Um homem não tem avesso – “Perdoa-lhes Pai porque não sabem o que fazem” – Do atentado de Nice ao milagre de Santarém

Em Opinião

Sem darmos voz pública à maioria da humanidade que só “quer viver e deixar viver”, nem honramos os profetas, a paz esteja com eles, nem as mulheres e os homens de boa vontade, como Simone Barreto Silva (morta no recente atentado de Nice numa Igreja Católica e organizadora de cultos de Iemanejá), e deixamos o mal prevalecer, sob todas as suas formas.

No jornal o Observador um texto de Helena Matosi, com o qual embora não concorde com a premissa da inação de Sua Santidade o Papa I perante o terrorismo islamita, a crónica toca em problemas que mais cedo ou mais tarde teremos de enfrentar e se possível resolver. “Não há tolerância para com os intolerantes” é uma máxima antiga. Não conheço a França de hoje, não me parece que realidade seja assim tão negra, mas não posso apenas “dar a outra face” perante a barbárie que teima em relativizar tudo e por no mesmo pé a vida e o respeito pela fé, quando todas as fés repudiam este tipo de ato. Estes assassinatos de Nice, tal como há tempos de Taizé (pouco se falou da morte do irmão Roger) parecem ter como alvos o diálogo entre as religiões, mas não abrem telejornais e quando abrem só se dá voz ao ódio.

Desculpem, mas há também muita mão do “quarto poder” neste processo, uns porque não podem (publicar caricaturas de profetas em países islâmicos e sua defesa deve ser difícil) outros porque não querem, nem explicar o que está em causa, nem dar o devido palco às vítimas, sem as explorar gratuitamente. O dedo apontado à banalização por motivos políticos de formas de Islão (ou de qualquer outra religião) que põem em causa direitos fundamentais, consagrados nas próprias doutrinas que dizem defender, continua para mim tão estranho (ou mais), como a defesa de Estaline por malta do MRPP. Tal como disse Churchill, parecem aqueles que alimentam o crocodilo na esperança de serem comidos em último.

Honremos os mortos cuidando dos vivos, e que não mais crianças fiquem sem mãe por promessas miríficas de além (falo dos rios de mel e de outras metáforas). As nossas preces, o nosso perdão (cristão, demasiado cristão) não pode ser confundido com complacência sob pena de nos vermos afogados em desdém. Honremos as vítimas construindo a paz prometida, saciando a sede de justiça, sem falsos moralismos, mas sem sacrificar o que não pode ser sacrificado: o livre-arbítrio, pelo qual os nossos antepassados já sofreram séculos de ódio e de perseguições. Não é fácil. Nunca nos disseram que seria, mas devemos caminhar de cabeças erguida sem vergonha de sermos cristãos e de embora, tenha tantas vez falhado, o primeiro mandamento ser o do amor ao próximo.

Diz-se no relato de Pedro Mariz da lenda do Santo Milagre de Santarém que após a descoberta da hóstia, reinaram uns poucos dias de paz em Santarém entre pessoas de todos os credos e de todos os sexos. Esse parece-me dos maiores milagres nos tempos que correm. Afinal essa história é tão antiga como a atual. Fala de violência, de adultério, de intolerância e de honra e de amor. Possa essa paz reinar no mundo, são as minhas súplicas a um Santo Milagre que durante séculos foi mostrado ao povo nas alturas de catástrofe, como a que atravessamos.

Simone Barreto Silva nunca esteve fisicamente em Santarém que eu saiba, mas esteve através do seu amigo Ed Ribeiro, “o pintor dos Orixás”, que expôs na Casa do Brasil – Casa Pedro Álvares Cabral, em 2016, com curadoria de Carlos Amado. Ambos inspiraram esta prosa na senda da “paz perpétua” para que mais gente não fique sem entes queridos às mãos do ódio e do fanatismo. Bella sine bellum

© José Raimundo Noras,

Santarém (Sacapeito), 2-6/11/2020

i Helena Matos, “Quem vai ajoelhar diante das vítimas do terrorismo islâmico”, em Observador, 2/11/2020, https://observador.pt/opiniao/quem-vai-ajoelhar-diante-das-vitimas-do-terrorismo-islamico/

Iemanjá: Dona das Águas, acrílico sobre madeira, Ed Ribeiro, 2020  

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