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Online, a escrever direito por linhas tortas

Em Opinião

Estávamos a 10 de março de 2020, um dia invernoso, e eu acabara de chegar à UTIS, Universidade da Terceira Idade de Santarém, onde lecionava a disciplina de Escrita Criativa. Andávamos todos bastante entusiasmados com a organização da nossa Tertúlia Literária a realizar-se daí a 3 dias. Sexta-feira 13, um bom ou mau prenúncio para uma tertúlia? Seria a primeira de muitas, era nisso que acreditava. Adoro tertúlias e tudo o que seja convívio entre amigos a partilhar emoções e estados de alma. Há sempre uma energia muito boa quando várias pessoas se juntam à volta de uma mesa, quer seja na partilha de sentimentos mais profundos ou numa amena cavaqueira.

O restaurante estava marcado e tudo confirmado. Tínhamos optado por uma ementa de grupo com um preço acessível a todos, graças à gentileza do proprietário. Alguns alunos que tocavam viola iriam fazer uns breves apontamentos musicais durante a tertúlia. A coisa prometia!

A notícia do encerramento foi completamente inesperada para mim, para todos. Confesso que na altura não tinha bem a noção da gravidade da situação. Despedimo-nos ali, no corredor, com um “até breve” e desejos de “boa Páscoa”. Faltava ainda um mês para a Páscoa. “Então não iriamos regressar antes? Que exagero!”, pensei. Depois foi aquilo que nós sabemos.

Na altura já tinha criado com os alunos um grupo numa rede social. E foi dessa forma que continuámos a falar para sabermos uns dos outros. Um dos alunos da Turma de Escrita Criativa surpreendeu-nos com um vídeo, em que tocava e cantava “uma cantiga para animar a malta”. Eu também fiz uns vídeos para partilhar e dizer: “Olá!”; ”Eu estou bem e vocês?”; “ Quero sentir-vos desse lado!”. Outros alunos partilhavam vídeos, livros que estavam a ler, textos com frases e pensamentos inspiradores, sempre com um único tema em comum e que, afinal, é transversal a todos nós: a vida, esse bem maior! E assim fomos “estando” uns com os outros.

Na passada segunda-feira reiniciamos as nossas aulas de Escrita Criativa. Desta vez num modelo bem diferente, no online, através da plataforma Zoom que, como sabemos, em nada substitui o contacto pessoal. A energia, o sentir da presença física do outro e o convívio de que todos precisamos para mantermos o nosso bem-estar é indiscutível. Mas foi tão bom vermo-nos uns aos outros e conversarmos. Confesso que, de início, até eu estava insegura sobre a forma como isto iria decorrer. Afinal, muitos não estão familiarizados com a Internet e os problemas técnicos, as dificuldades de adaptação e a incerteza da tecnologia poderiam comprometer este desafio. Mas a boa vontade de todos e a predisposição para acompanhar os desafios tecnológicos foram fundamentais.

Não houve o calor da presença humana mas foi tão bom este reencontro!

O próximo será melhor ainda, numa tertúlia a festejar o regresso em pleno! Quero acreditar!

Ana Simão

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