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Então você veio de Lisboa para me dar um rebuçado e come você o papel?

Em Opinião

Imagine que alguém vem de Lisboa a Santarém, vestindo fato, camisa branca e gravata, num carro novo e chega ao pé de si para lhe dar uma grande oferta. Que pensará o leitor?

Ao chegar-se discorre maravilhas sobre a oferta que quer fazer, primeiro aborda as pessoas mais fáceis de convencer e vai subindo na “escala de dificuldade” da abordagem… A história que vou contar é real, aconteceu quando eu, integrado em equipa, procedia à modernização tecnológica de uma antiga subestação de 30 para 15 mil volts que se situava ali ao lado do Continente num edifício ainda lá existente.

Passando os pormenores técnicos. O senhor de camisa branca era um vendedor de seguros que pretendia fazer negócio com os “papalvos” da província. Após alguns assentimentos à sua proposta dirigiu-se ao Sr. Aníbal, um pedreiro também conhecido por “sapatinho branco”, expondo a sua oferta de encantar.

O Aníbal ouviu com atenção, no fim perguntou-lhe:

– De onde vem o senhor?

– De Lisboa! – Respondeu o senhor de gravata.

– Quem é que lhe comprou esse fato, camisinha branca e gravata?

– Fui eu. – Retorquiu o desfrutador da vestimenta.

– E que é que lhe pagou a gasolina?

– Fui eu…

– E quem lhe paga o almoço? – Insistiu o Sr. Aníbal…

– Sou eu! – Respondeu, já receoso, o vendedor de seguros.

O Sr. Aníbal respirou com calma e perguntou-lhe:

– Então você veio de Lisboa no seu carro, paga a gasolina, compra um fato e gravata, para me vir dar um rebuçado e come você o papel?

A surpresa tolheu o vendedor, de tal modo que não esboçou reação argumentativa, meteu-se dentro do carro e partiu acompanhado pelo nosso encarregado. Não consegui conter o riso. Esta história terá uns 35 anos, mas gravou-se-me como vinil para memória futura.

O dito seguro acabou dois anos depois e quem assinou ficou sem o dinheiro pago, menos eu e o Sr. Aníbal e outros “revolucionários” que não assinámos!

Hoje lembrei-me do Sr. Aníbal. E lembrei-me quando me coloquei a refletir sobre a importância da necessidade de um reforço muito significativo de professores e auxiliares de educação nas escolas para garantir o máximo de segurança e estabilidade às nossas crianças e jovens.

É que é corrente, no Sr. Presidente da Câmara, a queixa de que o acordo que a CMS fez com José Sócrates para a transferência de competências na educação do governo central para o município já custou vários milhões de euros ao burgo escalabitano. Todavia quem assinou esse acordo foi um executivo PSD onde Ricardo Gonçalves fazia parte – a mesma pessoa que nunca quis denunciar esse acordo!

Sócrates esteve para nós como o vendedor de seguros, veio de Lisboa vender a ilusão de que nós comíamos o rebuçado e ele o papel! Moita Flores e Ricardo Gonçalves aceitaram e o Estado central livrou-se de funcionários, instalações, muitos milhões em despesa…

No ano de 2009, José Sócrates e Cavaco Silva foram brindados com a medalha de ouro da cidade.

Agora, em plena pandemia, quem come o rebuçado é o BES / Novo Banco; nós comemos não só o papel, comemos o papelão!

Há bons vendedores de papel de rebuçado. O Sr. Aníbal, o “sapatinho branco”, é que sabia tratar deles!

Vítor Franco

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