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A Incompetência do Governo e a Pandemia – Um Silogismo de Amargura

Em Opinião

Para meu desgosto, voltou-se a sentir uma trepidação interior que nos alerta, desconfortavelmente, para um contexto em que, enfermos ou não, uma doença domina a vida de milhões de pessoas.

            Os números de infectados e internados, incluindo os em cuidados intensivos, cresceram sobremaneira, o que nos deixou, a muitos de nós, com receio de um retorno a um recentíssimo passado de confinamento obrigatório.

            Naturalmente, a polémica referente à utilização coactiva da aplicação stayaway covid e aos tiques autoritários do primeiro-ministro ajudou a incrementar um sentido de urgência, mesmo que, como todos compreenderão, seja completamente estapafúrdio querer que os portugueses sejam injungidos a descarregar um programa para telemóvel que não é eficiente, nem eficaz, e cuja fiscalização viola direitos fundamentais dos cidadãos.

            Não quero adentrar na discussão jurídica, porque grande parte da minha vivência laboral concretiza-se a debater o Direito e os seus derivados, preferindo olhar para o enquadramento relacional e político justificativo do clamor comunitário que emergiu em reacção a essa hipótese.

            Com efeito, para que possamos enfrentar a pandemia com alguma normalidade, cada um de nós deve ser responsável e limitar, ao máximo possível, os comportamentos de risco; e não me parece que estejamos a fazer o que se nos impõe!

            Todavia, como afirmei numa conversa pessoal, não é a maioria da população que me governa, mas sim o Governo de Portugal! E, como também já expressei noutros fóruns, não acredito que o País sobreviva a uma novel paralisação.

            Ora, desde que a primeira vaga de Covid-19 se iniciou, nós fomos informados, pelos especialistas, de que se seguiria uma segunda onda e que esta, tendencialmente, seria bastante mais agressiva que a primordial investida do SARS-CoV-2.

            Apesar do sucesso em atrasar o pico desta massificada maleita e das consequências penalizadoras não se terem confirmado com a antevista gravidade, a prudência aconselhou-nos, há 7 meses, a prepararmo-nos robustamente para essa segunda vaga, sem prejuízo de nos ser exigível a manutenção de condutas profilácticas

            Findo esse período de controlo razoavelmente estável, e de rotação terrestre em rotação terrestre, começámos a observar um ominoso e progressivo aumento do registar de casos de contágio; no entanto, quem manda afirmava, por entre gafes e engasgares, que a realidade não era preocupante.

            Assim, num volte-face inesperado, o Presidente da República pôs-se a palrar sobre a necessidade de repensar o Natal, os números dispararam e o caldo entornou…

           Dito isto, e para minha tristeza, tornou-se perceptível que o Governo de Portugal, à semelhança do que ocorreu entre os fatídicos incêndios de 2017, adoptou a bela atitude do deixar-andar-enquanto-está-a-correr-bem e não se precaveu. Ao invés de se fiar na ciência e na racionalidade, achou – achismo puro! – que os nossos destinos poderiam ficar entregues ao atirar de uma moeda ao ar…

            Caros leitores, continuamos sem hospitais de reserva, não houve o reforço desejável de profissionais de saúde e equipamento, ninguém considerou relevante protocolar com os serviços privados de saúde uma forma de escoar utentes e doentes, descongestionando hospitais públicos e ampliando a capacidade de resposta; por seu turno, os transportes públicos permanecem latas de conserva cheias de sardinhas entulhadas, impossibilitando o distanciamento social.

            O que é isto senão incompetência?

            Por outro lado, se compulsarmos a proposta de Orçamento do Estado, verificamos que o défice perdura como a verdadeira prioridade, ainda que saibamos que estamos numa fase de excepção!

            Ou seja, não perspectivando como se poderá, de novo, fechar um País, nem o vendo aprestado para o que já cá está e o que aí vem, a conjugação das premissas maiores e menores aponta para que a conclusão do silogismo contenha bastante amargura,… transbordante amargura!

            Esperemos que não…

João Salvador Fernandes

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