Sidónio Muralha (1920-1982): “o homem que não teve avesso”

Em Opinião

“Parar não paro / Esquecer não esqueço / se carácter custa caro pago o preço/ Pago embora seja raro / mas um homem não tem avesso / se tropeçar não paro / Não paro nem mereço […]”1

No “ano de todos os centenários”, de Bernardo Santareno a Amália Rodrigues, é importante lembrar Sidónio Muralha: “o homem que não teve avesso”.

Apaixonei-me por Pedro Sidónio de Araújo Muralha nos anos 90, quando ajudava um jovem de carácter puro a fazer tarefas da escola, como na canção do Padre Zézinho2. Que eu saiba Sidónio nunca esteve em Santarém. Porém, espiritualmente, esteve na Casa do Brasil em 2014. De facto, em Santarém guarda-se a coleção particular mais abrangente da sua obra e com a ousadia de Susana Pita Soares, e apoios de Conceição Prino, de Paula Moura, de Conceição Branco e de Carlos Amado, de entre outros, levou-se a cabo a mostra “Sidónio Muralha e a Poesia Gente” em 2014. Foi ao imortal escritor lusobrasileiro que fomos buscar o título desta sequência de crónicas, começadas pela exigência de paz.

No poema Roteiro, num livro que, graças ao “medo da PIDE” é à convivência de alguns portugueses, nunca se conseguiu publicar autonomamente, Sidónio Muralha deixou um repto moral aos poetas e às poestisas e a todos os homens e mulheres do futuro3. Do outro lado da política, mas tal como o filósofo irlândês Edmund Burke4, para o neorealista não bastava exisitir na margem da vida, importava dizer “não!” quando o mal triunfava. Foi isso que Sidónio fez.

Hoje, os sectários, os neófitos de esquerda e da direita, prepararam-se para vituperar a sua mensagem. Uns, por certo, o chamarão colonialista, visto que viveu e prosperou no Congo Belga, antes das guerras da independência. Os críticos esquecerão os esforços de educação de todos os africanos que desenvolveu com sua mulher, Maria Fernanda de Almeida. Outros di-lo-ão paternalista nos seus poemas e nas suas prosas louvando Camões e as descobertas portuguesas, como se houvesse um pecado original em correr mundo e em ser português. Outros ainda o valorizarão o homem de negócios, o perito financeiro que, embora acreditasse noutro mundo possível, trabalhou para um dos maiores conglomerados empresariais do mundo do seu tempo (a UNILEVER). Outros mais irão buscar no poema inédito Velho Oceano Português formas de colonizar os homens que nunca foram consentâneas com Sidónio Muralha. E por tudo isso, que mais não fosse, é tão importante falar nele, para defender o seu legado dessas vozes. Sidónio foi um homem que une, “um português cidadão do mundo”, assim se definiu.

Sidónio foi um homem do seu tempo, mas “um homem sem avesso”. Defendeu o neorealismo e a utopia, que acreditava ser verdadeira no “mundo socialista” (o qual não consta ter visitado). Defendeu a teoria feminista, a ecologia e, acima de tudo, as crianças, porque são delas o futuro e a mudança. Perante um mundo desfigurado com a guerra e com a bomba atómica, Sidónio ergueu a esperança. Este texto é dedicado a essa esperança contra o triunfo do medo e para que reforcemos a coragem. Para que saibamos que o que está em causa diante o futuro é a subsistência da humanidade e não a do planeta. “Se o homem não souber corrigir caminhos, a vida tomará outro invólcuros”5 e vai continuar.

Perante a ameaça comum, Sidónio acreditava que os homens se iriam unir e não dividir. A sua mensagem, carregada esperança e de ecologia, é fundamental. E já passou tanto tempo, desde do esse grito. Urge por mãos na obra. Saudemos a Fundação com o seu nome, erigida pelos filhos Beatriz Muralha, Mário Jorge Muralha e pela viúva Helen Butler Muralha, nos anos 80 em Curitiba, como farol dessas mensagens, que leva ao interior do Brasil e também à Europa.

Bastou um bicho mais pequeno do que pó para nos fazer temer a morte coletiva, quando ela já gritava nas árvores e nas calotas polares. Outra vida é possível. Outra forma terá de ser equacionada, não para salvar o planeta, os bichos, ou a vida, mas para que continue existir a humanidade e com ela a poesia. Vale pena? Nos antípodas de Sidónio, Fernando Pessoa diz-nos que sim.

Na sua mensagem ética e poética, Sidónio Muralha não poupava a ninguém, nem ele próprio. Tenhamos a sensatez de não deturpar as palavras dos poetas e de saber construir o futuro com um “Roteiro de verdade, de coragem e de esperança”. Sem medo e perserverança, vamos educar homens e mulheres sem avesso, porque “a palavra de criança não está poluída”, como reforçou João Manuel Ribeiro, no seu trabalho sobre este autor6.

Inspiremos-nos neste Roteiro cantado pelas vozes límpidas de Vanessa Bumagny7 e de Beto Capeletto8; “[…] Um rio só, se for claro, / Correr, sim, mas sem tropeço / Mas se tropeçar não paro / – não paro nem mereço”9.

José Raimundo Noras

“Roteiro”, [Folheto de homenagem a Sidónio Muralha], Curitiba: FSM, s/d, [1986?], 
Fotografia de exemplar do Museu do Neo-Realismo (Vila Franca de Xira, MNR, Legado Sidónio Muralha) 

Notas:

1 Sidónio Muralha, “Roteiro”, Que Saudades do Mar, em Poemas, Porto: Ed. Inova, p. 196.

2 Refiro-me a “Amar como Jesus amou” de Padre Zézinho, disponível em linha: https://www.ouvirmusica.com.br/padre-zezinho/205779/. Mais conhecido como Padre Zezinho, José Fernandes de Oliveira é um sacerdote católico (da Congregação Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus), escritor e músico, nascido em 1941 no Brasil, cuja influência musical foi marcante nos anos 70 e 80.

3 Falamos de Que Saudades do Mar, integrado na antologia Poemas, Porto: Editorial Inova, 1971, pp. 147-196, graça à ousadia dessa editora, onde colaborou Armando Alves.

4 Referimo-nos à máxima “All that is required for evil to triumph is for good men to do nothing.“ (“Tudo o que é necessário para o mal triunfar, será os homens bons não fazerem nada). Há dúvidas da real autoria da frase expressas neste artigo de Christopher di Armani, em linha: https://christopherdiarmani.com/8275/human-rights/required-evil-triumph-good-men/.

5 Sidónio Muralha, “Pórtico” em Pássaro Ferido, Rio de Janeiro: Editorial Nórdica, 1972, p.

6 Expressão de Sidónio Muralha no livro Valéria e a vida (Gailivro, 2014) que deu título ao trabalho de João Manuel Ribeiro, Palavra de Criança não está poluída – obra infantil de Sidónio Muralha¸ Porto: Tropelias e Companhia, 2014.

7 “Roteiro” (Sidónio Muralha) musicado e cantado por Vanessa Bumagny, em Pétala por Pétala, 2009, em linha: https://www.youtube.com/watch?v=t1T36FT_wIg.

8 “Roteiro” (Sidónio Muralha) musicado e cantado por Beto Capeletto, em linha: https://www.youtube.com/watch?v=iq9g3P4jzxg&t=75s.

9 Sidónio Muralha, “Roteiro”, Que Saudades do Mar, em Poemas, Porto: Ed. Inova, p. 196.

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