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Quando o historiador confunde desejos com realidades… temos fancaria!

Em Ribatejo Cool

A obra intitula-se O 25 de Abril começou em África, os coordenadores fazem parte do Grupo de História Global do Trabalho da UNL, Edições Húmus, 2019, apresenta-se como um contributo e um apelo que respondam a uma magna questão que os autores assim sintetizam: “Apesar de a historiografia portuguesa tender a tratar a resistência ao regime do Estado Novo e o seu derrube como se fosse um assunto interno do retângulo português, ignorando a dimensão colonial, a revolução que na metrópole se iniciou em 25 de abril de 1974 é largamente tributária das guerras de libertação travadas pelos movimentos independentistas de Angola, Guiné e Moçambique entre 1961 e 1974”. Fica-se abismado com a declaração solene, como se não fosse do senso-comum a estreita conexão entre a formação do MFA e a extinção do Império, há centenas de obras de investigação, a dimensão colonial nos acontecimentos do 25 de Abril é por demais patente, isto a despeito de diferentes formas de oposição com que o Estado Novo se viu confrontado e não foram as menores as que se manifestaram por crises universitárias, encadeamento de greves, o apoio de partidos e movimentos à autodeterminação das colónias e a própria convulsão que minou no interior o regime liderado por Marcello Caetano, bem prova disso é o que hoje se sabe sobre as tentativas, já em 1974, para que o regime encontrasse soluções de independência ou autodeterminação com diferentes estilos, era o desespero para uma solução política fora de horas.

Patrulha do PAIGC em movimento

Entra-se pois na leitura deste trabalho coletivo à procura de elementos novos. A deceção é total. Começa-se por repescar um texto dos anos 1960, assinado pelo conceituado Perry Anderson, intitulado “Portugal e o fim do ultracolonialismo”, interessante na época, hoje uma mera leitura de referência entre tantas outras, o colonialismo português está hoje bem investigado nas suas diferentes etapas: a ocupação e formas de comércio, o tráfico de escravos em praças e feitorias, as tentativas de colonização, a presença religiosa e a chegada das multinacionais para a exploração das riquezas. Obviamente que Anderson só podia ter estudado os acontecimentos angolanos, era ao tempo o único teatro em conflito. Salta-se para um estudo que é rigoroso e enxuto sobre a luta armada e mobilização política na Guiné entre 1963 e 1974, é seu autor José Augusto Pereira, que sabe comprovadamente do que fala, mas que também não adianta muito mais do que se sabe, é uma síntese idónea, o que já não é nada mau.

E se até agora não se vê qualquer homologia e sequência entre as guerras de África e a resistência interna ao regime do Estado Novo, temos o texto de Peter Robinson que viveu em Portugal uma parte do processo revolucionário, homem da Esquerda radical e que nos vai igualmente descrever uma matéria constante em centenas de obras, neste caso sob o prisma de alguém que não se camufla de historiador, dá um testemunho de um esquerdista, não perde a oportunidade de aplicar umas ferroadas ao Partido Comunista e reconheça-se que enquadra sem miopia o que foi a Esquerda revolucionária e as razões que conduziram ao seu insucesso e ao malogro do 25 de Novembro de 1975.

Jorge Fontes vai-nos falar do exílio lusitano no Brasil em oposição ao Estado Novo Português, é uma mera curiosidade, estas figuras oposicionistas, como Sarmento Pimentel, apesar da sua integridade e combatividade, e mesmo quando atacaram a política colonial do Estado Novo, tiveram uma carga mais simbólica do que outra coisa.

Capitão Duran Clemente na televisão, em 25 de novembro de 1975

E se nesta altura já se tem a plena convicção de que se está perante uma manta de retalhos a que se deu por puro oportunismo o título O 25 de Abril começou em África, mergulhamos na luta da empresa têxtil Sogantal, situada no Montijo, apresentada como um importante marco na luta pela autogestão, liderada por mulheres, mostram-nos as operárias em luta e conclui-se assim:

“Devido às debilidades do processo revolucionário português e às suas dificuldades em encontrar um desfecho para uma via socialista, a democracia capitalista acabou por impor-se pela força, através da contrarrevolução do 25 de Novembro: pela recuperação das lutas, o capitalismo democrático renovou os seus quadros de gestão e organização do processo produtivo e tomou a democracia eleitoral como seu modelo político”. Só falta dizer que o PCP se portou como um partido menchevique, que o Documento dos Nove atingiu no cerne o processo revolucionário e o que se passou nas lutas de libertação em África não trouxe a libertação aos trabalhadores portugueses.

A comoção ao saber que o sonho revolucionário falhara

Já se entrou no delírio das narrativas, a desarticulação entre a proposta inicial e o vazamento de textos a trouxe-mouxe é real, não há ilusões nenhumas que os coordenadores tinham para ali uns textos e resolveram fazer um dito de espírito, uma nova ruminação sobre as condições de trabalho, os empregos da treta e até um manifesto desapontamento com a política de geringonça, esta não é revolucionária como os autores gostariam, as bases da recuperação económica são frágeis (como se toda a gente não soubesse) derivadas sobretudo do ambiente externo favorável (como se toda a gente não soubesse) e o Estado social encontra-se em degradação acentuada.

A manta de retalhos termina com a lei laboral portuguesa no período da democracia constitucional, escreve Eduardo Petersen: o legislador laboral revelou-se ineficiente para combater as práticas fraudulentas que permitiram a pura e simples subtração dos trabalhadores à proteção laboral. E assim termina este livro fruta-cores disfarçado de investigação em estrita obediência ao que nos diz o título. Não se pode dizer que a obra em si seja totalmente inútil, é um desconchavo misturar toda a problemática do trabalho e do processo revolucionário, metendo à pressão um estudo internacional curioso, o de Perry Anderson, hoje uma relíquia mas nada mais do que isso e fazer uma descrição da luta da Guiné, esquecendo (ou não tendo nenhum investigador à mão para tal), o que se passou em Angola e Moçambique, do princípio da luta até à independência.

Uma recolha dececionante com a agravante de o título ser um chamariz enganoso.

Mário Beja Santos

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