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Uma “ditadura” que vamos aceitando…

Em Opinião

Como reagiria se de repente, e de um momento para o outro, no ano passado por esta altura ou até uns meses depois, lhe dissessem que não podia estar com a sua família, ver os seus velhos pais ou privar com os seus filhos já autónomos, viajar para o estrangeiro ou por vezes até para o concelho vizinho àquele em que vive, que não podia abrir a loja e o negócio que lhe levaram uma vida a criar e a tentar a muito custo rentabilizar, que não dava mais para se deslocar a um serviço público para tentar resolver os seus problemas e que tinha de tratar de tudo à distância, ainda mais friamente e dependente de uma marcação mais ou menos rápida de acordo com vontades?! E se lhe disssessem que não podia promover ou até só participar num evento de cidadania, num espetáculo ou até somente numa festa de aniversário em sua casa, que também não seria possível acompanhar a última viagem de um amigo que morreu ou simplesmente dar um abraço àquele outro que por enquanto ainda está vivo?!

E obrigarem-no a andar na rua de cara tapada quase como as muçulmanas que proibíamos ou criticávamos por o quererem fazer?!

Ou a “racionalização da utilização dos serviços públicos de transportes, comunicações e abastecimento de água e energia, bem como do consumo de bens de primeira necessidade”, como estranhamente se admite na Resolução de Conselho de Ministros que hoje entrou em vigor, para já só por 15 dias?

Pensaria que tinha sido teletransportado para um país com uma das piores ditaduras, não era?

Faria um grande pé de vento, não acha que sim? Rebelião talvez não, porque somos muito pouco dados a essas coisas mais radicais, somos muito mais dados a protestar no café ou agora mais no Facebook, pois ir ao café complicou-se.

Mas hoje, ainda nem um ano depois, tudo isto é aceite, visto como normal, absolutamente necessário, e cumprimos sem questionar… O que havemos de fazer?!

Responsável?! A Covid-19, é claro… Óbvio, não é? E a desculpa – ai desculpem, enganei-me, queria dizer o motivo… – é até mais interiorizada e por nós aceite para nos condicionar do que a de não haver dinheiro, como foi também mundialmente tentado em 2008 e anos seguintes, que partindo de uma suposta crise económica, foi mais ainda uma crise advinda da destruição da confiança.

Não ponho por agora completamente em questão a necessidade de medidas de contenção, de algum distanciamento social, mas ponho cada vez mais em causa a incongruência das medidas e os motivos (que inicialmente me pareceram da maior pureza) que levam a limitar ações e atividades em detrimento de outras.

As escolas podem abrir (e ainda bem), mas os serviços públicos só funcionam por marcação quase sempre difícil; pode-se ir a uma tourada, mas não se pode dançar numa festa popular; um casino pode estar a funcionar, mas um parque de diversões para crianças não pode; os alunos ficam interditos de participar nas experiências nas aulas de ciências, física e química, mas podem estar certamente bem juntos nos tranportes escolares…

Já todos percebemos que vamos ter de viver e conviver com este corona vírus como já vivemos e convivemos com o outro da gripe “normal”, não já? Também já percebemos que só a imunidade de grupo nos vai safar, mesmo que não seja imediata nem fácil de atingir, ou ainda não?

De “boas intenções está o mundo cheio”, diz o povo e é verdade. Duvido é cada vez mais que nesta situação as intenções sejam assim tão boas e transparentes…

Viveremos em breve num mundo onde o natural e normal será não haver qualquer interação social, sem relacionamento nem convívio entre cidadãos, famílias e amigos?!

É que se esta pandemia não vingar, se não for suficientemente mortal, outras surgirão para conseguir os devidos intentos…

São questões para irmos refletindo… o tema passará (ou voltará) a ser recorrente, não tenho grandes dúvidas…

Francisco Mendes

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