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É difícil escrever sobre o que amamos!

Em Opinião

É difícil recordar tempos de vida com vida… O bairro do Pereiro onde cresci, o largo do cemitério onde milhares de vezes joguei à bola e “hóquei em campo”, as barreiras da cidade feitas aventura na floresta e apanha de bicos de lacre com visgo…

Tempos de banhos no chafariz da Dona Rita – então a melhor piscina da cidade :-), de roubar figos nas traseiras de uma casa na Travessa do Bairro Falcão, de descer a Braamcamp Freire em carrinhos de rolamentos…

É difícil falar de quando a minha mãe me deixava a guardar a mercearia, que ficava em autogestão popular quando a malta nova me desafiava para a bola…

– Vítor, anda cá aviar-me que eu quero um quilo de açúcar! Naquele tempo era só amarelo e vendia-se a granel de uma tulha como o arroz, o milho e o trigo eram vendidos ao litro em medidas de madeira…

Tempos de paixão pela ida ao Rosa Damasceno, pela leitura e frequência assídua da biblioteca – o meu n.º de leitor era o 4814 -, de aprender a sapateiro com o José “Cuecas”, a pintor de casas com o Sr. Manuel [resistente antifascista e ex-preso político] ou a canteiro com o Sr. Henrique…

É difícil assistir à degradação do património monumental, ver cair casas atrás de casas, ver encerrar vendas de um pouco de tudo e de tudo um pouco, ver os fartos espaços de brincadeira transformados em exíguos estacionamentos tarifados, perder de vista o Café Brasileira e a vida comunitária!

Mais de meio século de vida numa cidade que amofinou, que se dividiu em [pre]conceitos individualistas e “pequeno-burgueses”, legados falidos de latifundiários de inculturas falidas, senhores nobres com cobradores do fraque à esquina, nobres senhores governantes que faliram a cidade e a cidadania!

Há esperança!

Como escreveu o Adriano Correia de Oliveira, há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não”! Esse desiderato foi conquistado por Bernardo Santareno, Mário Viegas, Salgueiro Maia (…) e por todas as pessoas que resistiram no associativismo cultural, desportivo, sindical, cívico…

Em todas essas pessoas estão as raízes da árvore e o fruto! Em todas estão a coragem e a mensagem! Em todas estão duas palavras: cidadania e inconformação! É nessas palavras que está a esperança da nossa terra!

Pode ser difícil registar a mágoa do que amamos, também por isso não ficamos como a nêspera!

Vítor Franco

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