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A nobreza de Santarém vai nua

Em Opinião

A nobreza desta cidade gosta de vestir bem, seguindo o rigor da tradição agrária.

A tradição terá começado em moitas festas, de tempos que se perderam na curta memória coletiva.

A exibição tomava os seus pontos altos pela feira maior. Ali desfilavam, em charrete, mostrando-se garbosos da tradição pós-medieval. Na praça de touros tomavam os seus lugares nobres…

Toda a gente admirava a vestimenta (…) todos diziam que os fatos eram uma verdadeira maravilha”… O presidente “irradiava simpatia (…) até parecia um deus!

O povo adorou tanto que lhe deu maioria absoluta!

Mas deixemo-nos de alegorias, se assim o considerarem…

Na plebe escalabitana houve quem emergisse das trevas e das opressões, Bernardo Santareno foi um deles. Da vida fez insubmissão e coragem, abriu portas de armários que encerravam vidas e felicidades!

Santareno questionou dogmas e fez do teatro a vida vivida. Santareno que navegou por “Mares do fim do mundo” conheceu a dor dos que sofrem e dela deixou testemunho e sabedoria.

Bernardo Santareno mereceu a justa homenagem que a organização do Pictorin, III Encontro Internacional de Artistas Plásticos, tomou em mãos celebrando o centenário do seu nascimento.

Entre as várias ações está a realização de um mural pelo pintor João Domingos. Como é conhecido esteve previsto para a grande parede da rotunda junto ao Politécnico, mas no dia anterior à realização da obra o executivo camarário decidiu não aceitar a sua realização.

A declaração da vereadora Inês Barroso é clara e elucidativa:

Não gostámos muito desta proposta, é só isto, aquele local ficará para outra proposta que mais nos agrade.

O executivo camarário, a quem a plebe deu maioria absoluta, exerceu o seu absolutismo. Não gostamos muito, não se faz. Ponto!

O absolutismo não se exerceu para limpar os grafitis que há anos vandalizam as escadinhas do liceu, nem tão pouco os que vandalizam a Torre das Cabaças. São escolhas. Gostam mais, pelos vistos!

Atrever-me-ia a dizer que aquilo que o executivo menos gostou da pintura foi a frase “Lutem para que o fascismo não torne a acontecer neste país”. Mas é isso que faremos! Podem “vir com botas cardadas ou com pezinhos de lã”, nós cá estaremos para lhes fazer oposição!

Um dia o rei resolveu sair para se mostrar ao povo. Toda a gente admirava a vestimenta, porque ninguém queria passar por estúpido, até que, a certa altura, uma criança, em toda a sua inocência, gritou:
– Olha, olha! O rei vai nu!”

Vítor Franco

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