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Que Agricultura para o Ribatejo?

Em Opinião

Recentemente, a Ministra da Agricultura reuniu com as confederações do setor[1] , onde o programa para o desenvolvimento rural  merece alguma crítica. Não faz o caminho que a Agricultura precisa na Europa, País e Distrito, com uma visão de “empreendedorismo agrícola”, desfasada da realidade e que deixa de fora os pequenos agricultores, como aconteceu em 2016 no programa LEADER. Privilegia-se como de costume, a produção intensiva e os grandes grupos económicos do setor que levam 80% dos fundos europeus[2].

O problema começa na PAC, agrava-se com o “Projeto Tejo”[3], e termina com a desertificação e precariedade do Distrito, um problema estrutural agravado em escadinha, fruto de décadas de desmantelamento da nossa produção face aos interesses de Bruxelas. Era necessária uma PAC de transição ecológica do modelo de produção, transformação e distribuição de alimentos, com vista a agro ecologia e o respeito pelo bem-estar animal. Além disso, é necessário o reforço do controlo do Direito da Concorrência, onde a agricultura é “terra de ninguém”, com casos gritantes de importação a preços demasiado baixos a países que não cumprem as normas europeias em termos de normas sociais, ecológicas e de respeito pelos animais.

A agricultura moderna tem vários desafios, desde a reformulação do modelo agro-pecuário vigente, que já mostrou ser insustentável para a saúde e para o planeta, algo reconhecido inclusivamente pela agência europeia do ambiente[4], que não põe totalmente o dedo na ferida, ou seja na agricultura intensiva e no modelo de pecuária que temos, bem como a sua contribuição para as alterações climática e as consequências na alteração e erosão dos solos.

Naturalmente que é preciso mudar o paradigma alimentar, comer mais frutas e vegetais, e menos carne e peixe, algo estudado cientificamente, e que só tem vantagens, poupando inclusivamente o Estado, dinheiro com doenças crónicas causadas por essa alimentação[5].

É aí que a região poderia liderar o processo de transição agrícola, se houvesse visão estratégica,  pois tem tradição agrícola e em alguns casos , produtos líderes em termos nacionais, como por exemplo o tomate ribatejano, o arroz, os vinhos, entre outros.

Existem atualmente desafios como a agricultura vertical[6], que desloca a produção agrícola para o meio urbano, e que irá penalizar os países do Sul da Europa, algo que já começa a ocorrer por exemplo na Holanda[7] , penalizando ainda mais o meio rural, cada vez mais pobre e despovoado. A razão pela qual acontece, é simples, é mais barato e produz-se mais na ditadura da “eficiência”.

Os apoios à agricultura biológica são também insuficientes, “O Eurostat divulgou que, em 2018, a área orgânica total na União Europeia (UE) foi de 13,4 milhões de hectares, correspondendo a 7,5% da área agrícola total utilizada. Tal representa um aumento de 34% entre 2012 e 2018. Em Portugal, a agricultura orgânica representou 5,9% da área agrícola total utilizada, uma das percentagens mais baixas da UE[8].

É necessário travar esta visão de agricultura intensiva, eufemisticamente chamada de “regadio eficiente” , nomeadamente o olival, que apenas é apoiado para equilibrar a balança agrícola das exportações, ignorando as necessidades da população, e que liquida os pequenos agricultores e a produção local.

Se nada for feito, o Ribatejo e a sua agricultura serão cada vez menos relevantes, e o celeiro de Portugal será apenas uma memória esfumada, para o lucro de um punhado de empresas.

Luís Martinho


[1]    https://maisribatejo.pt/2020/07/28/ministra-da-agricultura-reune-com-confederacoes-do-sector-para-ponto-da-situacao-sobre-pdr2020/?fbclid=IwAR1VbSSp9T4dKlAz86BcWN3m7cz0YOnAFgrDim-DgRczKHiNtS4aB8Z_bso

[2]    https://agroinformacion.com/podemos-de-espana-francia-y-portugal-se-unen-para-pedir-una-pac-que-beneficie-a-las-pequenas-y-medianas-explotaciones/

[3]    https://agriculturaemar.com/projecto-tejo-quer-abastecer-300-mil-hectares-de-regadio-saiba-tudo-na-agroglobal/

[4]    https://www.eea.europa.eu/pt/sinais-da-aea/sinais-2015/artigos/a-agricultura-e-as-alteracoes-climaticas

[5]    https://www.dgs.pt/em-destaque/notas-sobre-alimentacao-e-cancro.aspx

[6]    http://www.agronegocios.eu/noticias/o-futuro-da-agricultura-vertical/

[7]    https://nationalgeographic.sapo.pt/ciencia/grandes-reportagens/1552-holanda-o-pequeno-pais-que-alimenta-o-mundo

[8]    http://www.agrotec.pt/noticias/agricultura-biologica-vai-ter-900-mil-euros-do-pdr-2020/

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