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Os portugueses de dentro para fora, à descoberta do sentimento europeu

Em Ribatejo Cool

Damos primazia ao que os outros pensam de nós, não é por acaso que se editam regularmente os testemunhos de estrangeiros que há séculos nos visitam. Obviamente que temos orgulho em falar das nossas expedições, daí a riquíssima literatura de viagens, abarcando vários continentes. Mas o nosso olhar sobre a Europa só ganhou persistência a partir do Iluminismo, umas vezes devido aos exilados que aproveitaram as suas itinerâncias para deplorar o nosso atraso, o estarmos na cauda da Europa, não geograficamente mas nos indicadores da civilização e cultura; outras vezes, comparando usos e costumes, detemos relatos magníficos daqueles que levavam princesas a casar em vários reinos europeus, daí procurando extrair ensinamentos. Mas de dentro para fora, e a olhar a Europa, o que de mais consistente ficou ao longo dos séculos foi a desconfiança e a animosidade constante da ameaça espanhola, que se equilibrou em diferentes tabuleiros: contando incondicionalmente com a cultura francesa, confiando no Tratado de Windsor, aguardando o beneplácito do Vaticano; e aceitando a enxurrada migratória a partir dos finais dos anos 1950, partindo às fornadas gente para a França, a Alemanha Federal, o Benelux, sobretudo, cultura terá vindo pouca, tiniu mais o valor da remessa dos imigrantes.

Serve este breve comentário para saudar o longo ensaio A Europa ao Espelho de Portugal – Ideias da Europa na cultura portuguesa, por José Eduardo Franco, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2020. Talvez Camões nos tenha indicado a terra de nascimento em “cume da cabeça/ De Europa toda”, mas a verdade é que todo o poema vai torcer para uma epopeia em que a história de Portugal é exultada na sua dimensão transatlântica. Mesmo António Vieira pensou a Europa muito mais no jogo diplomático do que numa qualquer convicção de integração europeia, ao imperador da língua portuguesa o que importava era a consolidação de D. João IV e o Brasil liberto da presença holandesa. Percebe-se que o autor nos vai encaminhando no trilho da chamada singularidade portuguesa, é muito difusa, para dizer a verdade, a consciência moderna da Europa segundo os humanistas e renascentistas portugueses, a despeito de Damião de Góis e André de Gouveia.

José Eduardo Franco

José Eduardo Franco começa a animar-nos com a política reformista pombalina, a sua preocupação em modernizar, em nos tirar do obscurantismo, e vem a propósito, ganha pertinência o que ele escreve sobre Luís António Verney e o seu O Verdadeiro Método de Estudar. O autor trata com rigor a questão dos Jesuítas e como o ideal pedagógico pombalino entrou em colisão frontal com o pensamento da Companhia de Jesus. Pombal é decisivo para restaurar no pensamento português a atenção e o desvelo pela cultura europeia, mas é verdadeiramente no século XIX que um conjunto de viajantes, o autor destaca uma figura injustamente esquecida que foi o Padre Sena de Freitas, deixaram recados sobre a educação, a ordem social, os problemas religiosos, a alvorada da industrialização.

O escorço de José Eduardo Franco teria obrigatoriamente que se cingir a opções, reconheça-se que foi feliz em relevar o pensamento maçónico de Sebastião Magalhães de Lima, sempre aquela inquietação pelo federalismo e pela Europa unida. Na cultura portuguesa dá-se bastante atenção à corrente iberista por vezes deturpada num quadro de confusão em que Portugal ficaria numa total dependência da Espanha, nada disso presidia ao pensamento maçónico, o que se vinha propor era mesmo um quadro de Estados federais, usando-se como paradigmas os modelos federais norte-americano e suíço. Igualmente feliz a trazer à colação um vigoroso intelectual jesuíta, Manuel Antunes, que tanto escreveu sobre as questões da unidade e da diversidade europeia. Professor universitário que marcou profundamente os seus alunos, diretor de uma então importante revista, Brotéria, estudou as questões do etnocentrismo, confronto bipolar designado por Guerra Fria e teve a admirável previsão de repensar a Europa num quadro geopolítico mundial em que os centros do poder já se estavam a encaminhar para o continente asiático, deixou bem claro que a construção da Europa era um processo áspero que contava com a animosidade dos EUA e da URSS.

A análise do pensamento de Eduardo Lourenço era incontornável. Este intelectual é um europeísta convicto, tem refletido sobre vários ângulos, começando no Iluminismo e os contributos de Verney, Ribeiro Sanches e Frei Manuel do Cenáculo, entre outros. Escreve José Eduardo Franco: “A corrente inaugurada pelos intelectuais iluministas impunha a necessidade de repensar e reformar Portugal ao mesmo tempo que se afirmava hiperbolicamente o poder do Estado e a sua centralidade. Data desse período a emergência de um espécie de religião do Estado assente na concentração do poder total na pessoa do rei e dos seus ministros, sendo entendida como a única forma de garantir a felicidade do povo. Este é apresentado imageticamente a receber as graças de uma política benfazeja, que brotam das mãos do monarca, o qual, por sua vez, recebia o poder legitimador diretamente de Deus”. Do Portugal de Pombal viajamos até ao século XIX liberal, chegamos à Geração de 70 e no virar do século proliferam olhares críticos sobre o nosso atraso, a nossa decadência, o rei cadaveroso de que falavam Sampaio Bruno e António Sérgio. Eduardo Lourenço é apresentado pelo autor como herdeiro desta corrente, como ele próprio comenta: “O mundo da cultura portuguesa arrasta há quatro séculos uma existência crepuscular”. Ele vê a Europa como uma entidade pouco definida, pouco entusiasmada com a marcha encetada pela Comunidade Económica Europeia, reconhece haver um trabalho de transformação e formação de mentalidade que poderá demorar até séculos. Ele mostra-se favorável a que se embarque na utopia europeia, é crucial que se construa uma imagem identitária para a Europa a partir do imaginário cultural partilhável pelos europeus. Temos de nos atrelar à criação de um mito e de uma utopia para a Europa.

No termo do seu ensaio, José Eduardo Franco não deixa de nos surpreender com tiradas desabridas que, por não fundamentadas, são pura leviandade, fazendo a síntese de que na Europa buscamos legitimação, reconhecimento da nossa mitificada grandeza. “Podemos dizer, sem errar muito, que o prestígio de aquilo a que chamamos o mito da Europa na cultura portuguesa é diretamente proporcional ao crescimento de um sentimento de decadência, de depressão da auto-estima de Portugal como povo capaz de liderar os seus destinos em favor de um horizonte de progresso”. É esta a Europa que vive em nós como um paradoxo histórico, tratada como uma tábua de salvação. E fala de três desastres históricos: o Ultimatum em 1890, a entrada na I Guerra Mundial e a participação no clube do euro, “que põe a Europa a controlar a vida portuguesa até ao pequeno pormenor do tamanho das maçãs que podemos ou não vender nos mercados”. É lamentável ver-se um professor universitário benquistado em acusações que não fundamenta. De que lado da Europa é que ele está, em que espelho se revê? Ora abóbora!

Mário Beja Santos

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