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Santarém e a capitalidade

Em Opinião

Em 1147, Santarém foi conquistada aos “Mouros” com inferioridade numérica, e com uma estratégia militar assinalável, demonstrando ainda que a tática pode superar facilmente o número, lição que devia valer para outros ramos da vida.

Importa referir que a cidade tinha sido alvo de tentativas de conquistas passadas, pouco referenciadas em livros de História (cfr Luís Mata). O Historiador diz-nos que “em 1142, ano de concessão de foral a Leiria, é muito provável que D. Afonso Henriques tenha procurado conquistar Santarém, por ser uma praça-forte bem protegida. Percebeu que tinha que mobilizar meios consideráveis para a conquistar. Como não possuía esses meios fez um pedido ao Papa que enviasse cruzados”.

Com a queda de Edessa em 1144, e a desmoralização do inimigo, surge um apelo do Papa para uma nova cruzada e com a chegada de um núncio papal a quem o rei fez um pedido formal de ajuda, deu-se assim o mote para a conquista.

O mesmo historiador diz-nos que “a sua localização próxima do mar para ser facilmente acessível e longe quanto baste para impedir investidas, protegida naturalmente e com uma visão abrangente sobre uma extensa região das mais ricas e mais férteis do país, Santarém tinha todas as características para se ter tornado na capital do país. Luís Mata diz ainda que na altura, eram raras as capitais europeias situadas no litoral. “Basta olhar para Espanha ou Inglaterra para perceber que as suas capitais estão no interior, longe da exposição a ataques”, refere o historiador.

Santarém poderia ter sido pioneira, e conhecer a nossa História faz-nos também pensar para onde queremos ir. Especialmente, no período de maior crise que conhecemos desde que existimos.

Também hoje, Santarém deveria assumir a sua centralidade no Distrito, mobilizando a região, com propostas sobre regionalização, papel das CCDR (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional) , e da minha parte parece-me ser “vexatória” a perda de “capitalidade” na última década.

Vejamos alguns exemplos, começando pelo crematório, que ainda não labora, vai ser privado e caro, ao passo que Almeirim e Entrocamento já o têm a funcionar, de capital público, servindo melhor as suas populações, ao invés do dogma liberal/empreendedor.

O mesmo se passa com as bicicletas, há sempre uma desculpa como tudo, ou o calor, vandalismo, sistema informático, o que é certo é que a rede pública de bicicletas em Santarém não funciona, ao invés de Almeirim, que tem um modelo bastante interessante, apesar de pago[1]. Isto é muito importante, pois uma cidade deve promover uma mobilidade sustentável, que combata as alterações climáticas, e ainda gere saúde, não é um “fait-diver” ecologista.

Temos uma capital a liderar a transição ecológica que a nossa economia precisa? Parece que não, existe apenas uma parceria com a Nersant que mostra um “enxuto excel” de criação de empregos, e um “hub”, na escola prática que produz “empreendedores” não se sabe muito bem com que modelo de negócio.

Também na cultura vemos um teatro aquém, e a maioria dos espetáculos nacionais preferem o cine-teatro de Almeirim, muito pela redução operada no número de lugares em Santarém, algo que também não parece preocupar a edilidade, que não apresenta alternativa.

Não se vê igualmente um modelo para o ensino superior, numa cidade que teve contributo ativo através da Igreja de Santa Maria de Alcáçova, para a criação dos Estudos Gerais em Coimbra e, lembra Luís Mata, que a primeira universidade do país foi feita com a colaboração da Colegiada de Santarém. Portanto, se alguns gostam tanto de puxar dos galões da História, deviam preocupar-se mais em aprender com ela.

Vivemos um período em que Santarém parece atravessar uma crise de identidade, tal como após o conflito entre liberais e absolutistas que a devastaram após o terramoto de 1755, crise essa, que se verifica até hoje em parte, em meu entender. A oliveira, o trigo, a videira, o Tejo são a identidade desta cidade, a sua riqueza agrícola e a sua proximidade a Lisboa têm sido sucessivamente desperdiçadas com a falta de visão que nos fez perder uma década.


[1]    https://maisribatejo.pt/2020/07/07/al-giras-bicicletas-de-uso-partilhado-ja-fizeram-3000-km-em-almeirim/

Luís Martinho

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