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Como uma banalíssima família dá uma obra-prima da literatura

Em Ribatejo Cool

O texto da contracapa desta obra tem fulgor e andamento vivaz para se entenderem duas prodigiosas memórias que o influente escritor norte-americano dedicou à vida familiar: “Edna Akin apaixonou-se aos 17 anos por Parker Ford. Ela era uma bela jovem nascida no Arkansas e ele um sorridente rapaz que trabalhava numa mercearia. Casaram-se e o novo trabalho dele como vendedor levou-os a uma vida itinerante pelo Sul nos Estados Unidos, durante os anos da Grande Depressão. Quando já não o esperavam, Edna e Parker tiveram um filho: Richard Ford. Anos mais tarde, já escritor consagrado, Ford quis reconstituir a vida dos pais recorrendo a fotografias, histórias que ouviu contar, instantes que viveu com eles e que se cristalizaram na sua memória”.

Entre eles, Recordando os meus pais, por Richard Ford, Porto Editora, 2020, possui uma inusitada tensão elegíaca, é um corajoso testemunho intimista da compreensão ou da falta dela para o que se perdeu ou até se desvalorizou desse triângulo familiar e que os pais eram um pouco mais velhos que o habitual. Richard Ford é rigoroso e metódico a distinguir pai e mãe. Parker é sempre mostrado como folgazão, solícito com os entes-queridos, dotado de uma visão festiva da vida. “O meu pai é um homem corpulento: brando, com ar pesado e um sorriso amplo. Está empolgado por regressar a casa. Fareja o ar com prazer. Os seus olhos azuis cintilam. A minha mãe está de pé ao lado dele, aliviada por o ter de volta. Mostra-se alegre, feliz. Ele espalha os embrulhos no inox da mesa da cozinha”. É esta a imagem do pai viajante, não se cansa de o retratar: “O seu rosto grande, carnudo e maleável, era propenso a sorrir. A sua primeira expressão era sempre a sorridente. A boca irlandesa rasgada. Os olhos azuis transparentes: os meus olhos”. Contrapõe logo a mãe, educada com rispidez, discreta, ele, paradoxalmente, gostando de se expor na retaguarda, como Richard Ford escreve: “O meu pai projetava qualquer coisa de cativante, uma certa inexperiência, uma propensão para ser ignorado, exceto pela minha mãe. A sua meiguice, a alegria corpulenta e expectante e a incerteza funcionavam como antídoto e abriram espaço para uma vida que a minha mãe foi capaz de antever e na qual conseguiu entrar com a sonoridade do seu nome, Edna”.

Este grande retratista norte-americano dá-nos uma sépia vigorosa e melodiosa deste mundo sulista e destes sonhos de uma pequena burguesia que ia progredindo, gota a gota, numa relativa abastança e comodidade. O casal desloca-se por diferentes regiões, visitam as famílias. Ao longo dos primeiros quinze anos de casados, devem ter querido ter filhos, não aconteceu, a circunstância só os tornou ainda mais próximos. Parecia o casal caixeiro-viajante mais feliz do mundo. Parker não combateu na II Guerra Mundial, tinha um sopro no coração. E ao fim de todo aquele tempo, aparece Richard, houve que encontrar uma solução de um poiso estável, eles tiveram que gerir a mudança. O menino chegou mesmo a acompanhar os pais, pela Luisiana e pelo Alabama, viajou no Delta do Mississípi e no Arkansas.

Rememorando essa infância, Richard Ford estima que tudo estava bem a três, interagiam. Viviam então em Jackson, descreve a mãe como uma mulher simpática, presbiteriana, ligada a causas, Richard lembra-se dos avós. O pai começa a ter ataques cardíacos, o médico anuncia que irá haver uma redução de esperança de vida, tinha que viver mais saudavelmente, emagrecer, não beber, ganhar atividade física. Centra-se nos últimos doze anos de vida do pai, continuou a trabalhar e a viajar, revelava-se muito sensível, Richard Ford revela-se um adolescente problemático, o centro de vida do pai continuava a ser a mãe, cada um tinha o seu lugar, e ele anota sem qualquer mágoa: “Para ela, talvez eu estivesse a tornar-me cada vez mais um centro, tendo o marido doente que eventualmente não viveria muito tempo. Mas, para ele, era ela. Já naquela época eu sabia que vinha em terceiro lugar. Quando ele voltava para casa à sexta-feira à noite, trazendo embrulhos dos sítios onde estivera, era para a reencontrar. Quando se ria era devido a qualquer coisa que ela dissera. Quando não compreendia alguma coisa ela esclarecia-o”. Talvez preocupado com os poucos anos de vida pela frente, o pai quis uma casa melhor. E chegou a manhã fatídica em que ele teve um enfarte e o filho desesperadamente tentou a respiração boca-a-boca, Edna não continha o seu desespero. Richard escreve que tem a mágoa de nunca ter falado com ele enquanto adulto. Talvez essa mágoa, de não ter sabido gerir o melhor possível a vida em comum é que o levou a este pequeno registo das qualidades do pai.

Depois Richard Ford dedica um In memoriam a Edna, outro documento de uma ternura incomparável, repete informação genealógica e foca agora a relação mãe-filho, não descurando todo o contexto familiar, até brigas e bebedeiras dos pais. Chegou a hora de cada um viver a sua vida, ele casa e visita frequentemente o filho, ela contrai um cancro, morrerá com imenso sofrimento. As últimas páginas deste testemunho são de uma rara beleza:

“Um amigo disse-me recentemente que, aos olhos dele, a vida dos meus pais – as vidas que acabaram de ler – parecem tristes. Mas, pondo de lado a sua relativa brevidade, as vidas dos meus pais não se me afiguram tristes. Houve tristeza, sim. Mas quando estavam juntos, incluindo quando eu estava com eles, a vida – creio eu – parecia-lhes melhor do que qualquer expetativa, tendo em conta como e onde tinham começado. Explicar em que consistia essa vida melhor é, de certo modo, uma luz que tentei lançar. Escrever estas duas memórias foi, na realidade, uma fonte de enorme alegria para mim, muito diferente do que eu esperava, dada a saudade que tantas vezes sinto. Tive a sorte de os meus pais se amarem e, do cadinho desse grande amor quase insondável, de me amarem a mim. O amor, como sempre, confere beleza (…) O autor de memórias nunca é só o contador das histórias das outras pessoas, é uma personagem dessas histórias. Por isso, escrever sobre os meus pais, muito depois de eles terem partido, revela inevitavelmente espaços ocos, fracassos, fragilidades, mossas e ausências em mim, insuficiências que o ato de contar, em si, poderá ter tentado corrigir ou selar, mas eventualmente terá apenas reaberto e deixado para trás, ausências que nenhuma quantidade de vida ou de sinceridade poderá preencher ou esconder totalmente. Aceitei viver com elas. Se bem que, hoje, quando me viro para encarar a minha vida – a minha ou a dos outros –, nunca deixo de ficar impressionado, por entre a investida de tudo o que aconteceu e ainda está a acontecer, com a dimensão do que perdi. As ausências parecem rodear-me e intrometer-se em tudo. Embora, ao reconhecer isto, eu não possa deixar que seja uma perda ou sequer um facto que lamento, porque é assim a vida: mais uma verdade duradoura em que devemos reparar”.

Uma contemplação que tenta, sem quaisquer abrasivos, ir ao âmago de uma relação a três, forçosamente que nos irá perturbar pelo grau de devoção de quem sente a perda inexorável e a segura com ambas as mãos, e como a singeleza que só um grande escritor pode usar, fugindo ao gume da lâmina da lamechice ou das lágrimas de crocodilo.

Leitura imperdível.

Mário Beja Santos

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