Negacionistas Frustrados

Em Opinião

Há pouco mais de uma semana, despertámos para o surgimento público de um grupo de trogloditas que se auto-intitulou Nova Ordem de Avis – Resistência Nacional. Segundo as notícias – e as  indesmentíveis filmagens –, alguns destes salvadores da pátria, que se opõem aos sórdidos traidores da nação – sejam lá eles quem forem –, aglomeraram-se junto à sede da SOS Racismo, de rostos cobertos e de tochas nas mãos, protestando contra um hipotético racismo antinacional.

De seguida, soubemos que diversas figuras políticas da nossa praça foram ameaçadas por correio electrónico e que lhes era exigido que abandonassem o País em 48 horas. De acordo com os órgãos de comunicação social, a núpera e mui nobre Nova Ordem de Avis seria a autora de tão amistoso convite (a dita repudiou a veracidade de tal proveniência).

Suponho que estes marrecos tenham desencantado o nome para a sua organização – podemos apelidá-la de organização? –, inspirando-se na importância histórica da Ordem de São Bento de Avis e na relevância de El Rei D. João I, o de Boa Memória, na superação da crise de 1383-1385 e na manutenção da independência do Reino de Portugal. Afinal de contas, D. João I era o Mestre de Avis.

De igual forma, suponho que consideram que Portugal está em perigo de desaparecer ou a ser invadido por conquistadores externos (um absurdo), visto que também se qualificam de resistência nacional.

Reafirmo o suponho, porque, depois de ler conversas dos seus membros nas redes sociais, se erigiram dúvidas inquebrantáveis acerca das suas faculdades analítico-cognitivas e dos respectivos conhecimentos sobre a gesta da nossa amada pátria lusitana.

Com efeito, confesso que ainda não percebi o que realmente defendem e por que razões lutam, mas, se os senhores não são racistas com ideários próximos do nacional-socialismo, escolheram a pior maneira de causar uma primeira impressão: concentraram-se em frente à sede de uma associação denominada SOS Racismo, liderada por um homem negro, escondendo a face com máscaras alabastrinas e empunhando archotes, o que nos transporta, de fresca memória, para as recentíssimas manifestações de extrema-direita no Brasil, encabeçadas por Sara Winter, ou para o mais distante simbolismo imagético do Ku Klux Klan e da Alemanha dos anos 30. O mais engraçado nisto tudo, não tendo graça alguma, foi a reacção daqueles que negam, quase em absoluto, a subsistência de preconceito racial. Já lá vamos…

Como escrevi em artigo anterior, e contextualizando, começa a imperar no discurso público um dualismo antagónico: os que observam racismo em todos os conflitos sociais e aqueles que rejeitam a possibilidade da sua existência.

Pois bem, após a apresentação à sociedade desta menina debutante a que apelidaram de Nova Ordem de Avis, os negacionistas entraram em choque. Como é que podem haver, no nosso território, movimentos que pugnam pela discriminação e opressão baseadas em critérios rácicos ou étnicos? Não podem!

Incapazes de lidar com a dissonância cognitiva, preferiram especular acerca de conspiratas marxistas e imputaram os factos a uma vil encenação das esquerdas radicalizadas. Revelando pueril e desdenhosa ufania, partilharam fotografias que realçavam partes expostas dos corpos de alguns dos participantes na demonstração, por aparentarem ser ricas em melanina, alegando que eram prova inequívoca da teoria da cabala. Em acréscimo, gozaram com os putativos conspiradores pela inenarrável estupidez de terem colocado negros a fingirem ser supremacistas brancos.

Por outras palavras, não lhes interessava que as gravações houvessem sido realizadas em ambiente nocturno, com parca iluminação e durante o Verão (quando o bronze triunfa), o que não permite retirar grandes conclusões sobre colorações epidérmicas. Estava garantido, sem admissibilidade de contestação, que se tratava de uma tramóia das esquerdas radicalizadas para gerar tensões sociais e avançar as suas agendas divisionistas (atenção, elas têm agendas divisionistas!).

E assim continuaram, expressando um assustador empenho argumentativo que nos autoriza a questionar quais são os seus efectivos valores ético-morais, até que a tese do malévolo conluio se esboroou com a confirmação de que o capataz desta salsada de Avis é militante do Chega, pertenceu a agremiações de extrema-direita de cariz neonazi e esteve presente no mencionado protesto.

Por conseguinte, se depararem com a falta de tufos cabelo no escalpe de alguns indivíduos, claramente arrancados em fúria babosa, já sabem quem estes são… São os que não aguentaram que a realidade atentasse contra as suas tacanhas mundividências…

Ora, a psicologia explica-nos o que é o raciocínio motivado:

            “Raciocínio motivado é um fenómeno psicológico associado a tomada de decisões ou formação de opiniões sobre assuntos emocionalmente carregados, relacionados a temas importantes para as pessoas (que fazem parte da formação de suas identidades, tais como questões morais, de associação ideológicas ou questões associadas a suas profissões ou áreas de estudo, por exemplo). Quando entramos em contacto com informações objectivas pertinentes a essas questões, tendemos a dar mais atenção e a aceitar com maior facilidade as evidências que confirmam as nossas opiniões prévias enquanto resistimos ou ignoramos as evidências em contrário, o que é chamado de viés de confirmação. Já o raciocínio motivado consiste no esforço de construirmos uma narrativa ou um conjunto de argumentos para sustentar o nosso ponto de vista prévio.” (Fonte: Wikipedia.)

E esta definição faz-nos entender uma pequena parcela do problema: a polarização e a inimicícia comunitárias, dependendo do tema ou das partes envolvidas (com especial preponderância do binómio esquerda-direita), atingiram um nível de intensidade que, por ocorrência de um viés de confirmação, há quem seja impelido a construir ou a crer numa narrativa em que é mais verosímil uma intentona do que aceitar que umas alimárias racistas se podem estruturar ou tentar estruturar.

E isto, caros leitores, é deveras preocupante!

João Salvador Fernandes

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