrário, toda a discriminação opressora em função da cor da pele é uma mentira que nos contam para que o homem caucasiano se sinta mal consigo próprio.

Ora, este pérfido caso, que resultou num angustiante falecimento de um artista reconhecido pelos seus pares, transformou-se numa desditosa referência desse antagonismo com contornos pavlovianos: o sininho tocou, a saliva começou a escorrer e, rapidamente, escutaram-se vozes exaltadas a garantir que se tratava de um crime motivado por ódio racial, porquanto o ofensor utilizou expressões de teor racista e disparou sobre um negro.

 Com igual celeridade, e decorrente de similar condicionamento, irromperam os brados dos que, ao ficarem cientes de que houvera dissídios anteriores entre Bruno Candé e o atacante, presumem que o premir do gatilho nunca poderia ter sido instigado por algum preconceito subjacente ou até por uma miríade de preconceitos subjacentes.

Como será difícil de negar, a principal adversidade gerada por estas discórdias militantes, emanadas de visões obtusas e/ou interessadas, concretiza-se em nos afastar da correcta análise do problema, corrompendo o diagnóstico e, por via disso, conduzindo-nos a trabalhar no erro, o que impede que se obtenham as melhores soluções possíveis.

Que não se seja parvo e se assevere que não existem choques sociais! Em maior ou menor grau, eles existem! E em qualquer sociedade! Todavia, nem todos decorrem de fenómenos étnicos ou de raça; uns, por exemplo, são puros atritos de classe.

Este ambiente de sulfuroso desentendimento, por sua vez, conduz-nos a situações caricatas e típicas de quem compra uma versão da narrativa sem o mínimo de juízo crítico. Falo-vos, a título demonstrativo, da jornalista que resolveu confrontar o embusteiro André Ventura, questionando-o acerca da subsistência, no nosso País, de racismo estrutural e perguntando se havia pessoas não-brancas em lugares de destaque.

O burlão do Chega, estranhamente – dada tamanha abébia –, não respondeu à solicitação, mas conseguiria, sem grandes dificuldades, nomear António Costa, Nelson de Souza e/ou Francisca Van Dunem, o que, decerto, engasgaria a descuidada interrogadora.

Penso que poucos discordarão de que se exige mais igualdade de oportunidades para que, quem o deseje, independentemente da pigmentação da sua epiderme, da sua profissão ou do recheio das suas contas bancárias, alcance esses cargos públicos e privados de relevo; porém, quando se confronta uma pessoa que, de modo oportunista, rejeita qualquer manifestação de racismo, convém não lhe ofertar munições.

Como nos ensinam em Direito, há que observar o caso concreto, perceber os factos com minúcia e determinar o nexo de causalidade, de maneira a que o dirimir do pleito tenha um efeito verdadeiramente pacificador.

Só assim evitaremos medidas bem intencionadas que nada resolvem e, não tão raramente quanto isso, agravam os problemas.

João Salvador Fernandes

PS: Endereço os meus sentidos pêsames à família e aos amigos de Bruno Candé.

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