fbpx

Festival Nacional de Gastronomia – Origem e difusão revisitadas

Em Ribatejo Cool

O Festival Nacional de Gastronomia. 24 outubro 1981 / 25 outubro 2020. Passaram 40 anos depois de alguns outros marcos: 10, 20, 25, 30, 35 anos de longevidade…

As comemorações de qualquer tema são bem vistas, quase sempre… mas a voz de alguns mais experientes aconselha a tomar algumas cautelas, porque “citar é omitir” – Ideia que fez algum curso há cerca de 20 anos atrás…

E a história faz-se também pelos processos desenvolvidos e não apenas pelos resultados evidenciados. Isto acontece com vários assuntos que vão aparecendo na espuma dos dias e alguns apesar de tudo ainda estão por resolver. Será por isso interessante aproveitar a ocasião que temos vindo a refletir sobre o FNG destes 40 anos para que o trabalho e o estudo que temos em mãos possam ilustrar esse outro lado das coisas que ajudam a compreender os caminhos percorridos…

Fundadores institucionais e operacionais

Dos vários assuntos que se poderiam para já elencar surge a discutível ideia fundacional cujo mentor não foi aquele que foi mais comum considerar-se. Neste aspeto temos de convocar os vários níveis de participação e capacidade de decisão de um processo em várias etapas com visões e posturas diferentes, o que é normal em iniciativas únicas, arrojadas, contra o que era a norma vigente: há os que lançam a ideia e têm uma visão arrojada, aqueles que acompanham e legitimam este tipo de processos, os que executam as tarefas inerentes à realizam da ideia…

Na altura havia uma grande assunção de uma certa institucionalização das iniciativas, potenciando a gestão dos poucos recursos principais: Direção Geral de Turismo, Presidente e Vereador da Cultura da CMS, Departamento de Cultura (Comissão externa à autarquia, apenas de aconselhamento do Vereador, mas com muita autonomia operacional e empenhamento, à época), funcionários da CMS, em Serviços passíveis de viabilizar a iniciativa – Turismo, apoio logístico/Obras, Cultura, Higiene e Limpeza – e até funcionários da Feira Nacional da Agricultura que já conheciam os cantos da Casa do Campino e já lidavam com eventos de grande escala. Isto para além de outras colaborações institucionais e particulares que também devem ser consideradas.

Fotografia de 1984. 4.ª edição do Festival Nacional de Gastronomia. O presidente da Câmara Ladislau Botas saúda José Carrasco (Direção Geral do Turismo), uma das personalidades que imaginaram o Festival (na mesa do lado esquerdo). No palco, Ladislau Botas, Carlos Abreu, Octácvio Mendes, Nuno Domingos, Graça Morgadinho, Luís Soares Rodrigues, Leonel Martinho do Rosário e Zeferino Silva. Foto do catálogo da exposição 40 anos de história do FNG patente na Casa do Campino.

Na época, este era um enorme desafio, novo, desconhecido, uma iniciativa de dimensão e escala maiores, até aí apenas reconhecida à Feira do Ribatejo / Feira Nacional Agricultura.

É por isso que há nomes e boas vontades que foram dando corpo à ideia, a começar pelo seu mentor, José Carrasco, da DG Turismo (em reunião no seu Gabinete com Carlos Abreu e outros do Departamento….), depois legitimado por este e por Ladislau Teles Botas (Presidente da CMS), com o incondicional apoio do Departamento de Cultura (não orgânico), impulsionado pela enorme e arejada visão e determinação do incontornável Manuel Alves Castela que precisou de reincidir na sua forte convicção, para que a ideia avançasse, mesmo com os poucos meios que existiam e sem recursos humanos para este tipo de empreendimento (Alfredo José Pinheiro, Octávio Mendes, Luís Miguel S. Rodrigues, Zeferino Silva, Nuno C. Domingos – todos não funcionários da CMS).

Nuno Domingos, Carlos Abreu, Paula Silva (Direção Geral do Turismo com a escultura do Zé das Papas), Manuel Alves Castela e Zeferino Silva. 1.ª edição do Festival Nacional de Gastronomia. Fotografia de Diniz Ferreira (NovArte) 1981.

Era a instância mais política da decisão (incluindo os conselheiros do Vereador), Equipa Central responsável pela conceção e funcionamento da iniciativa, cujo vértice da pirâmide das responsabilidades eram legitimadas pelo jovem Vereador do Pelouro da Cultura, Carlos Abreu.

E esta conceção de procedimentos socorreu-se também das estruturas mais operacionais da autarquia, necessárias para conceber a infraestrutura a montar na Casa do Campino e nas manjedouras das respetivas Cavalariças da FR/FNA, de junho (Francisco Jerónimo, Massano Matos, Cidalina Silva, Susete Guerra…, contando também com outros, todos se envolvendo muito para além da sua circunstância profissional, para atingir os objetivos deste empreendimento).

Claro que falamos na quota de responsabilidades de cada um destes intervenientes e das funções que vieram a desempenhar neste 1º Festival e Seminário Nacional de Gastronomia de Santarém.

O que esteve em causa, desde início, foi a valorização das cozinhas regionais do país, por resposta ao fast-food explosivo dos anos 70.

E esta visão foi-se mantendo, até que os tempos determinaram as suas mudanças. Porém e apesar de tudo, podemos registar que não mudou assim tanto a forma de valorizar e dar a conhecer as cozinhas regionais nacionais, bem como os seus cozinheiros /as e respetivas receitas. Assim se deseje isso

Isto mesmo pode ser evidenciado de várias formas que elencamos noutras linhas e que podem passar pelo Modelo de funcionamento do FNG e os seus ciclos de vida (detetamos 9 períodos – 4 entre 1981/2007 e 5 entre 2007/2020) [voltaremos ao tema], ou os diversos parceiros de caminhada, ou a formação do serviço de mesa, ou as refeições no Salão, ou os divulgadores daquilo que de Santarém haveria de espalhar-se por todo o país, ganhando uma territorialização nacional consistente que se foi alterando e aligeirando, sobretudo nos anos mais recentes – a gastronomia das cozinhas regionais como apropriação nacional.

Jornais, rádios e Tvs

Estamos já em terrenos da Comunicação Social (OCS) que carece também de longa atenção para se perceber o que ela fez ao FNG, a cada ano, e também o que este fez àquela e ao setor da restauração nacional e regional.

Neste campo podemos detetar, no mínimo, 6 ciclos de desenvolvimento diferentes da sua presença no Festival, que marcam as virtudes dos OCS (que se potenciaram largamente a cada ano; com sucesso, realce-se…) e também as suas vicissitudes menos indicadas para um evento como este, o qual foi sendo, por outro lado, uma caixa de ressonância do que o jornalismo e a sua organização editorial foram e continuam a determinar para a informação da realidade portuguesa e, sobretudo, a gastronómica.

Ao falar-se do jornalismo e reportagem que foram feitos no FNG, temos de atender a muitos ritos e rituais corporativos, bem como às estratégias dos OCS e à autonomia relativa dos seus interpretes no local, os quais também foram construindo um modelo de aprendizagem e de pedagogia para os seus públicos, além da camaradagem própria da profissão (positiva, mas nalgumas vezes de carga negativa).

Da sua ação podemos elencar alguns períodos marcantes no tempo : Fase inicial de agitação da problemática; aceitação e compromisso dos OCS, com várias estratégias evidentes; a fase de consolidação da presença; alteração na linha editorial dos OCS e outro olhar para o fenómeno da gastronomia, devido à proliferação da oferta de Festivais /Feiras gastronómicas ao nível nacional; ausência da imprensa e rádio e o campo único das TVs que alteram a forma de oferta de conteúdos ligados à gastronomia…

As diferentes apostas dos canais de difusão – imprensa nacional e regional, rádio nacional e regional, TV’s é um campo fértil para entender as virtudes e vicissitudes deste FNG e a perceção / apropriação / marca que ao longo do tempo se foi passando para todo o país, com a atenção maior até meados da primeira década deste século.

Estes são alguns temas que estão em desenvolvimento, a juntar a outros que têm vindo a ser compilados ao longo dos anos e que continuaremos para fazer outra luz sobre o fenómeno social Festival Nacional Gastronomia.

Humberto Nelson Ferrão

Leave a Reply

Recentes de Ribatejo Cool

Ir para Início
%d bloggers like this: