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Por um Tejo vivo e livre

Em Opinião

O rio Tejo não é apenas água, é cultura viva, a espinha dorsal e o eixo das terras e das aldeias por onde passa.

Sem um rio Tejo Vivo e Livre não perdurará o património que lhe está associado, quer na sua vertente imaterial das vivências sociais, culturais e religiosas das populações ribeirinhas, quer na vertente material que a sua paisagem natural ainda enquadra, do qual se realçam as aldeias típicas de pescadores avieiros, as artes da pesca tradicional na Ortiga / Mação e as suas pesqueiras, o castelo de Almourol, os caís, os muros de sirga, os moinhos de água e de maré, entre outros, bem como a gastronomia das espécies piscícolas fluviais.

As populações ribeirinhas apenas terão a sua Vida e o seu património salvaguardados quando agirem para fortalecer os pilares da vida do rio: água em quantidade com a existência de verdadeiros caudais ecológicos; água em bom estado ecológico; e a ausência de barreiras que bloqueiem os fluxos hidrológicos e a dinâmica dos ciclos da água e dos nutrientes, essenciais à manutenção dos ecossistemas que sustentam a Vida.

A preservação ecológica do rio Tejo é um tributo que devemos oferecer para a sustentabilidade da Vida e para a conservação do seu património, sendo hoje urgente defender um rio Tejo Vivo e Livre com dinâmica fluvial pela rejeição dos projetos de construção de novos açudes e barragens – Projeto Tejo e a Barragem do Alvito – e pela exigência de uma regulamentação adequada para as barreiras que já existem.

Consideramos, portanto, extremamente importante manter os últimos 150 km de um rio Tejo Vivo e Livre com uma dinâmica fluvial que mitigue o impacto da subida do nível médio das águas do mar, que garanta o equilíbrio ecológico da Reserva Natural do Estuário do Tejo, a conservação dos ecossistemas, habitats e biodiversidade, e que valorize o património que alicerça as atividades de subsistência das populações ribeirinhas e o fomento de um turismo de natureza e cultural associado ao rio Tejo.

Por isso temos o dever de estender uma mão aberta para criar uma corrente de vontade e de intencionalidade, que seja capaz de esclarecer quem decide e que exija um tratamento ecologicamente sustentável para o rio Tejo.

Devemo-lo a nós próprios, que com o rio Tejo partilhámos a nossa vida e aceitámos a generosidade das suas águas.

Devemo-lo às gerações futuras para que conheçam um rio Tejo Vivo e Livre, como nós o conhecemos, e não um escravo e prisioneiro do egoísmo, da especulação, da ganância e da irresponsabilidade.

Por tudo isto, devemos unir-nos e reclamar a defesa da qualidade e da quantidade da água do rio Tejo e seus afluentes, bem como a rejeição ou remoção das barreiras à sua conectividade, para que sejam saudáveis e forneçam os serviços ecológicos necessários à Vida no seu conjunto biodiverso e se mantenham como referência do Património ribeirinho.

E digamos com Miguel Torga, porque os poetas sabem ver o futuro

Recomeça

Se puderes,

Sem angústia e sem pressa.

E os passos que deres

Nesse caminho duro

Do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

A Vida e o Tejo merecem!

Paulo Constantino

Porta-voz e membro da direção do proTejo – Movimento pelo Rio Tejo

(Comunicação apresentada nas Jornadas Europeias do Património, na Ribeira de Santarém, no dia 26 de setembro de 2020)

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