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Mário Castelhano foi assassinado há 80 anos: O testemunho de Miguel Wager Russel

Em Opinião

Nascido em Santarém, em 1908, Miguel Wager Russel esteve na linha da frente da oposição à ditadura de Salazar na década de 1930.

Salientou-se como dirigente da secção portuguesa do Socorro Vermelho Internacional, uma organização dedicada ao apoio a presos políticos e suas famílias,

Depois, em 1935/36, foi ele quem inicialmente substituiu o secretário-geral do Partido Comunista Português, Bento Gonçalves, quando este foi preso pela polícia política.

Russel acabou por também ser capturado, em 1937, sendo levado para o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. Já ali estava Bento Gonçalves e ali se encontrou com Mário Castelhano.

Secretário-geral da CGT

Anarquista, Mário Castelhano foi o último secretário-geral da central sindical CGT (Confederação Geral do Trabalho), antes desta ser proibida pela ditadura militar em 1927. Foi também o último diretor do diário sindicalista A Batalha, igualmente proibido nesse ano.

Nascido em Lisboa, em 1896, Castelhano trabalhava como empregado de escritório na Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, até ser despedido como punição pela sua militância sindical. Isto ainda antes da ditadura, no tempo da 1ª República. Foi ainda sob esse regime que ele se destacou na defesa dos direitos da classe trabalhadora, enquanto sindicalista num sector dos mais numerosos, combativos e perseguidos: os ferroviários.

A ditadura militar veio agravar a repressão sobre as lutas e organizações de trabalhadores. A partir de 1927, Mário Castelhano viveu sempre clandestino, deportado ou preso. Mas esteve na linha da frente da resistência à ditadura, particularmente na revolta da Madeira em 1931 e na tentativa de greve geral do 18 de Janeiro de 1934 – contra a destruição dos sindicatos livres.

Quando a ditadura militar se transformou num regime de tipo fascista, sob a liderança de Salazar, a repressão agravou-se ainda mais. Mário Castelhano nunca mais saiu da prisão e acabou morto no campo de concentração do Tarrafal, em Outubro de 1940. Tinha 44 anos de idade.

Foi assassinado com maus tratos e torturas, com subnutrição, com exposição deliberada a doenças tropicais e com negação de cuidados médicos.

Falar de Mário Castelhano é recordar um grande lutador pela liberdade e pela justiça social. E é evocar o lugar do anarquismo e do sindicalismo na história de Portugal.

Campo de Concentração do Tarrafal

O testemunho pessoal tem por natureza um caráter subjetivo. Mais ainda quando é produzido a uma grande distância de tempo, pois a memória humana tem as suas fragilidades. Carece de ser lido de forma crítica, como qualquer outra fonte histórica. E de ser cruzado com outras fontes. Mas é uma fonte preciosa.

Recorda-se aqui o testemunho sobre Mário Castelhano deixado pelo seu companheiro de cativeiro Miguel Wager Russel. Tem a particularidade de provir de alguém que pertencia a uma corrente ideológica diferente e muitas vezes discordante.

Disse Russel:

“O Campo de Concentração era uma máquina infernal montada pelo fascismo e destinada a devorar os filhos mais dedicados e respeitados do povo português. Ano após ano foram desaparecendo figuras gradas do movimento operário português […].”

Os comunistas e simpatizantes foram as maiores vítimas, mas não só eles. Dirigentes anarquistas e anarco-sindicalistas, alguns com um passado de lutas constantes e de dedicações incorruptas à causa dos trabalhadores, também eles ficaram sepultados no cemitério do Tarrafal. Assim desapareceram do nosso convívio um Arnaldo Simões Januário, um Mário Castelhano, um Joaquim Montes.”

Mário Castelhano fora vítima de uma febre intestinal, para o tratamento da qual o médico não dava medicamentos apropriados. Vimo-lo, uma tarde, no seu leito de agonia levado pelos companheiros para a enfermaria. Muito pálido, de uma magreza esquelética, ainda nos balbuciou uma palavra de esperança, a poucos dias da morte […].”

Fora um dos dirigentes anarquistas do Tarrafal mais considerados e a cujas atitudes cheias de ponderação se deveram em grande medida não só o clima geral de entendimento como de unidade dos cativos face ao inimigo comum. Animoso, e crente na vitória final do antifascismo em Portugal e no mundo, encorajava com paciência os raros hesitantes com quem convivia mais de perto.”

Ele, como Bento Gonçalves, eram escolhidos, invariavelmente, para o comité de campo, representando cada um deles as correntes comunista, anarquista e os seus respectivos simpatizantes. Às vezes dialogavam a sós, em estiradas conversações, na busca de soluções unitárias de cúpula que correspondessem aos pontos de vista das duas organizações. Os dois respeitados dirigentes ficaram ligados para sempre pelo traço comum da morte nas sepulturas paralelas onde jazem com dois anos de diferença (1940-1942).” [Miguel Wager Russel (1976), Recordações dos anos difíceis, Lisboa: Edições Avante, pp. 119/120]

Notas

a) Miguel Wager Russel sobreviveu a 8 anos de cativeiro no campo de concentração do Tarrafal. Emigrou depois para Moçambique, onde refez a vida e permaneceu uma referência da oposição à ditadura. Com o 25 de Abril, surgiu como dirigente do Movimento dos Democratas de Moçambique – que apoiou a independência. Regressou a Portugal em 1976, radicando-se no Seixal. Continuou ativo como militante do PCP e ativista da URAP (União de Resistentes Antifascistas Portugueses). Faleceu em 1992.

b) Bento Gonçalves, operário metalúrgico, nasceu em Fiães do Rio, Montalegre, em 1902. Foi morto no Tarrafal em 1942. Tinha 40 anos de idade.

c) Arnaldo Simões Januário, barbeiro, nasceu em Coimbra em 1897. Foi morto no Tarrafal em 1938. Tinha 40 anos de idade.

d) Joaquim Montes, operário corticeiro, nasceu em Almada em 1912. Foi morto no Tarrafal em 1943. Tinha 30 anos de idade.

Este artigo é ilustrado por duas fotografias de Mário Castelhano aquando da sua prisão pela polícia política em 1934 [Arquivo PIDE/DGS, Arquivo Nacional da Torre do Tombo].

Luís Carvalho

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