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Revisitar o livro Memória, de Álvaro Guerra

Em Ribatejo Cool

Ribatejano de cepa, Álvaro Guerra foi combatente da Guiné (1961-1963), recebeu ferimentos, depois de regressar estudou em Paris, onde viveu até 1969, praticou jornalismo em Portugal, foi diplomata. Em termos literários, esboçou inicialmente uma atração pelo Neorrealismo, em Paris afeiçoou-se pelo movimento Nouveau Roman, que teve entre as suas figuras mais representativas Alain Robbe-Grillet, Nathalie Sarraute, Michel Butor e Claude Simon. Tratava-se de uma arquitetura narrativa de fragmentos, prosas aparentemente desencontradas, muitas vezes sem sequência cronológica, fez voga poucas décadas e não deixou continuadores, apesar de grandes criadores literários, como José Saramago, terem urdido construções espessas, autênticos blocos sem cedências a pontuação, irem beber ideias a tal processo narrativo.

Memória é uma das primeiras obras de Álvaro Guerra, abre com um tropel discursivo em que a sua memória regressa ao mato, numa cadência alucinante: “no calor morria e nesse medo matava rasgando capim folhas lianas a tiros de raiva e metal escaldante metralha a abrir o caminho para hoje percorrido comigo desde o meu corpo espalmado na terra a beber o suor e o sangue e os olhos fechados invocavam imagens e logo se abriam para a dor real naquele longe de casa que eu era rastejando entre os silvos e explosões zumbidos aos ouvidos meus sentidos todos na fusão com o nada e desesperado disso que eu sabia ser tarde para a escolha que não fiz e matava e no meio desse calor morria e me abria o caminho da justiça sem voz…”. Houve quem escrevesse que era um livro de contos, não acredito, são textos recitados à volta de um eixo central, é o que vem à memória, quase de forma automatizada, há infância, há mesmo um passado colonial guineense que ele vai descrever admiravelmente no texto Ponta Tenente, falará dos seus amores em Paris e não escusará dizer-nos o que pensava da sua identidade: “Nasci na pátria do ódio gentil, na pátria da paz e do sonho, do idílio de uma seringa cheia de medo com uma veia cheia de velho sangue, uma veia sossegada e antiga, sem dores de me parir. Cresci entre as histórias mentirosas e as mezinhas mitológicas de adiar mortes serenas, milhões de tranquilíssimas mortes conformadas, ao som do fado-hino e da saudade-destino”. Um dos seus textos deste seu livro foi escolhido por João de Melo para a antologia Os Anos da Guerra, tem seguramente a ver com a sua chegada a Bissau em 1961:

“A companhia recém-desembarcada dos três velhos aviões a hélice foi provisoriamente instalada no Liceu da Cidade que, para o efeito, se encontrava equipado com aquilo que habitualmente equipa um liceu: carteiras, mesas de professores, quadros pretos, ponteiros, giz, globos terrestres, animais empalhados, provetas, tubos de ensaio, bicos de Bunsen, estalactites e estalagmites, poliedros, frascos, boiões, um esqueleto muito pouco convincente e, ainda, como extra ali colocado para maior comodidade da tropa, alguns fardos de palha. Quando a soldadesca saltou dos camiões, o capitão ordenou a formatura e disse para terem muita atenção em não escangalhar nada do que estava lá dentro”. A dita soldadesca ali montou a sua logística, adaptou-se, a palha serviu de colchão, apareceram cozinhas rolantes com uma refeição quente, houve protestos, até se brincou com o esqueleto.

Mas é o texto intitulado Ponta Tenente que merece as honras da casa, no que tange às memórias guineenses. Pode muito bem ter acontecido que Álvaro Guerra tenha conhecido os escombros desta granja implantada no Rio Grande, rebuscou dados históricos e deu-nos uma prosa aliciante, injustamente esquecida: “Sangrada a terra por viagens sem regresso que levaram pais e filhos nos bojudos porões dos veleiros, restou da sangria a dissimulada lembrança e o silêncio e a vontade de Deus que tudo pode, até chegar e instalar-se o Tenente, o branco, que parecia não vir buscar nada e pelejou ao lado dos homens contra a pilhagem de Amadu Paté Coiada, régulo do Gabú, e contra o veneno de serpentes, os insetos, as febres, os tornados, a sede e a traição das onças e dos enviados do chão francês. Durante a guerra, montou quartel à beira do Rio Grande, junto do Cais dos Escravos; pelo Tcherno Kali possuíam os dois mais fogosos cavalos da região e repartiam entre si as mais belas virgens, em haréns de pacotilha, sem ofensa de Cristo e de Alá…”. O tenente dedica-se à agricultura, há um vapor, de nome Maria, e cujo capitão, o cabo-verdiano Vicente, transporta as suas laranjas para o mercado de Bolama. Estas laranjas atingem uma carga simbólica que toma conta da narrativa, medram numa autêntica luxúria, é uma reprodução que abre caminho a uma vitória da agricultura, algo sem precedentes, um estranhíssimo milagre saído do ventre da terra: “Os pés de laranjeira trazidos da metrópole com mil cuidados puseram-se a crescer, floriram um ano depois, deram as primeiras laranjas no segundo e, a partir do terceiro, o Tenente podia ter enchido com eles uma frota de cinco ou seis barcos iguais ao vapor Maria, na época da colheita, quando Ponta Tenente cheirava a laranja a três milhas de distância e grandes montes de frutos apodrecendo ao sol ladeavam a álea das acácias rubras que iam do tosco cais de tábuas de pão-sangue até à casa grande. Experimentadas como adubo nas searas, as laranjas ajudaram a crescer um amendoim ligeiramente adocicado e grossas e longas raízes de mandioca não totalmente brancas mas rosadas. Passados anos, Ponta Tenente florescia: ananases e abacaxis enormes e dulcíssimos também cresceram e se multiplicaram, o decrépito vapor Maria passou a fazer a viagem três vezes por mês, mas não era possível deslocar sequer a quinta parte da produção. Não só as laranjas apodreciam em Ponta Tenente. Legiões impressionantes de formigas pretas investiam periodicamente a casa grande, o armazém, a loja, que círculos de fogo tentavam defender dos ferozes ataques: gibóias, surucucus, cobras-verdes abundavam nas proximidades e realizavam incursões frequentes atraídas pela abundância, sem falar nos fedorentos saninhos, nas lúgubres hienas, nos destruidores bandos de macacos”. Dá-se o envelhecimento do tenente, fica artrítico e grande consumidor de aguardente de cana ou vinho de palma. Inopinadamente, o vapor Maria um dia trouxe a mulher e o filho do tenente que não o viam há 14 anos, não suportaram o clima e reembarcaram no vapor, no meio do odor enjoativo do gergelim e dos ananases. Vieram as pragas da mosca, aquela empolgante civilização da Ponta Tenente vai gradualmente chegar ao sono profundo, a selva reocupa o lugar espoliado, a presença humana entrou em vias de extinção:

“Nesse ano, morreu o Tcherno Kali, longe, no exílio do chão de Cacine. Meses depois, o tenente mobilizou tudo o que sobrava da população da tabanca para a colheita das laranjas, que são particularmente doces e sumarentas, e em número impressionante. Montanhas de laranjas rodeavam a casa grande, a álea das acácias rubras, e começaram a decompor-se, a espalhar um cheiro intenso, doce primeiro, acre, depois, à espera de uma frota imaginária que havia de as restituir à sua origem, porque o Tenente gritava, bêbado, trôpego, agitando uma das muletas como um sabre, nos inconcebíveis limites da loucura, ‘Vieram da China, hão-de ir para a China!’ ”.

E este texto parabólico sobre o mundo tropical onde as regras vegetais podem ter uma ordem bem contrária à dos humanos deixa o seu recado, através da simbólica de que tudo pode crescer naquelas terras úberes da Guiné, e por isso também nos fala da vingança da selva, de que tudo pode apodrecer, pode mesmo dar-se uma ofensiva da baga-baga que reduz ao estéril a exuberância de uma agricultura florescente e a terra pujante definha, verga-se à erva-daninha, ao mortífero clima.

A obra Memória bem merecia ser reeditada, revela a capacidade literária de um Álvaro Guerra ainda jovem e ainda muito ligado à sua experiência guineense.


Monumento a Álvaro Guerra em Vila Franca de Xira

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