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Aqui se faz, aqui se paga! Com sotaque açoriano!

Em Opinião

            Apesar de conexões familiares e profissionais aos Açores, conjugadas com algumas visitas às suas maravilhosas pérolas arquipelágicas, estou longe de conhecer, ao pormenor, a realidade destas nossas ilhas atlânticas. Por via disso, vejo-me na obrigação de manifestar que fui tomado pela surpresa quando soube dos efeitos do sufrágio recentemente ocorrido naquela região autónoma.

            A contragosto, esperava que o Partido Socialista renovasse a maioria absoluta e que os açorianos continuassem a perpetuar o nepótico domínio cesáreo do território. No entanto, os nossos concidadãos insulares, uma vez mais, demonstraram que, em eleições, é perigoso pensar que os resultados são favas contadas.

            De repente, como se o princípio da compensação regesse a lei das médias, surgiu a oportunidade para diversos partidos políticos se unirem – independentemente da forma como se constrói essa aliança – e retirarem o poder executivo ao PS.

            Falo-vos em princípio da compensação, porque, em 2015, rompendo com tradições e  entendíveis expectativas, a agremiação capitaneada por António Costa, com o apoio do Bloco de Esquerda e da CDU, conseguiu erguer a inimaginável Geringonça e arredar o PSD e o CDS do governo de Portugal.

            Como escrevi na altura, e sem prejuízo de um notório desagrado, a proposta que foi apresentada a Cavaco Silva, então Presidente da República, beneficiava de toda a legitimidade constitucional, traduzindo-se, de idêntico modo, num momento marcante que reacendia o interesse pela política parlamentar.

            Compreensivelmente, as hostes do Partido Social Democrata e do Centro Democrático Social indignaram-se com a possibilidade de, triunfando nas legislativas, não se observarem reconduzidas no comando dos destinos do País, enquanto o actual primeiro-ministro e Carlos César sorriam, sardonicamente, desdenhosamente, alegando que as pessoas não votam para escolher o líder de governo, mas para atribuir mandatos a deputados (o que é verdade).

            Agora, confrontado com esta inversão de papéis, torna-se num dever moral largar umas boas casquinadas, das bem sonoras, quando o primeiro-ministro e o patriarca César, auxiliados por Vasco Cordeiro e seus esbirros, renegam tudo o que afirmaram em 2015. E os sorrisos de gozo? Evaporaram-se!

            O caro leitor está no seu direito se me contestar, asseverando que o PSD e o CDS também praticam similar contradição, porque foram ao ponto de invocar absurdos costumes constitucionais para acusar a Geringonça de ser um ilídimo aparato criado com o singelo fito de usurpar o poder.

            No final, será a hipocrisia a inequívoca vencedora? Talvez. Mas eu prefiro concluir que António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa (não sei quem manda no PEV, essa verde ficção) fizeram escola, desbravando terra virgem. Como sói dizer-se: aqui se faz, aqui se paga (pronunciado com sotaque de São Miguel)!

            Ora, há uma saudosa amenidade, evocando tempos de enorme relevância histórica, quando PSD, CDS e PPM se apresentam, coligados, como alternativa ao Partido Socialista; porém, não escondo o meu inquietamento por saber que, para o navio aportar em segurança, o Chega tem de ser integrado na equação, ainda que tão-somente no reduto da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores.

            Já o exprimi – neste e noutros escaparates – que se trata de um albergue de abutres, de extremistas e de charlatães que prosperam graças ao mediatismo de um burlão. Não são confiáveis e escudam medidas que massacram os alicerces axiológicos do Estado de Direito Democrático e Social.

            Todavia, dadas as conjunturas regional e continental, não me parece recriminável que PSD, CDS e PPM tentem assumir a chefia do Governo Regional dos Açores, acabando com a empresa de trabalho temporário César & Companhia.

            Além disso, o Chega açoriano foi acometido por uma onda de demissões e, aparentemente, está a desmembrar-se.

            Aguardemos, calmamente, pelo que o futuro nos reserva!

João Salvador Fernandes

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