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O dom tranquilo da educação

Em Opinião

          Tiago Brandão Rodrigues, Ministro da Educação, cultor do método científico, homem de factos, veio garantir-nos de que as escolas estão preparadas para o início do ano lectivo.

          Em diversas intervenções, apresentou-nos um cenário de absoluta segurança, em que todos os estabelecimentos de ensino e os professores sabem, de modo quase maquinal, o que fazer para impedir a disseminação da doença Covid-19 e proteger as crianças e os jovens portugueses.

          Dito de outra maneira, os planos de contingência, elaborados segundo as regras legais e as orientações da Direcção-Geral de Saúde, estão sabidinhos e não há praticamente nada em falta nas respectivas implementações.

          Acontece que eu, de fonte segura, sei que isso não corresponde à verdade. Apesar de o não poder afirmar para a integralidade das instituições cuja missão é ensinar os nossos filhos, porque privo com variegados docentes do ensino básico e secundário, chegou-me a informação de que, a poucos dias do início das aulas, ainda havia escolas que não tinham preparado e concretizado os seus planos de contingência.

          Ademais, sei que, nesses locais de aprendizagem, foram os esforçados professores que, seguindo – o melhor que podiam – as regras que lhes foram veiculadas, conceberam os aludidos planos, mesmo não sendo diplomados em saúde pública, nem havendo recebido qualquer tipo de treino efectivo ou formação para esses fins.

          Compreendo que, por motivos logísticos, de meios e de fundos, caiba às escolas a materialização dos referidos projectos de prevenção e reacção à pandemia que nos assola, mas não consigo inteligir como é que um Estado despeja um conjunto de medidas nos estabelecimentos de ensino e não cuida de instruir, de um ponto de vista funcional e utilitário, quem neles trabalha.

          No entanto, a realidade manifesta-se muito mais preocupante por outras razões. Sem qualquer desrespeito por estes dedicados pedagogos, que se viram obrigados a laborar em matérias que não dominam, mas os planos de contingência e a corporificação das directrizes da Direcção-Geral de Saúde não foram avaliados, nem escrutinados pelas entidades competentes.

          Ou seja, as dúvidas amontoam-se e a ansiosa incerteza prepondera no pensamento de homens e mulheres que, sem o pedirem, foram oprimidos por um  ministério que lhes atribuiu pesadas responsabilidades que não são suas, nem deveriam ser.

          Por tudo isto, ao ouvir o Dom Tranquilo da Educação (relembrando Mikhail Sholokhov e o seu romance Don Tranquilo, que não era dom, nem tranquilo), torna-se difícil de evitar uma ligeira irritação por perceber que, de novo, nos estão a prometer o que não se promete.

          Detesto quando os incumbentes nos passam atestados de estupidez, acreditando que papamos, sem o mínimo de apreciação crítica, discursecos inverosímeis. As pessoas de bom senso percebem que a conjuntura actual é estranha, sinuosa e que vão ser cometidos erros, pelo que se exigia o proferir, com o cuidado necessário para não gerar o pânico, de uma mensagem sóbria e honesta, sem descurar o optimismo, e na qual não se vendesse uma disciplinada eficiência apenas existente nas tropas de elite deste mundo.

          Em tempos de pandemia, as omissões e as meias verdades são autênticas mentiras!

João Salvador Fernandes

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