Este ano, a covid-19 estragou a festa da Póvoa de Santarém

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Todos os anos, é da tradição em agosto, dar-se início às Festas em Honra de Nossa Senhora da Luz, na Póvoa de Santarém. este ano, com a pandemia, a situação mudou.

Eurico Ribeiro conta ao Mais Ribatejo que já existiram vários anos em que não decorreram as festas. “Houve um ano em que existiu um acidente, um dos jovens que faleceu era irmão da juíza desse ano e não houve festa, porque o funeral desse jovem foi na mesma semana. Mais tarde, houve dois anos seguidos que não houve festa.

Claro que tudo isto pós-25 de abril. Antes do 25 de abril havia muitos anos que não se realizava a festa, consoante as pessoas quisessem ou não fazê-la.

Estas festas começaram em 1914 quando houve uma procissão na Póvoa de Santarém, “foi a primeira no concelho de Santarém pós a Implantação da República. A partir dai, começaram-se a fazer as festas no dia 15 de agosto em Honra de Nossa Senhora da Luz, com mais ao menos frequência, nessa época.”, explica.

As festas não tinham o cariz que as de hoje têm: eram realizadas no largo da Igreja, dava tudo muito trabalho porque, na altura, tudo tinha de ser montado e desmontado e, hoje, vem tudo praticamente montado.

A mão de obra antigamente era, sobretudo, dos homens, desde a entrada da rua da igreja até ao recinto das festas”, afirma.

Antigamente estas festas realizavam-se junto da Igreja, contudo, foi-se assistindo a uma mudança até se realizarem no recinto das festas- “o processo deu-se sobretudo porque não havia mão de obra para fazer as festas cá em cima junto da Igreja”, diz Eurico.

A festa passou a realizar-se no atual recinto com outras condições, que do seu ponto de vista não eram as melhores: os espetáculos, como por exemplo os bailes, organizavam-se dentro de casa, na coletividade e o resto era tudo na rua, como a quermesse. “Não era o mais viável na altura.”

Eurico Ribeiro foi juiz nos anos 80, descreve toda a experiência como agradável. Contudo, para se ser juiz tem de se gostar e gostar, igualmente, da terra, como foi o seu caso.

Não estava à espera de ser convidado para ser juiz por duas razões: primeiro porque normalmente quem era convidado para ser juiz tinha uma condição económica mais elevada do que a sua. A segunda razão, foi a idade, estava na casa dos 23 anos quando foi convidado para ser juiz e, geralmente, o convite é feito a jovens com idade entre os 17 e os 20 anos.

O facto de o juiz levar consigo no decorrer das festas o bastão de prata, pertencente à igreja, sabendo-se pouco da sua história e origem, confere um “certo gozo por ter aquele bastão- possivelmente pode ter pertencido a uma irmandade que existisse aqui na Póvoa de Santarém, onde existisse um juiz. No século XIX, um senhor chamado Vicente Paulo Cordeiro, abastado e sepultado no largo da igreja, todos os dias 15 de agosto ia traçar os talhões aos jovens que casavam nesse ano”, conta. “É uma honra ser juiz numa festa destas.”

Estas festas trazem algumas tradições consigo, como por exemplo, inicialmente, cumpriam a tradição de a banda convidada a tocar nesse mesmo ano ir até ao cemitério tocar, saudar as pessoas falecidas; a juíza normalmente ia com o vestido da cor da imagem da Nossa Senhora: branco, azul ou cor de rosa; a juíza levava um terço na mão, hoje é dia já não é comum ver-se; a parte do juiz mantem-se, levando o bastão na mão durante a procissão, acrescente.

Há uma tradição que se deixou de fazer – a banda vinda à igreja de manhã, com os sinos a repicarem, ia até à casa dos juízes saudá-los, fazia o peditório e depois de almoço ia novamente buscar os juízes a casa e faziam a procissão. Nos dias de hoje é muito difícil uma banda fazer isto, antigamente as pessoas que estavam numa banda trabalhavam, habituados a andar e a fazer força. Tivemos de adaptar aos dias de hoje.

A banda vem depois de almoço, vai até à casa do juiz, em primeiro lugar, depois dirigem-se até à casa da juíza e fazem a procissão.”

Lugar aos novos juízes

Os juízes deste ano, 2020, Daniela Cabaça e Bruno Colaço, tinham a expectativa de que este ano iria ser igual a todos os anteriores, onde contassem com a ajuda de todos, diz Daniela. Bruno afirma que tentariam manter o procedimento, “contudo, gostaríamos de inovar em alguma coisa, fazer coisas novas, como por exemplo, implementar pequenas peças de teatro no programa e desfiles.”

O que levou Daniela a aceitar o convite para ser juíza, em primeiro lugar foi por viver na Póvoa de Santarém, considera que é algo que deve passar por todos, principalmente pelo mais novos com o consenso dos pais e, o facto de saber que Bruno seria o seu companheiro foi mais um motivo.

Já Bruno, ficou surpreendido. “Sempre achei que os meus pais não me deixassem ser juiz”, diz. Não conseguiu dizer que não porque sabe o quão é necessária ajuda para a festa. “Sempre quis ter esta experiência.”

No que diz respeito aos procedimentos da preparação para a festa, explicam que “primeiro que tudo começamos pela quermesse, ver o que existe do ano anterior e se é possível aproveitar para o novo ano.

Nas reuniões, que têm início em junho, discute-se quais são as bandas a atuar, os patrocínios e as luzes de enfeitar a rua.

“Em julho começamos com o peditório, onde convidamos a geração mais nova, acompanhada de pessoas com mais experiência e com mais idade, onde vendemos rifas e solicitamos prendas para a quermesse.” – são realizados em Alcanhões, Verdelho, Achete e todas as áreas que lhe sucedem, Azoia de Baixo, D.Fernando e Póvoa de Santarém.

Serem os juízes da festa, como explicam, passa por tomarem as grandes decisões da Comissão Organizadora.

Acreditam que o facto de não haver as festas em Honra de Nossa Senhora da Luz vai afetar os residentes e aqueles que costumam visitar a festa – “o facto de ser religiosa irá influenciar o dia 15 de agosto onde costuma haver a célebre procissão”, afirma Bruno.

“Esta festa anima a terra, atrai mais pessoas, sobretudo, jovens.”, menciona Daniela.

Devido à pandemia, este ano a festa irá resumir-se no dia 14 de agosto, à noite, a uma passagem da Nossa Senhora da Luz numa carrinha, sendo as pessoas convidadas a assistir nas suas casas.

Livro sobre a história da Póvoa de Santarém apresentado este sábado

Já no dia 15 de agosto, vai haver missa, contando com leituras dos juízes do ano de 2020, e a apresentação do livro do Padre Tiago Moita sobre a história e património da Póvoa de Santarém.

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