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Virá do arquipélago uma aventura scalabitana?

Em Opinião

Foi com tristeza, mas sem surpresa que vi a famigerada notícia sobre o acordo do Chega com o PSD após as eleições regionais dos Açores.

Alguns ainda nutriam uma ténue esperança que Rio tivesse a rectidão de Merkel, que manteve o cordão sanitário na Turíngia impedindo o congénere do Chega de chegar ao poder[1].

Apesar de o presidente da Câmara de Santarém ser opositor interno de Rui Rio, nesta matéria vai piscando o olho ao seu refugo scalabitano, seja dizendo que aos 16 anos não se pode mudar de sexo,  na defesa acirrada da tauromaquia, bem como no desprezo com que trata a comunidade cigana[2].

O panorama não parece famoso, até porque em Santarém apenas PS e PSD têm vereadores eleitos, ou seja o alvo prefeito para a narrativa “anti-sistema” da “nova” Direita, que não é nem nova nem anti-sistema, mas na política e na vida vivemos uma era de “pós-verdade”, então isso também não é para eles um problema. Basta ver o que disse Manuela Estevão sobre a Estátua “vandalizada” de Pedro Álvares Cabral em Santarém, usando uma foto de 2009, mas não vou por aí, até porque argumentos racionais não funcionam para esta situação.

Portanto, estamos numa situação nova, ou seja já percebemos que em autarquias e no País o PSD para governar tem de fazer acordos com o Chega. Uma situação nova, em que um partido consegue puxar a esquerda para o centro, radicalizar a Direita e ainda “ganhar” o voto de protesto, que tal como em 2011 se começa a desenhar como sendo marcadamente de Direita.

A solução não é fácil, Riccardo Marcchi analisa o fenómeno de forma interessante no seu livro[3] , nomeadamente ao referir a tónica “nacionalismo liberal” como pedra de toque ideológica do Chega, uma espécie de CDS de Lucas Pires 2.0.  Que fica assim “blindado” a qualquer acção de ilegalização, que no caso de Hitler até o favoreceu. Basicamente é uma iniciativa liberal que chega aos operários, enquanto que a primeira fica pelos CEOS, uma Direita marcadamente popular, que pega nos sentimentos de injustiça de quem trabalha, e os canaliza não para o patrão, mas para o “outro” (minorias e emigrantes).

É um partido personalista, conservador e “ruralista” , algo que no nosso Distrito pode ter bastante impacto, um partido que agrada simultaneamente ao Opus Dei (assessor e spin Tiago Frazão é disso exemplo) e ao desempregado. É bastante forte e duro de combater, e onde esperar do “Ribatejo Sociologicamente Socialista” a solução, levará ao desastre.

É o partido da “liberdade fardada”, do culto da polícia, que não se combate hostilizando quem o apoia, nem com campeonatos de “rótulos” que se revelam ineficazes e o favorecem, bem como lutar pela “verdade”, a sua estratégia será sempre galopar o caos e o protesto, em particular polarizar a sociedade contra o confinamento e medidas no âmbito da covid-19, exaltando sempre a “liberdade individual”, sempre argumentos fortes, emocionais e empáticos, que não permitem contraditório ao cidadão comum. Exemplo: “combate à corrupção” quem for contra é corrupto! “combate aos pedófilos”, quem for contra é pedófilo! Ou seja discute-se apenas virtudes pessoais, polarizando o debate, o chamado virtue signaling[4], armadilha em que alguma Esquerda caiu, por não perceber que a moralidade é coisa da religião, e no século XXI precisamos de uma Esquerda de “combate” e de um antifascismo consequente e não lírico, é preciso secar a agenda da Direita, prover bem-estar social e roubar-lhes de forma competente as bandeiras. Um exemplo, ser consequente no combate à corrupção, não ficar com tibiezas por exemplo com Rui Pinto, não cair no erro de querer ser institucionalista hoje, anti-sistema amanhã. Esse erro custará muito caro, quanto mais uma Esquerda for “institucional” mais crescerá este fenómeno.

Em Itália esta nova Direita já lidera as sondagens[5], e nas páginas 140-150 do livro de Riccardo Marchi “ A nova Direita Anti-sistema” é feita uma análise bastante interessante sobre algo inédito na política, ou seja temos uma Direita a lutar pela hegemonia cultural , ao Estilo de Gramsci, por oposição à escola de Frankfurt a que chamam de “politicamente correto” e “Marxismo Cultural”, herdados do Maio de 68. Isto é bastante importante ou seja a Direita roubou o “método” à esquerda que não pode ficar a dormir, e é interessante a referência de que o ideológo Castela do Chega, recusa comparação com a AFD Alemã, mas simpatia com a Lega Italiana, o Vox e o Fidesz na Hungria. Tal acontece porque são casos em que o Partido da extrema-direita destruiu o de Direita moderada, que é a estratégia em causa, a “maçã envenenada”, que no caso português goza do facto de um PSD que não se une sem poder, e está receptivo a cedências. Pega ainda em Partidos que fazem da batalha dos costumes uma muleta eleitoral.

O facto de termos uma das maiores crises e onde o keynesianismo terá os seus limites, torna a sua narrativa eficaz, desde logo porque os jovens viverão em regra pior que os pais na sua maioria, e vão estudar para nada, algo que os fará receptivos da mensagem de odiar o semelhante.

Bill Eddy no seu livro”Why We Elect Narcissists and Sociopaths – And How We Can Stop!” dá a receita para os parar, tal como aflorei supra e que agora vou rematar.

Aproximar e empatizar com quem é o público alvo do populista conflituoso, sem atacar eleitores, pois a polarização e o insulto favorecem o oponente.

Impedir o “nós” e “eles”, todos somos parte da sociedade, e quem não se sente assim tem de passar a sentir, entendendo porque não se sente.

Conectar ao eleitor como pessoa individual, sem ideias de inicio (folha em branco), porque as pessoas em regra odeiam políticos.

Medo e raiva são a emoção que os políticos de alto conflito usam para formar suas conexões mais fortes com seus seguidores, especialmente com seus verdadeiros crentes.

O esforço deve ser feito nos medos das pessoas e em como enfrentá-los, mas cuidado para não fazer de outra pessoa ou grupo o inimigo. De facto, quando pudermos, devemos dizer que focar a raiva em outra pessoa ou grupo pode parecer bom por um momento, mas não resolverá os problemas modernos e complexos de hoje.”

Podemos até mencionar como o senador John McCain lidou com a raiva de um eleitor contra Barack Obama durante as eleições presidenciais de 2008, quando estavam disputando entre si: um eleitor na plateia de uma reunião na Câmara Municipal disse que Obama era árabe, o que implica que ele não era ”. Nasceu na América e, portanto, não deveria concorrer à presidência. Mas McCain imediatamente pegou o microfone e veio em defesa de Obama[6]:

“Não senhora, senhora”, disse McCain, enquanto a multidão conservadora vaiava o candidato republicano. “Ele é um homem de família decente, cidadão, com quem por acaso tenho discordâncias em questões fundamentais. É disso que se trata esta campanha “.

Conhecer a realidade dos seus problemas, explicá-los como problemas que precisam de se resolver, dando soluções concretas e não chavões “democracia participada etc.” em vez de pessoas que nós precisamos de odiar ou lutar.

Exemplo: “mato-me a trabalhar e eles vivem de RSI”, dar uma solução, e mostrar por exemplo, se essas pessoas não o recebessem provavelmente o senhor era morto num assalto por essas pessoas, e as pessoas de RSI pelo menos podem ir comprar um jornal ao seu quiosque, no fundo mostrar que as políticas sociais são “compras de paz social”, e como as pessoas são egoístas talvez percebam assim.

Evitar transformar uma pessoa ou grupo no inimigo. Não ser o herói da fantasia, por mais tentador que seja, mas focar na crise da fantasia e em como ela não é uma crise, problemas reais e soluções reais, até porque na fantasia o nacionalismo ganhará sempre.

Ser forte, enérgico e poderoso – os eleitores querem um relacionamento com alguém que dê a aparência de força. Os eleitores também querem pensar em seus candidatos como vencedores. Alguns eleitores até trocam de lado perto de uma eleição[7].

Finalizo Com duas perguntas, é o PSD em Santarém herdeiro de Sá Carneiro? [8] E os nossos Democratas vão fazer algo sobre a ameaça que paira na nossa região?

Luís Martinho


[1]    https://www.dn.pt/edicao-do-dia/07-fev-2020/desta-vez-merkel-impediu-pactos-de-poder-com-a-extrema-direita-ate-quando-11793738.html

[2]    https://maisribatejo.pt/2020/10/31/santarem-os-ciganos-e-o-bastao-em-vez-de-integracao/

[3]    A Nova Direita Anti-sistema, o caso do Chega

[4]    a expressão de pontos de vista com o propósito de demonstrar uma suposta superioridade moral.

[5]    http://europeelects.eu/italy/?fbclid=IwAR1Tv5lNUm6YNAGChGJ9aQ-3_-7SpQSNJ_GDUKjINZhXWYdDwY_XmexvSL0

[6]    Trump Bubbles: The Dramatic Rise and Fall of High-Conflict Politicians Paperback – June 14, 2016

      by Bill Eddy 

[7]    Why We Elect Narcissists and Sociopaths―and How We Can Stop Hardcover – May 21, 2019

      by Bill Eddy

[8]    https://www.youtube.com/watch?v=bysPResFr_o

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